Desde 1953 que a China organiza o seu desenvolvimento em ciclos de cinco anos. Cada Plano Quinquenal define as prioridades económicas, científicas e industriais do país. O 15.º Plano (2026–2030), ainda em preparação, sucede a uma década marcada pela aposta em tecnologias limpas e na segurança energética. Desta vez, a ambição é mais profunda: construir uma economia digital e verde, onde a energia, a digitalização e o carbono se articulam num mesmo sistema inteligente.

O novo plano pretende digitalizar a gestão da energia e das emissões, integrando inteligência artificial e monitorização em tempo real. O chamado “duplo controlo” do carbono, que mede simultaneamente a intensidade e o volume total das emissões, será aplicado em todo o território através de plataformas digitais que recolhem dados de fábricas, transportes e redes elétricas. O objetivo é criar um verdadeiro “cérebro energético” nacional à imagem da centralização que só Pequim consegue impor, capaz de antecipar consumos, otimizar fluxos e apoiar decisões de investimento, em tempo quase real.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a China terá de duplicar a capacidade de armazenamento e triplicar as redes inteligentes até 2030. A aposta incide em baterias de nova geração, hidrogénio verde e redes elétricas digitais, capazes de reagir instantaneamente às oscilações da produção renovável. Trata-se da transição para uma energia “definida por software”, em que algoritmos e sensores substituem relatórios e burocracias. Mesmo o carvão – que ainda representa mais de metade da eletricidade gerada – está a ser disciplinado e tecnicamente reconfigurado. As centrais mais antigas são automatizadas e equipadas com sistemas de captura de carbono, operando apenas quando a rede exige reforço. É um modelo de transição pragmático, centrado na estabilidade do sistema elétrico e na eficiência tecnológica.

Hoje, a China já domina as cadeias globais das tecnologias limpas: 80% dos painéis solares, 70% das baterias de lítio e mais de metade das turbinas eólicas são fabricadas no país. O novo plano reforça esta posição, promovendo a integração vertical e a automatização total das fábricas. Até 2030, as chamadas “fábricas de carbono neutro”, abastecidas por energia solar e sistemas de armazenamento local, deverão ser o padrão. A digitalização é o cimento desta transformação.

Prevê-se que, até ao final do plano, 90% das infraestruturas críticas estarão ligadas a plataformas inteligentes, tornando cada edifício, subestação ou veículo elétrico num nó de dados, numa rede energética interconectada. Finalmente, o hidrogénio verde é o vetor emergente, com mais de 200 projetos em curso que apontam para a criação de corredores logísticos e normas técnicas próprias, capazes de definir o mercado asiático da próxima década.

A provocação é inevitável. Enquanto a China testa e implementa, a Europa continua a discutir regras, metodologias e fundos. A sua força, o Estado de direito e o mercado interno, pode tornar-se também a sua fraqueza. As regras da concorrência, concebidas para evitar distorções, impedem hoje a criação de campeões industriais europeus capazes de competir à escala global. Cada Estado-membro financia a transição como pode, dentro de margens regulatórias que favorecem os países mais ricos e travam os mais pequenos. A multiplicação de normas, relatórios e filtros de elegibilidade transforma a ambição climática num exercício administrativo. A Europa regula um futuro que outros já estão a construir.

Portugal é um microcosmo desta tensão: dispõe de sol, vento e conhecimento técnico, mas carece de escala e de instrumentos para inovar fora dos limites da regulação comunitária. A solução não está em mais planos, mas em libertar espaço para experimentar. Um regime especial de “sandbox regulatória” – com licenciamento expedito, simplificado e ligando centros de inovação – permitiria testar tecnologias verdes, integrar energia, água e dados em redes locais inteligentes e atrair investimento com base em resultados, não em relatórios. Portugal poderia ser o laboratório energético do sul da Europa, onde a transição se mede em protótipos, não em powerpoints. E com isto trazer mais empresas e indústria para o nosso país, reter jovens qualificados e desenvolver o tecido económico.

Não é assim tão longínqua esta ideia… é possível concretizá-la. Basta querer. Até porque com este plano, a China demonstra que a transição energética é menos uma questão ideológica e mais um desafio de engenharia e integração. Quem dominar a convergência entre energia, dados e tecnologia definirá o rumo da economia global. E quem integrar primeiro, liderará o futuro.