Estas semanas não trouxeram muito de novo: seguimos na discussão de que Portugal mais gosta, campeões dos estados de espírito, ora os melhores do mundo, ora o pior país do planeta. A reboque do escândalo da porta giratória com a Mortágua no ISCTE e da novela da NovaSBE ter meia dúzia de dias e mais uns trocos para cumprir o rito de corrigir o nome, voltámos ao costume: rasgar as vestes no X. No meio de todo este ruído, o silêncio sobre temas que contam mantém-se.

Ao fugirmos para as nomeações de ocasião, não questionamos as obrigações das universidades, que mais parecem uma fábrica de mestrados de vitrina, nem o que estas devem devolver ao país que nelas investe, para lá dos chamados canudos. E canudos a dobrar, pois, em muitas casas portuguesas, a conversa depois da licenciatura já não é «e agora onde vais trabalhar?». É «que mestrado vais tirar?». A pergunta sai com a naturalidade de quem pergunta «onde é que está o comando?». E lá temos o guião: mais anos de estudo, mais tempo em casa, mais uma credencial para as medalhas do LinkedIn. Resultado: o país, em massa, transformou o mestrado numa extensão da adolescência. As universidades, por uma vez atentas ao mercado, ofereceram o produto certo no momento certo: um adiamento respeitável, legitimado socialmente e embalado academicamente. Um modo elegante de não crescer sem admitir que se está a fugir da vida adulta. É um arranjo cómodo para quase todos, menos para quem vai chegar ao mercado com teoria a mais e trabalho a menos. Quando o sistema recompensa credenciais, são credenciais que ele produz.

Em países como os Estados Unidos e o Reino Unido, o mestrado não é, tipicamente, a continuação automática da licenciatura. É uma decisão mais tardia e mais específica, justificada por um objectivo concreto. Quem faz um MBA aos 28 anos fá-lo porque já trabalhou, já liderou, já falhou e já sabe o que lhe falta. Quem faz um Master’s em Engenharia fá-lo porque a função que quer exige competências que aquele programa entrega. São, em regra, mais curtos, mais caros e mais exigentes em experiência profissional. São tratados como investimento, não como prolongamento. Ninguém vai para a Columbia ou para a UCL porque sim. Vai porque tem um plano e porque percebe o custo de oportunidade: tempo fora do trabalho, experiência que não se acumula, dinheiro que se gasta.

Mas há outro desfecho possível para uma órbita universitária mais longa. Em vez de ser apenas o prolongamento do rito, pode ser a construção de algo com escala. É aí que entram os spinouts. Um spinout universitário é uma empresa criada para levar ao mercado tecnologia, conhecimento e propriedade intelectual gerados dentro de uma universidade, normalmente por alunos ou investigadores. É a prova clara de que a academia não vive apenas de artigos e investigação básica. Pode, e deve, viver também da criação de valor.

Se olharmos para o topo europeu de criação de valor via spinouts (1), o Reino Unido aparece de forma destacada com Oxford e Cambridge, seguido pelo eixo londrino de UCL e Imperial, o famoso triângulo dourado. Segundo o European Spinouts Report 2025, estamos a falar de dezenas de milhares de milhões, somando valor criado e capital levantado. A Suíça surge logo a seguir com a ETH Zurique e a EPFL Lausanne, e ainda com a Universidade de Zurique entre as mais relevantes. E depois vem o ponto que surpreende: numa União com 27 Estados, e com um programa de peso como o Horizon (2), a presença da União Europeia continental no top 10 reduz-se, na prática, a uma universidade alemã em quinto, a Technical University of Munich, e a uma dinamarquesa em sétimo, a Technical University of Denmark. Melhor do que nada, mas manifestamente insuficiente. Milton Friedman insistia que políticas se avaliam pelos resultados, não pelas intenções. No triângulo dourado(3), a passagem do laboratório para o mercado é um caminho recompensado e operacionalizado: quem cria valor tende a ser reconhecido e financiado, e a máquina universitária está montada para pôr tecnologia a andar. No reverso da medalha, se recompensamos carreiras por cursos de mestrado, publicações teóricas ao quilo, comissões e pareceres, é isso que o sistema devolve. A Europa não é pobre em ciência nem em capital. O problema é o alinhamento de incentivos, e os resultados estão à vista.

E Portugal? Teima em seguir pelo caminho da eurocracia. Copiámos processos complexos, morosos e opacos. Quem decide não paga. Quem paga, paga em tempo e em consultoria para decifrar a burocracia, como se o Estado só aceitasse falar com a economia real através de tradutores certificados. Vejamos um caso prático: a aplicação dos fundos SIFIDE, uma aula de cumprimento normativo que destrói valor. Desde o seu lançamento, no modelo clássico do SIFIDE, para uma empresa aceder a capital, não bastava ter investigação feita, tecnologia pronta e um problema real para resolver. É preciso passar pelo crivo da ANI e obter um carimbo, o chamado selo de idoneidade, uma espécie de certificado de pureza burocrática. O processo é, por desenho, pesado: papelada, validações, entrevistas presenciais, cartas várias de universidades sobre o estado da arte, como se a ciência só fosse legítima quando abonada por carimbos académicos.  Do SIFIDE I passámos ao SIFIDE II e, em 2025, a ANI fez uma modernização: passou de duas cartas para uma e trocou a entrevista presencial por Teams… O essencial manteve-se: os selos continuavam a não sair dentro dos prazos previstos. E depois veio a asneira grave. Na ânsia de mostrar serviço, a ANI inventou mais um degrau, um selo provisório antes do definitivo, e mudou o desfecho da candidatura, criando um passo intermédio sem enquadramento legal, que ninguém no mercado pode aceitar como tendo respaldo jurídico.

Isto não é um detalhe técnico. É o tipo de alteração que pode emperrar tudo com efeito imediato.
Porque cria uma circularidade. De um lado, os fundos precisam de enquadramento e segurança para investir. Do outro, as start-ups precisam do investimento para executar o plano. Se o definitivo só chega depois de executar, mas a execução depende do dinheiro que só entra com o definitivo, o sistema bloqueia. O resultado prático é o pior dos dois mundos: start-ups com tecnologia e ideias, mas sem caixa, e fundos com capital, mas sem previsibilidade para o pôr a trabalhar.

A ANI foi chamada à atenção? Não sabemos. Em matéria tão sensível, o silêncio institucional é parte do problema: sem transparência, não há responsabilização. Depois deste tema, que passou quase despercebido na praça pública, vem a promessa de uma nova lei, aprovada em Conselho de Ministros em Novembro de 2025. E ficamos na confortável sala de espera: mais reunião, mais um mês, logo se vê. Estamos no fim do primeiro trimestre de 2026 e ainda não há desfecho à vista.

A pergunta que devíamos fazer é simples: quando é que começamos a olhar para o orçamento da educação e da ciência à luz do que está a produzir para o país? Está a gerar emprego qualificado, empresas com ambição global e mobilidade social, ou está a financiar rituais e carreiras? Não para fazer demagogia, mas para exigir transparência, excelência na execução e retorno, porque é isso que justifica a escala do investimento público. No fim do dia, a discussão sobre nomes de universidades, quotas, tachos e comunicados é uma distração. O país real vive de salários, produtividade, empresas que exportam e ciência que tem de sair do papel. E a mitologia já nos deixou o aviso. Na Odisseia, Ulisses não vence por ter ideias bonitas. Vence por se amarrar ao mastro para não ceder às sereias. A transferência de tecnologia não é um concurso de burocracia. É uma disputa por valor. Portugal ou se amarra à disciplina da execução e da previsibilidade, com o Reino Unido como espelho do que funciona, ou continuará a ouvir cânticos europeus sobre inovação enquanto navega em círculos.

Referências:

1. Dealroom.co, European Spinouts Report 2025, publicado aqui em 20 de Novembro.

  • Quadro-resumo por bloco (elaboração própria; extracção, tratamento e agregação dos dados publicados no European Spinouts Report 2025, Dealroom).

  • Quadro-resumo do Top 10 (elaboração própria; extracção, tratamento e agregação dos dados publicados no European Spinouts Report 2025, Dealroom).

2. Comissão Europeia — Horizon Europe: EU funding programme for research and innovation (2021–2027). Dotação total: 93,5 mil milhões de euros (incl. 5,4 mil milhões do NextGenerationEU); média anual aproximada: 13,4 mil milhões de euros. Disponível em aqui (consultado a 21 de Fevereiro, 2026).

3. O “triângulo dourado” refere-se à concentração de universidades de investigação de excelência no eixo Oxford–Cambridge–Londres. A definição mais restrita inclui a University of Oxford, a University of Cambridge, a University College London (UCL) e o Imperial College London; mais recentemente fontes incluem também o King’s College London e a London School of Economics (LSE), enquanto outras acrescentam instituições como a London Business School ou a London School of Hygiene and Tropical Medicine.