Há duas grandes lições que devemos tirar da crise ligada aos abusos sexuais de menores na Igreja Católica. A primeira é que tal aconteceu, acima de tudo, como consequência de uma cultura, e não fruto da ação de certos indivíduos isolados. A segunda é que os acusados são mais pessoas medíocres, que corporizam a banalidade, do que monstros e psicopatas. Sobre a primeira conclusão, no entanto, é preciso salientar que a cultura em causa, não é uma cultura fundamentalmente eclesiástica. Sobre a segunda, é urgente dizer que a presença de pessoas desequilibradas não é suficiente para explicar a magnitude do escândalo, quer na Igreja, quer, agora, nos Epstein Files. Gostávamos que fosse assim, mas não é.
A elite sempre gostou de charlatães. Aldrabões eram e são comuns em cortes e palácios, porque a elite sempre entendeu que a sua “superioridade” também passa pelo acesso a um certo tipo de conhecimento. Um conhecimento, porém, quase sempre esotérico, baseado na autoajuda e na “aura”. No fundo, a elite aceita pagar a quem a faz deixar de pensar, mesmo que tenha acordado a ler o Financial Times, ou lido a Ilíada antes do jantar. É verdade que todos, mais ou menos, gostamos de tudo isto, mas, como dizemos na linguagem popular, a certo momento, “isto não é para quem quer, é para quem pode”.
A cultura de que falo, no entanto, não é só uma cultura da elite. A ela teremos de juntar a cultura do intermediário. A cultura que leva a que a principal característica de uma pessoa seja “ter muitos conhecimentos”, “abrir portas”, “desbloquear conversas”. Epstein era esse tipo de pessoa. Todos nós conhecemos esse tipo de pessoa. Porém, a cultura do facilitador não é inocente. Não se trata, unicamente, de “não empatar”, de “vencer a burocracia”, de “dar uma ajudinha”. Trata-se de armazenar informações, favores e criar ascendente. Este é, geralmente, um dos pontos de honra daqueles que vivem, promovem e protegem esta cultura, que não coincidem totalmente com aqueles que a levam a cabo: num instante resolvem um problema, num instante criam novos amigos, num instante sentem-se nas nuvens, mas, nesse mesmo instante, perdem a liberdade. O intermediário nunca está ali de graça, por muito que concorde sempre connosco, nos faça sentir bem ou nunca apresente fatura. Nós é que nos tornamos, paulatinamente, o novo degrau da sua já inumerável escalada social.
Há, contudo, mais uma cultura. A cultura dos que não podem dizer que não, dos que têm que fechar os olhos, dos que preferem viver a sua vida. Todos nós já encontramos aldrabões e facilitadores, mas muitas vezes fomos nós que tivemos de recuar. Todos nós já encontramos aldrabões e facilitadores, e sabemos o custo de uma certa independência, ou de uma distância “saudável” para viver em paz. Todos nós já encontramos aldrabões e facilitadores, e sabemos bem que isso tem consequências.
Ao menos, nunca deixemos de pensar e de fazer perguntas. Dois dias depois do início da Quaresma, esse seria um ótimo exercício. Afinal de contas, são os profetas que dizem que o jejum é “rasgar o coração e não os vestidos” (Jl. 2, 13), assim como quebrar “as cadeias injustas”, desatar “os laços da servidão”, colocar em “liberdade os oprimidos”, “destruir todos os jugos” (Is. 58, 6).