Estava eu a seguir a novela Madrid-Mourinho-Benfica quando o telemóvel vibrou com uma notificação sobre natalidade, ou a falta dela. Fechei-a. Voltei às eleições dos Blancos. A certeza instalou-se, tranquila: isto há-de resolver-se. Os países desenvolvidos têm destas fases. Somos o melhor país do mundo. E, na dúvida, pelo menos não somos espanhóis. A natalidade? É um caso isolado. De resto, estamos catitas.

Comecemos pelo talento. O talento português voltou da digressão pelo mundo fora. Afinal de contas, o Passos já cá não anda. Como? Partiram 65 mil no ano passado. Voltaram 20 mil. Quase um terço dos portugueses entre os 15 e os 39 anos já cá não está, mais de 850 mil, com a fatia de diplomados a crescer. O Programa Regressar atraiu quatro mil regressos em quatro anos. Quatro mil? É uma política pública ou é um grupo de WhatsApp? Pelo menos não somos os americanos, que fogem do Trump aos magotes e descobriram que Lisboa é a nova São Francisco, mais bonita e com melhor comida.

Quanto à educação, é uma paixão, bem sabemos que as pessoas não são números. Parque Escolar. Universidades por todo o lado, mestrados em barda, rankings, acreditações internacionais. Nunca tivemos tantos doutores. Uma economia do conhecimento. Como? Os doutores que fabricamos são precisamente os 850 mil que emigraram com o diploma debaixo do braço. A escola pública funciona no intervalo das birras da Frenprof? Os salários dos professores são miseráveis? O público perde professores para o privado e o privado perde-os para o estrangeiro? Pelo menos não somos a Finlândia, onde ser professor é uma das profissões mais competitivas do país e nenhum aluno sabe o que é chegar à escola e encontrá-la fechada. Aqui sabemos.

E a nossa diversidade? Somos um exemplo. Alguém tem de servir o café enquanto fazemos a raspadinha, porque os nossos, idos, já não estão cá para o fazer. Como? Portugal não é xenófobo, é pior: é indiferente. Atrai imigração com vistos de trabalho temporário, instala-a em alojamentos precários. Tem sectores inteiros, da agricultura aos cuidados de idosos, que não conseguem preencher vagas, e uma taxa de naturalização entre as mais baixas da União. O modelo não é integração, é rotatividade. Pelo menos não somos a França, onde a imigração é um problema político de primeira linha há trinta anos. Cá é só um tema de curto prazo que vai ter um decreto. Com decretos vamos lá.

A economia, essa nunca esteve tão bem. Finalmente a crescer, finalmente a convergir com a Europa. Como? Em 2000, o PIB per capita português em paridade de poder de compra correspondia a cerca de 85% da média da actual União Europeia. Em 2024, 82%. Vinte e cinco anos, e estamos mais longe da média do que quando começámos. Desde 2004, Portugal foi ultrapassado por Malta, pela Chéquia, pela Eslovénia e pela Lituânia, países que entraram na União só nesse ano e que eram então mais pobres do que nós. Caímos para 18.º entre 27. Pelo menos não somos a Grécia. Por enquanto.

A habitação, sim, é medalha. Metro quadrado a rivalizar com Mayfair, Portugal chegou, e desta vez tem fotografia no Instagram para provar. E o alojamento local repovoou os centros das cidades. Como? Os preços resultam de uma década de declínio acentuado da construção que ninguém resolve e de fundos europeus que aqueceram a procura sem aumentar a oferta. São esses preços que expulsam os jovens que o Programa Regressar não consegue trazer de volta. Pelo menos não somos os texanos de Austin, que reformaram o zonamento, desbloquearam licenças e viram as rendas cair 19% em termos reais enquanto a cidade crescia. Aqui temos um plano. Os preços só sobem.

E os impostos, esses pagamo-los porque temos um estado social de qualidade europeia. É assim que funciona. Pagar para receber. Como? Cinquenta e cinco por cento do preço da gasolina é imposto, o terceiro valor mais alto da União. O mesmo carro custa muitíssimo mais em Portugal do que em Espanha, por causa de um ISV que não é reformulado há décadas e que tributa pela cilindrada independentemente das emissões reais. A embalagem de plástico do almoço paga taxa ambiental, e depois paga IVA sobre essa taxa. Imposto sobre o imposto, com salários entre os mais baixos da Europa Ocidental, para financiar um estado que fecha urgências, perde professores e tem listas de espera de anos? Pelo menos não somos os dinamarqueses, que pagam ainda mais. O que é diferente. Muito diferente.

Ao menos a justiça é igual para todos e funciona, claro que funciona. Como? José Sócrates foi detido em Novembro de 2014 e só foi a julgamento em 2025, mais de dez anos depois, com uma fase de instrução que sozinha durou quase dois anos. O processo Casa Pia arrastou-se mais de vinte anos, o mais longo da história judicial portuguesa. Nos tribunais administrativos, um processo de primeira instância demora perto de 800 dias? Paga-se um sistema inteiro para que uma decisão chegue quando já não muda a vida de ninguém. Pelo menos não somos a Itália, essa sim é o sinónimo europeu de justiça lenta.

A saúde, essa sim é um mimo, o melhor SNS do mundo. Os médicos é que perderam a vocação. Toda a gente sabe. Antigamente havia missão, havia abnegação, havia gente que escolhia a medicina para servir. Como? Nomeações políticas, urgências fechadas, turnos duplos, listas de espera de anos. Os mesmos médicos ganham o quadruplo em Toronto pelo mesmo trabalho? A culpa, sabe-se, é da falta de missão. Pelo menos não somos o Canadá, onde o público funciona e ainda há dinheiro para o privado por cima, não porque faça falta, mas porque podem. Imagine-se a desgraça.

E a família, essa é a mais importante da nossa sociedade. É assim e sempre foi. Como? Casamos menos. A natalidade está em 1,4 filhos por mulher. O saldo natural foi de menos 34 mil em 2025, apesar da subida da natalidade. O INE projecta 8,3 milhões de portugueses até ao fim do século. A cada casamento que acontece, o país encolhe mais, porque quem casa tem cada vez menos filhos, ou faz tudo para os mandar embora com um diploma e um bilhete de avião. E que não seja na TAP, senão ainda se arriscam a nem sair. Pelo menos não somos o Japão, onde já se vendem mais fraldas para adulto do que para bebé. Ainda temos margem. Para piorar.

E espera lá, o Mundial começa a 11 e Portugal estreia a 17 de Junho. Aí, sim, somos sem dúvida os melhores do mundo, pelo menos até ao primeiro jogo. Isto há-de resolver-se, como tudo o resto. Sempre se resolveu.