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A todas as Mães

A minha mãe tem noventa anos. Há 45 dias que nos vamos vendo, ocasionalmente, através de zoom ou whatsapp. Está confinada, com um dos meus irmãos e um neto, numa casa na Beira Baixa que o meu avô construiu, tinha ela um ano. O meu avô foi mandado para França, na I Guerra Mundial, como oficial, e seria mais tarde capitão inválido de Guerra. Construiu uma casa grande pois com um filho e três filhas achou que iria ter muitos netos, mas acabou tendo apenas cinco, rapazes, desta filha mais nova. Na então aldeia, a casa era conhecida por “o prédio”. No pequeno escritório da entrada havia revistas sobre a guerra. O meu avô contava-me histórias sobre os cálculos que fazia, nas trincheiras, sobre a inclinação desejável das espingardas para que os tiros atingissem os soldados alemães, também eles entrincheirados. Era uma nova aplicação para a matemática, aprendida no Técnico e na Faculdade de Ciências de Lisboa, e que levaria a minha mãe a seguir as pisadas dos pais e licenciar-se em matemática. Na faculdade, pertenceu à Associação de Estudantes, onde construiu amizades, que duraram para a vida. Casou, teve filhos, e seguiu a sua vocação, ser professora de matemática. Ensinou centenas de estudantes, primeiro na Escola Avé Maria, depois no Liceu Passos Manuel  e finalmente no Pedro Nunes em Lisboa. Hoje, está nessa casa, cada vez mais fraquinha e mais distante. Confinada.

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