A montanha russa que é a negociação entre a Grécia, o FMI, e a Europa deu uma nova volta quando o FMI retirou a sua equipa de negociadores esta quinta-feira. Os avanços e recuos da Grécia durante esta última ronda de negociações tornaram cada vez mais difícil chegar a um compromisso pelo que nos arriscamos um destes fins-de-semana a acordar e descobrir que o dracma voltou.

Na passada sexta-feira, havia a promessa de um futuro risonho para todos, quando o Presidente da Comissão Europeia Juncker apresentou um novo plano de reformas a Tsipras, menos ambicioso do que o desejado por alguns países Europeus, mas que parecia ser pelo menos parcialmente aceite pela Grécia. Uma semana depois, o FMI retirou-se das negociações. Aparentemente a saída não é definitiva mas reflete a ausência de progressos, nomeadamente no que diz respeito à reforma do sistema de pensões, que o FMI vê como insustentável, e à reforma da administração tributária.

À medida que se desvanece a esperança de uma solução que mantenha a Grécia no euro sem incumprimento, o Governo de Tsipras vai ameaçando que se a Grécia sair quem fica a perder é Portugal. Este foi por sinal um argumento simpaticamente usado ao longo destes longos meses de negociações infrutíferas pelo ministro das Finanças Varoufakis.

Mas afinal, quais são as possíveis consequências para Portugal?

1. Na economia real, o impacto da possível saída da Grécia da Zona euro passa numa primeira fase pelo impacto sobre as exportações. Com efeito, um novo dracma significativamente desvalorizado face ao euro tornaria proibitivas as importações Gregas com origem na Europa. Segundo dados do Eurostat, as exportações de bens de Portugal para a Grécia representam 0,4% das exportações de bens Portuguesas. O impacto indireto nas exportações de serviços, nomeadamente no turismo, é mais difícil de avaliar, mas o custo de passar férias em Portugal relativamente ao da Grécia poderia aumentar consideravelmente para os turistas europeus. Seria uma boa altura para ir passar férias às ilhas gregas.

2. Do ponto de vista das contas públicas e em caso de incumprimento total da dívida soberana Grega, o Estado Português ficaria a perder os 1,1 mil milhões de euros que emprestou em negociações bilaterais com a Grécia em 2010. Este valor representa menos de 1% do PIB, o que não é um rombo extraordinário para as contas e poderia ser contabilizado no défice de um ano só, com uma expectável flexibilização do Programa de Estabilidade e Crescimento para Portugal. No entanto, poderia haver um efeito de contágio do incumprimento que poderia provocar um aumento das taxas de juro da dívida soberana, pondo em causa a já de si frágil sustentabilidade da dívida pública portuguesa.

3. No caso do sistema financeiro, os bancos Portugueses também detêm dívida Grega, mas entre as reestruturações e vendas o valor era inferior a 300 milhões de euros em setembro de 2014, segundo dados do BIS (Bank for International Settlements). Por outro lado, a saída da Grécia da zona Euro poderia assustar famílias e investidores que detêm poupanças e negócios em Portugal. Poder-se-ia assistir, tal como no Chipre ou na Grécia a uma saída em larga escala de depósitos e de fluxos de investimento.  

Desta lista, as consequências potencialmente mais graves e mais difíceis de prever são a fuga de depósitos e o aumento dos custos de financiamento da dívida. Felizmente, a intervenção maciça do BCE nos mercados financeiros, eliminou uma parte deste risco pelo menos até 2016. Se os detentores de dívida Portuguesa decidirem vender Obrigações do Tesouro com receio sobre o futuro de Portugal, o BCE pode simplesmente comprar essa dívida e eliminar o impacto sobre a taxa de juro.

Por enquanto, parece que um tiro do Tsipras só pode arranhar Portugal. Mas isso não quer dizer que o país esteja completamente fora de perigo. O verdadeiro teste à economia Portuguesa e ao efeito de contágio da Grécia (se a Grécia sair) só será visível depois de 2016 com o fim do programa de compra de ativos do BCE, quando o escrutínio dos mercados sobre as contas portuguesas for muito maior, sobretudo se a Grécia já não estiver a fazer de mau da fita e se a dívida Portuguesa não estiver numa trajetória francamente descendente.

Economista