A vida de investigador tem destas coisas. Dúvidas quando a certeza parecia instalada e cientificamente comprovada. Mais um ativo para a posição de Karl Popper.

De facto, desde o início da atual solução governativa que dava por adquirido que a geringonça conduzida por António Costa, embora empurrada por três partidos populistas, não era populista.

Não me assistiam dúvidas de que o Partido Comunista Português devia ser classificado como populista totalitário e o Bloco de Esquerda como populista autoritário. A análise dos respetivos discursos comprovava essa classificação. Aliás, a única dúvida que se me colocou foi sobre a razão de a CDU, aliança do PCP com o Partido Ecologista «Os Verdes», ser uma coligação populista autoritária e não totalitária. Dei conta disso mesmo quando escrevi o livro «Populismo e Democracia. Dinâmicas Populistas na União Europeia».

Quanto ao Partido Socialista, a análise de discurso não me permitia identificar mais do que apelos ao povo. Um populismo vazio, segundo a tipologia do populismo criada por Jan Jagers e Stefaan Walgrave. Algo que, na minha ótica, não merece ser designado como populismo.

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Porém, quando ao longo do mandato do atual governo fui confrontado com o número de nomeações políticas – os famigerados «jobs for boys» – confesso que a minha certeza vacilou. Receei estar perante clientelismo. Uma das caraterísticas dos regimes populistas.

Já algo inquieto, concedi a António Costa um curto benefício de dúvida. Pela segunda vez, pois já anteriormente não estava seguro que algumas das muito badaladas medidas de reposição de salários e do poder de compra não fizessem parte de um populismo social. Aquele que compra a manutenção no Poder e a paz social através da distribuição de benesses do erário público. O dinheiro dos contribuintes e dos empréstimos.

Porém, dois acontecimentos das últimas semanas encarregaram-se de aumentar a minha confusão.

Primeiro, António Costa considerou como absolutamente normal que uma sobrinha de Carlos César, o Presidente e líder parlamentar do Partido Socialista, tivesse sido contratada pela Gebalis, a empresa municipal da Câmara de Lisboa que gere os bairros ditos sociais. Um salto promocional rápido porque mal terminou o contrato que tinha com a Junta de Freguesia de Alcântara e logo outras portas, igualmente socialistas, se abriram.

Segundo, António Costa defendeu a expulsão do Partido Socialista do eurodeputado Manuel dos Santos por ter chamado cigana à deputada Luísa Salgueiro, a candidata à Câmara de Matosinhos.

Ora, o primeiro exemplo levanta suspeitas sobre a possibilidade de estarmos perante mais um caso de nepotismo. Aquele crime de que não temos pejo em acusar os líderes dos maiores países lusófonos. Um crime que representa uma marca clara de populismo.

Quanto ao segundo caso, não indicia a mínima mácula de populismo, pois a defesa das minorias representa um dever constitucional. Na Constituição não há lugar para preconceitos baseados na “ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual” – art.º 13º.

Face ao exposto, como só os tolos convivem bem com a ignorância, talvez fosse tempo de a Gebalis explicar os procedimentos que permitiram a contratação da sobrinha de Carlos César. Um procedimento que deveria ser habitual em democracia. Uma «desnecessidade» quando um partido populista se senta no Palácio do Poder.