Um mundo imaginário, mágico, fantasioso, faz parte dos primeiros anos das nossas vidas e até é positivo para o nosso desenvolvimento intelectual e sentimental. Não obstante, deixar de acreditar na Fada-dos-Dentes, no Bicho-Papão ou no Pai-Natal, também é um passo natural nesse desenvolvimento, à medida que, com a prevalência do pensamento racional, vamos conseguindo separar a realidade da fantasia.

Enquanto sociedade, a realidade que temos vivido nos últimos 30 anos é de estagnação. O mundo dá voltas e voltas, e nós vamos mudando os governos, contudo, não saímos do mesmo sítio e com os mesmos problemas por resolver. Somos 10 milhões, com mais formação, mais informação, e muitas ideias de melhoria. Todavia, subjacente à esmagadora maioria delas, está a crença no Estado como salvador.

Estive este fim de semana em Mortágua num fórum florestal promovido pela Abastena. Por lá ouvi imensas propostas, muitas delas com pés e cabeça diga-se, mas a nota dominante foi Estado, Estado, Estado – porque é legítimo, porque é lógico, porque é útil, porque é merecido, porque tem que ser… À última da hora, troquei a minha apresentação por uma curta intervenção, que não me fez fazer muitos amigos (muita gente achou que eu falei mal do poder polítco, mas não fui eu que disse que era uma questão de… vontade. Eu falei de… dificuldades além das vontades. Pelo que, terei sido mesmo eu a falar mal?), porque se limitou a ser um balde de água fria: “alguém acredita mesmo que o Estado vai fazer estas coisas?”

Há uns meses, enquanto estive envolvido – depois acabei por, desiludido, desistir – numa candidatura autárquica, fizemos um fórum sobre habitação. Panorama semelhante: porque tem que ser, porque é o mais lógico, porque outros o fazem, porque é para isso que pagamos impostos, etc., a soluções (incluindo propostas que previam investimentos públicos anuais na ordem dos 5 mil milhões!) andou sempre à volta do papel do Estado.

Eu percebo que quem estude, trabalhe, viva, na floresta, entenda que este é o assunto principal a que o Estado se deve dedicar. Assim como para outros que debatam, estudem ou vivam na pele os problemas da habitação, seja este o tema a que o Estado deve dar primazia. E para outros será a cultura ou o jornalismo ou o investimento em defesa ou a educação, etc. E ainda para outros, senão para todos, questões como o trabalho, as pensões, os salários. Há dinheiro para tudo como sugere Paulo Raimundo? Ou não há margem, como diz Montenegro?

Bom, olhando às contas apresentadas no Orçamento, e mesmo descontando quem ali vê uma fantasia, a margem é, de facto, diminuta. E atendendo a que o PRR está para acabar, não são de antever taxas de crescimento ou de investimento maiores em anos futuros. Logo agora que temos a Climáximo a exigir mais em políticas ambientais, que temos que contratar mais médicos, que temos que investir mais na NATO, que tememos pela segurança de transportes como o Elevador da Glória, que vemos as rendas das casas a continuar a subir, que precisamos de mais creches, de ajudar mais a Ucrânia, etc., etc.

É com este Estado que tem tão pouca margem e tanto para tratar, um Estado que nem o dinheiro “dado” pela Europa consegue gastar, que não consegue construir casas em tempo útil ou encomendar comboios, que não consegue manter urgências abertas ou ruas limpas de lixo, que vive de trabalhadores mal pagos (muitos ganhariam mais num supermercado), com más condições (nem completar escalas por falta de pessoal alguns serviços conseguem), quando não ilegais (falsos recibos verdes)…

É com este Estado que contamos para solucionar problemas? Um Estado que tem um concursozito para apoio a janelas pendente há 3 anos, que há meses que disse que era uma prioridade terminá-lo, e 4 meses depois o que avançaram foi em… desistências (faço aqui uma declaração: também eu estou nesta espera, e não estando a contar com nada – o facto de 1 candidatura em cada 3 ter sido anulada diz bem sobre a qualidade destes procedimentos – também, por casmurrice, desistir não desisto)?

Temos um ministério da reforma do Estado. O que fez de palpável? Quantos impostos poupou a todos nós? Que impacto teve a cortar despesas no Orçamento de Estado? Que procedimentos simplificou? Que organismos, leis, redundâncias, etc., eliminou? Que gastos injustificados questionou? Que mudanças organizacionais sugeriu? Que setores prevê privatizar? Onde está essa reforma afinal? É que para já, nada se vê. Ou era só para fingir que se ia fazer qualquer coisa para no fim ficar tudo na mesma?

A culpa também é nossa. Não estará na altura de nos deixarmos de infantilidades e crescermos? De percebermos que Portugal não é um recreio. E sim, isto até podia ser diferente para melhor, mas não o vamos conseguir se não mudarmos efetivamente este estado de coisas, o estado do Estado. Até lá, em qualquer discussão em que participe (volto ao fórum acima para dar nota de como a qualidade da Abastena me surpreendeu pela positiva e como é ela própria um exemplo de que não devemos ficar à espera do Estado), quanto menos dependente do Estado estiver uma proposta, mais simpatia terei por ela… Porque acreditar que é com este Estado que vamos ver os nossos muitos problemas resolvidos, não é muito diferente de acreditar no Pai-Natal.