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Precisamente porque a violência domestica é intolerável, talvez tivesse sido prudente apurar para além de todas as dúvidas se, no caso do juiz Neto de Moura, o problema foi o juiz ou a lei. Mas o juiz, com as suas opiniões reincidentes, revelou-se irresistível. Só que, ao optar pelo magistrado, a indignação das redes sociais deu uma oportunidade aos oligarcas, que a agarraram logo. Foi assim que tivemos Rui Rio a usar Neto de Moura, não para reflectir sobre o quadro legal da violência nas famílias e nas relações, mas para justificar a urgência da submissão da magistratura ao poder político. Eis como a oligarquia tentou transformar activistas de redes sociais, comentadores de jornais e humoristas de televisão em idiotas úteis.

Durante décadas, a oligarquia enquadrou a população através de duas coisas: o medo do conflito político, depois dos traumas do PREC, e a expectativa de uma melhoria indefinida da vida, ainda iniciada sob a ditadura nos anos 60. Acontece que essas duas fontes de fidelização se esgotaram nos últimos anos. O medo do conflito foi dissipado pela garantia da UE, que permitiu a toda a gente começar até a desprezar o “centrão”. A expectativa de uma melhoria indefinida gastou-se com a estagnação do euro: simplesmente, não conseguimos ser competitivos sem desvalorização monetária. Para salvaguardar a sua ascendência, a oligarquia escolheu a via mais fácil: concentrar o seu apoio no Estado, clientelizando funcionários e reformados. A geringonça apenas tornou mais notória essa opção, ao cortar nos serviços públicos para pagar ao funcionalismo.

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