Há perguntas que, por mais incómodas que sejam, não desaparecem por serem ignoradas. A relação de Portugal com os Estados Unidos é uma delas. Num mundo cada vez mais imprevisível, crescentemente polarizado e fragmentado, vale a pena perguntar com franqueza: temos hoje melhor parceiro estratégico do que os EUA?
A resposta curta é não. A resposta longa exige pragmatismo e honestidade.
Muito se tem escrito – e com razão – sobre a natureza errática, imprevisível e frequentemente disruptiva da liderança de Donald Trump. O discurso agressivo que apresenta, a visão transacional das alianças e o desprezo por convenções diplomáticas tradicionais geram desconforto, sobretudo em países europeus habituados a uma retórica mais consensual. Mas confundir estilo com substância é um erro estratégico que Portugal não se pode dar ao luxo de cometer.
Os Estados Unidos não se resumem a um Presidente, por mais influente que este seja. São instituições, alianças, compromissos históricos e, acima de tudo, o principal garante do sistema de segurança ocidental das últimas sete décadas. Donald Trump não será Presidente para sempre, mas a manutenção da posição de Portugal no mundo – no seio das instituições que garantem a nossa subsistência – deve ser, essa sim, preservada.
A verdade é que após o primeiro mandato de Donald Trump, e deste primeiro ano do seu segundo mandato, a NATO tem continuado a comprovar e a demonstrar a sua importância e poder dissuasor. O caminho deve ser o de garantir que tal continua a acontecer – assim os seus estados-membros façam a sua parte e cumpram com os seus compromissos.
Quando os EUA exigem que os aliados contribuam mais para a sua própria defesa – hoje fala-se em 5% do PIB – não estão apenas a fazer chantagem política ou a responder a pressões internas. Estão a expor uma realidade desconfortável: a Europa habituou-se durante demasiado tempo a viver sob um guarda-chuva de segurança pago, em larga medida, por outros.
Portugal não é exceção. Cumprir compromissos internacionais não é um favor que fazemos a Washington. É, antes, um investimento direto na nossa própria soberania, segurança e credibilidade externa.
Coloca-se então a alternativa, tantas vezes sugerida de forma vaga: se não os EUA, então quem?
A resposta raramente é clara. Fala-se de um mundo multipolar, de novas parcerias, de equilíbrios alternativos ou, mais surreal ainda, de Portugal se isolar, contando apenas consigo próprio. Mas quando descemos da abstração para a realidade concreta, o cenário torna-se mais sério.
Rússia? Um regime autoritário, agressivo, revisionista, em guerra aberta na Europa e com a Europa.
China? Uma potência fechada, com graves violações de direitos humanos, repressão interna e uma visão direcionada unicamente para os seus interesses económicos e estratégicos.
Outros polos regionais? Instáveis, iliberais ou simplesmente incapazes de garantir segurança coletiva.
É este o clube alternativo que alguns sugerem, ainda que implicitamente? Alianças com regimes que restringem liberdades, perseguem minorias e subordinam o indivíduo ao Estado? Para um país europeu, democrático e constitucionalmente comprometido com os direitos humanos, essa escolha não é apenas imprudente – é incoerente.
Mais: ao invés dos 5% do PIB para a Defesa para fazermos parte da NATO, quanto custaria a Portugal a nossa defesa a solo, ou com outras potências, a maior parte muito afastadas do espírito democrático? Pois, é melhor nem pensarmos nisso.
A NATO, com todas as suas imperfeições, continua a ser a mais eficaz aliança defensiva da história. Não apenas pela capacidade militar dos seus estados-membros, mas pelos seus valores e pelo seu carácter dissuasor. É precisamente, apenas e tão pouco pela sua existência que muitos conflitos não acontecem. E é precisamente, apenas e tão pouco pelo facto de os EUA estarem no centro dessa arquitetura que a Aliança Transatlântica funciona desde 1949.
Ainda assim, tal não significa abdicar de uma ambição europeia em matéria de defesa. Pelo contrário. Portugal deve defender – e contribuir ativamente – para o reforço das capacidades militares da União Europeia. Mas convém não confundir objetivo com ilusão. Uma defesa europeia credível levará décadas a construir, enfrentará resistências políticas internas, divergências estratégicas profundas e limitações industriais reais. Aliás, como tem vindo a acontecer. Até lá, a NATO não é opcional. É vital.
Reforçar as Forças Armadas portuguesas não é alinhar cegamente com Washington. É reforçar a preparação e prontidão do país para um mundo mais instável, onde a paz deixou de estar garantida. É investir em tecnologia, em pessoas, em meios, em capacidade de resposta. É também ganhar voz e peso político dentro das alianças e compromissos multilaterais dos quais fazemos parte. Quem contribui decide. Quem não contribui, obedece, ou é ignorado. Ou pior, rejeitado.
A pergunta inicial mantém-se: temos melhor parceiro do que os EUA? A resposta continua a ser não. E enquanto não tivermos, o pragmatismo deve prevalecer sobre o moralismo seletivo e o antiamericanismo conveniente.
As alianças não são, muitas vezes, casamentos românticos. São compromissos estratégicos. Podem atravessar fases difíceis, lideranças incómodas e tensões reais, mas rompê-las sem alternativa sólida não é emancipação, é imprudência.
Portugal ganha em manter, fortalecer e honrar a sua relação com os Estados Unidos, ancorada na NATO e complementada por um esforço sério de defesa europeia. Perder essa âncora seria ficar à mercê de poderes que não partilham nem os nossos valores da liberdade e pluralismo, nem os nossos interesses.
Num mundo cada vez mais duro, a ingenuidade paga-se caro. E a segurança, como a liberdade, não se garante por decreto – constrói-se, investe-se e defende-se. Com racionalidade e pragmatismo.