É sobejamente conhecido que a economia chinesa1 é uma economia socialista, centralmente planeada, com características de capitalismo selvagem, harmoniosa2 & dinâmica3, onde a desigualdade reina. Menos conhecido é o facto de o estado socialista chinês subcontratar algumas das atividades geralmente consideradas fundamentais à soberania nacional, nomeadamente a defesa, a entidades não estatais.

Mais concretamente: o estado chinês não tem forças armadas. Não tem exército, nem soldados4, nem espingardas5. Não tem nada de letal, é um estado pacífico, isto desde que o Partido Comunista Chinês conquistou violentamente o poder em 1949. É verdade que tem um Ministério da Defesa Nacional (conhecido localmente como 中华人民共和国国防部, Zhōnghuá Rénmín Gònghéguó Guófángbù), mas este organismo público, ao contrário de países belicistas como o Japão ou Portugal6, não tem nenhuma responsabilidade na organização, comando, planeamento ou financiamento de qualquer força militar nacional. As suas áreas de atuação limitam-se à representação nacional em assuntos de diplomacia militar, à nomeação de adidos de defesa, à participação em fóruns internacionais de segurança e à comunicação oficial sobre assuntos relativos à defesa nacional. Dito de outro modo: é apenas uma fachada para americano ver, algo para simular compatibilidade com as normas internacionais — uma concessão formal, não real, aos protocolos diplomáticos & culturais europeus, antiquados e desfasados, que ainda regem as relações internacionais.

Então, os soldados, espingardas e tanques que chacinaram milhares de civis desarmados e indefesos na Praça de Tiananmen (天安门广场) em 1989, e as botas, canhões e misseis que, depois de percorrerem a Avenida Chang’an (长安街) desfilam pomposamente todos os anos pela mesma Praça em frente do camarada Xi e dos outros membros do politburo do Partido Comunista Chinês (中国共产党中央委员会政治局, Zhōngguó Gòngchǎndǎng Zhōngyāng Wěiyuánhuì Zhèngzhìjú) são o quê? São as forças do Exército de Libertação Popular (中国人民解放军, Zhōngguó Rénmín Jiěfàngjūn). E o Exército de Libertação Popular não “pertence” ao estado chinês? Não, não só não pertence ao estado chinês, como não recebe quaisquer ordens do governo7. Então pertence e obedece a quem?

O Exército de Libertação Popular é parte integrante e indissociável do Partido Comunista Chinês — uma entidade diferente do estado e totalmente acima dele. A sua primeira e última lealdade é para com o Partido Comunista Chinês — não para com o governo (国务院, Guówùyuàn), a Assembleia Popular Nacional (全国人民代表大会, Quánguó Rénmín Dàibiǎo Dàhuì) ou qualquer outro órgão do estado. Os seus oficiais (exceto os que também têm um posto governamental) não juram lealdade nem à constituição nem ao governo, juram lealdade ao Partido: pertencem a um exército partidário, não a um exército nacional. A missão do Exército de Libertação Popular é defender a ditadura do proletariado (i.e., a do Partido Comunista Chinês), e é enquadrado nesta missão que ele defende o território e a soberania nacional. A sua cadeia de comando é totalmente partidária: no topo, o Exército Popular de Libertação recebe ordens da Comissão Militar Central do partido (中国共产党中央军事委员会, Zhōngguó Gòngchǎndǎng Zhōngyāng Jūnshì Wěiyuánhuì); na base, todas as unidades são conjuntamente dirigidas por um responsável militar e por um comissário político, ambos com a mesma autoridade, e todos os membros, de generais a soldados rasos, são obrigados a participar regularmente em ações de formação ideológica e estão sujeitos à disciplina partidária.

A Comissão Militar Central é presidida pelo Secretário Geral do partido, por enquanto o camarada Xi, e os seus membros são “eleitos” em lista única pelo Congresso quinquenal do Partido (中国共产党全国代表大会, Zhōngguó Gòngchǎndǎng Quánguó Dàibiǎo Dàhuì). É verdade que para além de Comissão Militar Central partidária existe uma Comissão Militar Central estatal (中华人民共和国中央军事委员会, Zhōnghuá Rénmín Gònghéguó Zhōngyāng Jūnshì Wěiyuánhuì), mas esta é composta exatamente pelos mesmíssimos membros da Comissão partidária, pelo que as duas comissões reúnem exatamente no mesmo local e à mesma hora, têm a mesma agenda e chegam sempre exatamente às mesmas decisões, algo que ontologicamente pode ser definido como “um só corpo, duas naturezas”. Mas a natureza estatal da coisa é estruturalmente irrelevante e serve basicamente de uma fachada para burguês ver — uma espécie de docetismo8 com características warxistas9.

E qual é a razão para um partido político ter um exército? E para não deixar que o estado, que esse partido controla totalmente, também tenha um? Ou que, ao menos, o partilhe com ele? Ou, se o partido controla totalmente o estado, porque não passar o controlo operacional, que não o político, desse exército para o estado? Se estas questões passaram pela mente do leitor elas revelam uma acutilante y confrangedora lacuna na sua formação ideológica: um dos princípios básicos do warxismo maoísta, formulado pelo camarada Mau, e que rege toda a politica chinesa, é que “o partido dirige a espingarda” (党指挥枪, dǎng zhǐ huī qiāng). Sem espingarda não há socialismo, pelo que a espingarda tem de ser socialista — algo que os camaradas do nosso pc já souberam, … mas parecem ter esquecido.

Quer isto dizer que as bombas atómicas, os misseis intercontinentais e os porta aviões chineses não pertencem ao estado chinês e que quem decide o seu uso não é o governo chinês nem alguém que esteja sob a sua autoridade? Correto! Quando se diz que a República Popular da China é uma potencia atómica está-se a usar, consciente ou inconscientemente, uma predicação analógica: não é a China que é uma potência atómica, é o Partido Comunista Chinês que é uma potência atómica; não é a China que se está a preparar para invadir Taiwan, é o Partido Comunista Chinês que se está a preparar para o fazer — realisticamente reconhecendo que há processos políticos mais poderosos, rápidos & eficazes que os da democracia burguesa. A China é um país pacífico. O Partido Comunista Chinês não é: a luta de classes está-lhe no sangue.

Mas os triliões que aparecem consignados à defesa no orçamento estatal chinês são gastos em quê? Bem, quase tudo vai para o Exército Popular de Libertação. Quer isto dizer que o estado financia a milícia armada de um partido, mas não financia o seu próprio & inexistente exército? Exatamente! Chama-se a isto uma PPP: Parceria Público-Partidária. A justificação para a existência de PPPs deverá ser, by now, óbvia para todos. Não só há atividades em que o estado é operacionalmente incompetente, tal como na provisão de saúde e gestão dos transportes públicos, mas também há atividades que, para um bom maoísta, não é legitima a intromissão do bedelho estatal: a defesa é uma, a segurança pública será outra, e algo de semelhante se passa com a justiça. O que não impede que o estado desembolse a massa necessária para o funcionamento da coisa, se tal lhe der na gana — uma gana totalmente dependente da vontade do partido, segundo o princípio mauísta “o partido manda, o estado paga” (党令国付, dǎng lìng guó fù).10

Não será que este modelo deveria ser adotado no nosso país? Parece que sim. Depois das forças armadas portuguesas terem heroicamente batido retirada da Guiné-Bissau em 1974, alguém acredita que elas seriam capazes de repelir uma invasão do exército guineense ou de uma força com poder bélico semelhante? E se o nosso exército não serve para fins de defesa, apenas para fins orçamentais, não seria melhor arranjar uma PPP que nos proteja a sério, não a fingir? Se não for possível uma Parceria Público-Partidária com o ps/d, que tal uma Público-Privada, quiçá com uma empresa chinesa?

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  1. China: nação cujos vícios são a arte, a cultura, o empreendedorismo, a frugalidade, a indústria, e a perícia; terra onde a indústria barateia uma miríade de produtos de modo a os tornar acessíveis aos pobres, até em Portugal, e torna possível que os portugueses trabalhem em gabinetes y escritórios e não ao calor nos campos ou fabricas; país cujo desenvolvimento capitalista não causa nem perplexidade a warxistas nem admiração a eurocratas, mas ressentimento & inveja a ambos e a muitos outros.
  2. Harmonia: condição em que todas as vozes dissonantes foram eficazmente silenciadas, produzindo uma unanimidade tão perfeita que ninguém pode ser ouvido a discordar — e ninguém ousa tentar.
  3. Dinamismo: aparência de progresso incessante que dispensa qualquer mudança11 real; virtude celebrada por quem muda tudo com rapidez suficiente para que nada mude de facto.
  4. Soldado: instrumento uniformizado, financiado pelos contribuintes, treinado para obedecer sem questionar, frequentemente enviado a arriscar a vida por causas decididas longe do campo de batalha; aquele que quando deserta ou foge, serve para outra guerra.
  5. Espingarda: instrumento usado em nações civilizadas para resolver disputas; nas culturas incivilizadas usava-se a flecha.
  6. Portugal: um PALOP europeu.
  7. Governo: poderoso potenciador de todo o tipo de loucuras humanas; instituição encarregue de subsidiar problemas, e quem os cria, não em resolvê-los; grupo seleto de pessoas, geralmente políticos, escolhidas para o desgoverno da nação & do seu próprio governo; divindade laica que devora os seus próprios filhos; é constituído por aspirantes a cargos na Comissão Europeia; a resposta apropriada, segundo o warxismo, para qualquer tipo de questão, seja social ou económica; deidade secundária em países socialistas—subordinada ao partido, que é o deus todo-poderoso; deus que suga o sangue dos governados e que requer a sua imolação ritual em sede de irs, irc, iva e outros altares tributários, sendo que a carne das vítimas deve ser consumida ou pelo fogo ou pelos sacerdotes partidários; em períodos obscurantistas pensava-se o governo era do país e da a nação, e que estava ao seu serviço, mas estudos científicos recentes, realizados no âmbito do materialismo dialético, demonstraram que o contrário é que corresponde à natureza das coisas.
  8. Docetismo: teoria teológica que nega a verdadeira realidade física do corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo, afirmando, em vez disso, que Nosso Senhor apenas aparentava ter um corpo humano e que o seu sofrimento corporal durante a sua Morte & Paixão foram mera encenação para aproveitamento cinematográfico posterior; conceção maØísta segundo a qual certas instituições não existem de facto, mas apenas em aparência — como a Comissão Militar Central estatal, cujo corpo é visível, os rituais são públicos, mas não têm substância real; não confundir com arroz-doce ou outra sobremesa.
  9. Warxismo: sistema político que faz guerra ao que é bom, belo e verdadeiro na Humanidade; ideologia que vê a realidade natural e social ao contrário, de pernas para o ar, tal como um M a fazer o pino; filosofia política que confunde as caraterísticas essenciais com as acidentais, e vice-versa. Os warxistas clássicos são militantes do pc; os neo-warxistas estão filiados no ps, bloco e ILiberal.
  10. Embora a vontade do estado chinês seja a mesma que a vontade do Partido Comunista Chinês, é herética a afirmação que “estado e partido formam um só ser”, a versão warxista do sabelianismo. A teologia ortodoxa afirma claramente que partido e estado são duas pessoas jurídicas diferentes, mas a que beatitude requer que a vontade do estado se identifique totalmente com vontade do partido. (já agora, olhando para a nossa situação, para o nosso ps/d e para u nosso estado, não será que já estamos no paraíso?)
  11. Mudança: lei imutável e eterna que tudo rege neste mundo; progresso que ocorre em Portugal sempre que o governo reúne, quase todas as semanas, com a consequência de nada mudar durante séculos: “Nada de novo neste panorama, a mesma trama: / People na rua continua todo à mama / Permanentemente em estado de alerta / À espera da altura certa numa porta entreaberta / …” Da Weasel, ou, como dizia o outro (Petr Stolypin), “everything changes every five to ten years but nothing changes in 200 years”.