Os primeiros dias da presidência de Donald Trump na Casa Branca produziram alarme em todo o planeta, ainda que os tradicionais aliados dos Estados Unidos se encontrem mais angustiados do que os adversários. Trata-se de um primeiro erro de Trump e dos seus seguidores que, aparentemente, não têm claro de onde chega o maior perigo para os Estados Unidos, para a sua economia e para a sua poderosa posição no mundo do nosso tempo.
Donald Trump é um vendedor com uma vida de duvidoso sucesso financeiro, herdeiro da tradicional ignorância da generalidade dos americanos fora do seu território, mas a tentar fazer o papel de um Kissinger, de um Nixon ou de Ronald Reagan. E, como vendedor de duvidosa qualidade, acredita em elevar o preço para níveis estratosféricos a fim de condicionar os potenciais compradores e conseguir o melhor negócio. Ora a geopolítica não é o universo imobiliário de Nova Iorque e, por isso, nem o poderio dos Estados Unidos irá evitar a dimensão deste segundo maior erro de Donald Trump.
O terceiro erro reside em Trump não ter uma ideia clara sobre o futuro da economia e da concorrência global, em que o maior adversário dos Estados Unidos é naturalmente a China. Pelo que alienar os seus aliados tradicionais e acreditar na defesa da economia americana através da criação de taxas alfandegárias, apenas reduz a capacidade dos Estados Unidos de resistirem ao abraço da sabedoria secular do povo chinês. Erro estratégico surpreendente, porque os seus aliados no mundo da tecnologia, como motor da economia mundial, deveriam saber mais do que Trump e defender uma estratégia muito diferente. Estratégia aliás iniciada pelo anterior presidente Joe Biden, ao trazer para os Estados Unidos as empresas de Taiwan líderes mundiais no campo dos microprocessadores.
Ou seja, a minha opinião é a de que existem hoje todas as condições para a economia norte americana prescindir da mão de obra da China através do uso da tecnologia para produzir na América todo o tipo de produtos, do automóvel aos electrodomésticos, dos brinquedos aos equipamentos mais diversos, usando para isso a inteligência artificial e as diversas tecnologias já hoje existentes, ou a criar, destinadas à produção industrial sem trabalhadores. Do estudo dos mercados ao desenho dos produtos, do fabrico dos componentes à embalagem e à expedição, tudo isso é hoje possível sem as tradicionais filas de trabalhadores. Ou seja, está hoje ao nosso alcance assistir ao reverso daquilo a que eu próprio assisti há quarenta anos, quando as primeiras empresas de brinquedos deixaram os Estados Unidos para se instalarem em Hong Kong. Recordo esse tempo, com milhares de trabalhadores e os seus beliches onde dormiam junto às máquinas no quinto ou sexto andar de um qualquer edifício. Com a nota de que tudo isso aconteceu há menos de meio século.
Foram aliás essas deslocalizações das empresas norte americanas para a China que aceleraram o processo de aprendizagem da economia chinesa e, porventura, conduziram em 1997-1999 o seu maior líder Deng Xiaoping à ideia de “um país dois sistemas “, ideia que permitiu o grande salto em frente daquele país.
Os norte americanos sabem tudo isto melhor do que ninguém, sendo surpreendente que Elon Musk e os seus companheiros, detentores das maiores fortunas mundiais, se deixem iludir com as tiradas ignorantes de um vendedor a fazer o papel de dirigente mundial. Sendo que há muitos anos assisti também ao processo que tornou a ignorância viável no mundo dos negócios: foi quando de Chicago chegaram a Nova Iorque os primeiros financeiros que substituíram no board das grandes empresas norte americanas os engenheiros, no que foi o primeiro passo para as deslocalizações com destino ao México e depois para a China. Seguiu-se a febre das fusões e aquisições, que foi um outro passo no processo da financiarização da economia norte americana e mundial.
Neste primeiro quartel do século XXI, tornou-se óbvia a pobreza do pensamento estratégico dos países e em particular da União Europeia. Ao mesmo tempo, a aceleração da mudança tornou mais clara a impreparação dos dirigentes de muitos países para estudar e prever, antes consumindo-se nas lutas ideológicas em que afundam os países e por extensão a racionalidade na gestão do planeta, racionalidade que com Trump deixou aparentemente de existir. Com a agravante de que a única instituição com a missão de manter a paz no mundo, as Nações Unidas, estar a viver uma crise existencial, que é afinal uma crise de lideranças.
Enquanto escrevo não será fácil prever os acontecimentos futuros, dado o clima de irracionalidade já atingido. Posso apenas aconselhar, como substituto, a leitura dos seis livros do após guerra de Winston Churchill, livros que na minha juventude me ensinaram a viver e a trabalhar, através da ideia de que é na história do passado que poderemos descobrir os caminhos do futuro.