As definições de fábrica de PNS são incompatíveis com um PS viabilizante da “direita”. Como líder, teve de ceder no OE, mas a contradição foi insanável, tendo ficado à vista a derrota da sua essência.
Ter o mais alto cargo de direção é uma coisa no papel, coisa distinta é a confiança sentida e a autoridade percebida pelos outros (membros do grupo e pessoas de fora). Ter convicções muito fortes ao ponto de serem parte da autoidentidade, sendo elas conhecidas por todos, é muito bonito. Até ao momento em que elas são traídas. Um líder partidário que as tem e as propaga mas não age em conformidade com elas, indo mesmo em sentido oposto, instaura automaticamente o seu fiasco, pois a partir daí deixa de haver respeito simbólico pela sua personalidade liderante. Não é por acaso que o que muitos políticos fazem, estrategicamente, é não protagonizar manifestações histriónicas das suas posições em assuntos centrais: vão andando e vendo o que podem fazer.
Saído do lugar cimeiro do PS no rescaldo do desastre eleitoral do passado dia 18 de maio, Pedro Nuno Santos já havia assinado sem saber a sua derrota política quando, contra a sua essência e teses que advoga, se absteve no Orçamento do Estado do Governo da AD. É claro que o chumbo da moção de confiança ao Executivo de Luís Montenegro foi o gatilho que acelerou o processo da sua queda formal com novas eleições, mas reitero que me refiro à votação orçamental. O agora ex-líder sempre cantou aos quatro ventos que a “direita” é demoníaca, cultivou a batalha armada contra ela desde que é gente, reforçando a sua aversão na campanha interna do PS à substituição de António Costa (o que o distinguiu de José Luís Carneiro), e proclamou sentimentos de inimizade com o PSD durante a sua liderança, chegando a dizer ser “praticamente impossível” deixar passar o OE. No entanto, na hora crucial, contrariou-se solenemente ao deixar a AD governar com a sua proposta orçamental praticamente intacta. É de apreciar o sentido de responsabilidade em prol da estabilidade do país (e é de compreender o receio de eleições naquele momento, bem como a apreensão de ficar mal na fotografia), porém é impossível desvincular Pedro Nuno do que havia assumido até então e do que ele foi, é e será, ficando associado a uma incongruência clamorosa e insanável. O que foi errado não foi dar seguimento ao OE na Assembleia da República (até porque o PS seria decerto penalizado nas urnas se não o fizesse), o que foi penoso foi acabar por praticar a antítese das ideias que professa — além de não ser abonatória a infantilidade daquelas.
Como se pôde reparar, os argumentos com que Pedro Nuno justificou em 17 de outubro do ano passado, no comunicado ao país, a viabilização do OE para 2025 poderiam ter sido invocados no início do verão, pelo que o então secretário-geral do PS poderia ter evitado todo o drama do impasse, mas não o fez. Disse que viabilizava o documento “apenas por estas duas razões”: (i) o facto de as legislativas terem sido há poucos meses [em março de 2024]; (ii) a noção de que “um eventual chumbo do Orçamento poderia conduzir o país e os portugueses para as terceiras eleições legislativas em menos de três anos, sem que se perspetive que delas resultasse uma maioria estável”. Tudo isto se torna mais cómico quando se considera que o mesmo Pedro Nuno declarou que as suas “condições de base não foram respeitadas na totalidade” pela AD, referindo-se às suas exigências sobre o IRS Jovem e o IRC, bem como a outras três propostas (sobre habitação, saúde e pensões) que havia colocado em cima da mesa. A pessoa que entende que as negociações sobre o OE não chegaram a um bom porto e, ainda assim, dá a garantia da sua passagem no Parlamento não poderia ela mesma ter anunciado logo de início a viabilização?
O esquerdista mais implacável contra os banqueiros germânicos não queria a abstenção, todavia sentiu-se politicamente encurralado. Nos meses críticos quanto ao OE, verificou-se que o PS estava dividido em dois segmentos opinativos quanto à atitude a ter com a AD. E isso complicou a vida a Pedro Nuno no seu processo decisório. De uma eventual opção que tomasse pelo chumbo do documento resultaria um fervilhar nas hostes do partido impossível de apagar até que este voltasse ao poder (e não se antevia quando isso aconteceria). Só assim os partidos grandes na oposição dissipam a ardência interna: voltando ao poder. No entanto, da decisão derradeira do socialista, creio que só é verosímil ter resultado a constatação de uma derrota sua por parte dos defensores de ambas as correntes de opinião. Todos a souberam ou sentiram. Dela sucedeu o seguinte: (i) os que preconizavam o chumbo sofreram um revés na perceção sobre Pedro Nuno como um garante da não cedência à “direita”; (ii) os que advogavam a viabilização concluíram que, afinal, tinham mais peso político, mais poder de influência, do que os pedronunistas — ainda que não pertencessem ao seu núcleo duro. Ou seja, deu-se uma quebra no reconhecimento da autoridade do então secretário-geral, que inevitavelmente se estendeu para muitos dos que observavam de fora.
Na esfera política, que privilegia a existência marcadamente personalista e fulanizada, espera-se que um líder consiga guiar o seu partido ao sabor das suas próprias intenções. Se e quando não o consegue, apenas depreendo que deixa de ser visto como tal. Aquando da viabilização orçamental, cri que Pedro Nuno teria de ter sorte para que não lhe aparecesse no caminho um autêntico animal político, como surgiu António Costa no de António José Seguro. (Foi, aliás, muito curioso que este mesmo ex-primeiro-ministro tivesse aparecido, a dada altura, para atormentar aquele que agora deixa de estar à frente dos socialistas — com a publicação do artigo no contexto da polémica de Ricardo Leão.) Contudo, afinal, Pedro Nuno não precisou de um audaz oponente interno a aparecer de rompante para lhe roubar o lugar: o neto de sapateiro perdeu-se a si próprio e perdeu muito por falhanço pessoal (não obstante fatores estruturais). Os resultados das recentes legislativas apenas serviram de atestado oficial do malogro da sua regência.