Turguéniev baptizou o conflito entre gerações com a obra “Pais e filhos”, mas foi Tolstói quem escreveu que “todas as famílias felizes se parecem umas com as outras, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Silogismo incompleto para alguns, um dos melhores começos de romance de sempre para outros. Talvez o propósito seja dizer-nos que por mais que procuremos, só é fácil reconhecer aquilo que um dia já vivemos. Tudo o que não conhecemos parece-se sempre terrivelmente igual.
Vivemos rodeados de famílias, mas as paredes das nossas casas e as muralhas do nosso universo psicológico não nos deixam transpor a realidade da nossa família. Os pais e as mães dos outros tinham qualidades e defeitos, mas não eram reais como eram os nossos. E é só nesse contacto com a realidade que se cria a nossa percepção do mundo. Talvez seja por isso que imortalizamos dizeres como a “maça não cai muito longe da árvore” e “quem sai aos seus não degenera”. Será que só sabemos ser iguais aos nossos pais? Ou será que é impossível não o sermos?
A relação com os pais é um dos laços sociais mais longos e intensos que vamos ter ao longo da vida (Fingerman, 2001). Aliás, a percepção que temos em adultos sobre esta relação continua a afectar o nosso bem-estar pela vida fora, mesmo depois da morte dos nossos pais (Shmotkin, 1999). Boas ou más notícias, isto parece fazer dos pais os nossos maiores fantasmas. Muitos já ouviram “és igualzinho ao teu pai” ou “és igualzinho à tua mãe”. E se há aqueles a quem custa ouvir essa semelhança dolorosa, também há os que se desfazem em orgulho e vaidade por poderem ser considerados iguais aos seus pais. É uma das escolhas da vida, essa de crescer por simetria ou por oposição àqueles que nos criaram.
Há pais e mães imperdoáveis, há aqueles que fizeram de tudo para não falhar e há aqueles cuja memória dos filhos nem vai lembrar o momento em que falharam, porque foram mais os momentos em que tentaram do que aqueles em que falharam. Os erros dos pais entrelaçam-se muitas vezes com as recordações dos filhos e os erros dos filhos não existem antes de existirem pais. Há pais que nunca se moldam aos filhos e há filhos que envelhecem a saber que nunca conseguiram mudar os pais.
Talvez seja a maior tragédia da vida de uma família. Quando uma família não se consegue reinventar. Quando crescemos, os pais começam a ter um passado que reconhecemos porque eles o repetiram connosco. É aí que descobrimos que os nossos pais não conseguiram inventar uma nova forma de se relacionar connosco. O filho cujo pai nunca chorava, torna-se o pai que não chora com o filho; a filha cuja mãe se afastou, tornou-se a mãe que afasta a filha. É também nesse momento que descobrimos que a nossa família sempre foi infeliz à sua maneira, o problema é que essa se tornou a única forma de família que reconhecemos.
O ciclo só se quebra quando admitimos a possibilidade de inventar novas famílias, mas sem excluir o passado da nossa, mesmo com a mágoa que arrasta, sem precisar de destruir a ideia antiga que tínhamos de “casa”. E se for verdade que todos os pais e mães falham, a dúvida fica no facto de a falha poder ser imperdoável ou não. E se a falha existiu, fica a provação de tentarmos não viver reféns dela a vida inteira. Nem mesmo os pais nem mesmo os filhos têm de ser para sempre reféns do seu passado…
Veja-se o peso que suporta Ivan Karamázov por acreditar que a vida toda foi aprisionada pelo apelido que carrega… “(…) Sou eu este verme (…) Todos nós, os Karamázov, somos assim, e mesmo em ti, anjo, vive este insecto e cria-te tempestades na alma.”