1. Vai para três anos, a esquerda impingia-nos que Portugal, todo ele, se consumia na tormenta da coligação PSD/CDS, que os portugueses morriam de infelicidade e muitos de fome no país, que Passos era mau de propósito, que Paulo Macedo, hoje um herói porque escolhido pela esquerda, era o algoz do Serviço Nacional de Saúde, que o que era preciso era cantar a Grândola, boicotar qualquer cerimónia pública, enforcar coelhos, insultar, humilhar e desmentir o governo, produzir cirúrgicas falsas notícias, levar a media a enviesar ao máximo a história da bancarrota, omitindo o exclusivo papel do PS na sua ocorrência, a sua exclusiva responsabilidade na vinda da troika e nas negociações do acordo para os empréstimos. Mentia-se. Mentia-se muito, sem folgas. (Embora o embaraço seja a escolha, nunca me ocorrerá melhor exemplo dessas mentiras do que a certeza, atirada em todos os tons para o ar do país da chegada iminente do segundo resgate, lembram-se?) De tal modo isto foi assim que intencionalmente se escondeu o que de verdadeiramente corajoso e excepcional ocorria nos bastidores de Portugal com a maioria dos portugueses chamados a sacrifícios tremendos e pesadas aflições — e quem as nega, nessa altura ou hoje? — e a sua capacidade de lhes fazer face. Foram tempos tristes não só pelo negrume dos dois primeiros anos de governação PSD/CDS, as incógnitas, o sofrimento, o desemprego ao som incessante da toada batoteira do “ah se tivessem votado o PEC IV”… Foram-no também porque dia após dia, telejornal após telejornal, só havia um guião, só uma parte da realidade era exibida, nenhuma melhor notícia ou sequer menos má era bem veiculada — quando os juros na compra de divida nos eram simpáticos, quando o desemprego começou a baixar, quando se dispensou a última tranche do empréstimo, quando “afinal” não veio o segundo resgate e por aí fora. Era quase como se nada se tivesse passado: o que ia acontecendo, não acontecia.

2. Mas aconteceu. Esta gente impiedosa, “neoliberal”, lacaia de Merkel (hoje outra heroína), essa gente da “direita” (isto é, sem licença de porte de voz, nem direito de cidade), ganhou as eleições. Outra vez. Quem diria? Mas estamos lembrados. Além de ganhar também amealhara algum dinheiro, mais tarde logo transformado em confortáveis, suaves, delicadas “almofadas” financeiras, para as reversões e tutti quanti.

Quem diria, sim? Ninguém. Basta lembrar o tom sarcástico, os comentários políticos, a pressa, as certezas (outra vez elas) da derrota e o consequente fim da AD. Os votos desmentiram as certezas, por isso teve de ser à força, um pontapé para fora da área, com expediente parlamentar, “atempadamente” conversado (a campanha eleitoral mostrara — oh surpresa — que o anúncio da morte da AD fora talvez exagerado…). Depois vieram as selfies, a infantilização do povo, um apego ao governo quantas vezes desnecessariamente exibido, o papão da “instabilidade” (como se alguém no seu juízo a desejasse), uma insustentável leveza em quase tudo, usados como métodos políticos. Saudados aliás como oportunos e quem sabe se até criteriosos, por portugueses facilmente (pelos vistos) anestesiáveis. Ainda hoje pasmo perante gente que considero boa da cabeça quando a ouço continuar a louvar a “descrispação” de Portugal” e o “povo andar tão contente com a proximidade presidencial” (sic). O meu ponto porém é que espantosamente a ninguém tenha ocorrido que é tempo demais para que o “discrispar” se mantenha uma prioridade essencial da nossa vida colectiva (mobilizar pelo mimo?). Ou que a parte ficcional da governação que nos é vendida pela geringonça não exija outro e mais duro combate do que a passividade estéril e meia apatetada a que assisto com pena. Mas parece que não. De Belém ao país que nos é mostrado nos écrans, passando pelas falhadas ou modestas direitas, vai-se vivendo. E agora com iluminações, que chegou não o Messias mas o consumismo.

Fui percebendo que muita coisa estava perdida — como de certo modo continuo a achar – no sentido em que um país que se preza e respeita é muito mais exigente que tudo isto e requer muito mais que isto. Mais que uma selfie, um deficit zero, gato por lebre.

Por isso me lembrei daqueles votos na AD, resolutos e teimosos que ficaram como exemplos da vontade na política. Estão guardados nas memórias que pode não ser mau sítio para armazenar esta história e o que o futuro vier a fazer a dela.

3. Sendo hoje as coisas diferentes e as comparações desaconselháveis, podemos ainda assim permitir-nos algumas perguntas: e se por de baixo do país feliz de Costa&Centeno houver outro, silencioso e patriótico, que não esqueceu? Os mortos (em quantos já vamos neste consulado?), as catástrofes repetidas, as irresponsabilidades reeditadas? A insuportabilidade da arrogância socialista? A marginalização de tudo o que não caiba no perímetro ideológico-cultural da esquerda com a recusa de qualquer debate/combate cultural sério em vez da fulanização insultuosa? O tráfego geringoncional que permitiu legislação aprovada com igual velocidade e irresponsabilidade em temas ditos “fracturantes” e nunca civilizacionais? O apodrecimento dos serviços públicos em nome do devorador apetite das cativações para marcar o ponto em Bruxelas?

E ainda: e se houver gente, muita gente, enojada com o escândalo nacional de Tancos, as batotas na Justiça, a insistência em lugares de responsabilidade pública dos Tomás Correias deste sítio? Se existir um país exausto com o (real) empobrecimento da classe média, a vertiginosa galopada fiscal, a impossibilidade (real) de um melhor amanhã? Uma pátria cansada de trepar o muro que divide o “melhor destino” dos prémios de Turismo daquele que não sairá da cepa torta, apesar do seu mérito, currículo e (legitimíssimas) ambições ?

Demasiadas perguntas? É verdade, assim estamos. Mas posso resumir (e repetir-me): e se existirem mais portugueses do que se pensa que querem mais que uma selfie. um deficit zero, gato por lebre? Ah, nesse caso…

4. Assim avulso foi o que me ocorreu e não disse mentira nenhuma. Sugeri a possibilidade de existirem dois países, como já há duas Europas (e a partir de Maio de 2019, pode até haver só uma). Dirão que exagero, não é essa a questão, mesmo que exagere. É mais espinhosa: quem representa os que não se revêm na pátria rosada e leve de Marcelo/Costa e a querem substituir por outra? Face a tamanho desnível entre a “condição — de – sem- abrigo-eleitoral” e “alguma coisa” que ocupe politicamente o descontentamento e o cansaço, a pergunta impõe-se.

O PSD – tão desejeitado, tão ao lado de tudo — não será certamente. (Não descartaria aliás a hipótese de ir começando a ponderar um funeral de Estado, um partido antigo e tão imprescindível a Portugal como este já foi, merecerá honrarias no seu adeus). O CDS também não, por outras razões, mas dá que pensar que à vista desarmada não consiga arregimentar uma soma considerável de descontentes, desistentes ou mesmo desertores do PSD. E a Aliança contém em si mesma o gérmen da contradição: Pedro Santana Lopes que é a sua vantagem óbvia, pode ser a sua óbvia desvantagem (mas honra lhe seja, desinstalou-se).

E então? Então algo ocorrerá no palco político, alguém surgirá em cena, não sei quem, quando, nem como, sei que nunca se viu a política, com o seu horror (e inaptidão) ao vazio, “comportar-se” como se não o tivesse.

5. Não. Não vou desaguar em Bolsonaros, não é deles que se trata. Os Bolsonaros agitados a torto e a direito, só servem para gritar ao populismo inventando suspeitas e acusações para quem se deixe intimidar e manipular por elas. E quanto ao populismo já estamos servidos, ele é copiosamente distribuído entre nós, de manhã à noite. O que me parece numa palavra é que é chegado o tempo, de uma vez por todas, de alguma seriedade – mais lúcida, mais forte, mais amadurecida, mais exigente — no debate político. Sinto-me pessoalmente insultada de cada vez que me tentam impingir os fantasmas da “extrema direita”, sempre que o cansaço e o descontentamento se transformam numa recusa pura e dura. Uns serão, é um facto, outros de todo, é outro facto. Devido ao tal comodismo muito suspeito (que no fundo mal esconde vastos receios), mete-se tudo no mesmo saco, acusando, deturpando, mentindo, mas sempre muito rascamente, faz aflição. Convinha que alguém explicasse como tudo isto é torpe. A explicação seria aliás um dois-em-um. Mostrava gente menos pronta a comer o que à força lhe servem, impondo um basta à manipulação da geringonça por tudo o que saia fora do seu reduto; distinguia entre os sempre caricaturalmente evocados Bolsonaros e aquilo que um dia poderá ocorrer em Portugal: a chegada política mas cultural e civilizacional antes do mais, de uma direita digna do seu peso, do seu nome, do seu significado político.

Não, não acrescentarei “democrática”. Não tenho idade, nem preciso.