Marcelo Rebelo de Sousa vem do PSD, pertence à elite de Cascais, foi (não sabemos se ainda o é) amigo pessoal de Ricardo Salgado, ‘o dono disto tudo’, e faz a ponte perfeita entre a elite do Estado Novo e a do pós-25 de Abril. No Portugal corriqueiro, que reduz a discusão política a frases feitas que vêm do conhecimento fácil das coisas tal como estas (não) são, tem tudo para ser de direita, apesar de extremamente apreciado pela esquerda.

Alguns dirão que esse feito extraordinário resulta das inúmeras qualidades sociais de Marcelo. Infelizmente, não creio que assim seja. A explicação para o fenómeno de popularidade de um presidente, que devia ser de direita, entre o eleitorado de esquerda, deve-se ao facto de Marcelo personificar melhor que ninguém o estatuto privilegiado que sustenta o regime do pós-25 de Abril. É que a distinção das elites, que no Estado Novo eram de direita e que depois de 1974 se tornaram de esquerda, em nada se alterou com a revolução, como pouco de relevante se altera com as revoluções.

Tendo o voto da direita no bolso e sendo o garante de ‘status quo’ que a esquerda precisa, Marcelo limita-se a andar pelo pelo país a distribuir palmadinhas nas costas, abraços e… selfies (o que é muito mais higiénico que os beijinhos). Ora, sendo isto tudo de que é dono e senhor, Marcelo já não é de direita. Ou dito de outra forma: já não é da direita em que os cidadãos com 20 e 30 anos se revêem. Nem sequer é da direita das pessoas mais velhas que viraram as costas ao que o Estado Novo representava.

Sendo a direita actualmente anti-sistema não há muitos motivos para que esta apoie a recandidatura de Marcelo Rebelo de Sousa à Presidência da República. Marcelo não só representa o atavismo da sociedade portuguesa, com a leviandade e a futilidade que caracteriza a forma como exerce o cargo (e que tanto jeito dá à esquerda), como entra em contradição com a necessidade de abertura do país a uma alteração comportamental e a um corte profundo com a protecção injusta atribuída a certos sectores. Não que Marcelo esteja envolvido nesse género de injustiças, mas o que personifica representa uma realidade que a direita não deve querer para o futuro. E se assim é, por que motivo deve a direita apoiá-lo? Não vejo outro que não seja o do mero calculismo eleitoral do PSD, CDS e da Aliança.

É por este motivo que foi precipitada a decisão de Assunção Cristas em apoiar a recandidatura do presidente. A líder do CDS declarou-o precisamente 7 dias antes de Marcelo ter visitado o bairro Jamaica, para indignação dos polícias. O dissabor que tal causou ao CDS, eleitoralmente ancorado no tema da segurança, não vai ser o primeiro no Largo do Caldas. Outros se seguirão. O modo como tem desvalorizado a subida do valor da dívida pública é dolorosa para os dois partidos que a combateram entre 2011 e 2015. Entretanto, há quem diga que Rui Rio apoiará Marcelo de olhos fechados. Não duvido que o faça, mas suspeito que não enquanto líder do PSD. Rio só sobreviverá no PSD caso a derrota dos sociais-democratas nas legislativas seja tão pesada que os seus adversários internos percam o interesse no partido e se transfiram para outras paragens.

Não é só em Espanha e França que os partidos políticos mudaram. O mesmo também aconteceu em Portugal. Sucede que, devido à lentidão com que por cá se reage, PSD e CDS ainda não perceberam que o eleitorado que representam em 2019 não é o mesmo de 2009. Não perceberam estes partidos, nem parece que o tenha percebido Marcelo.

Advogado