Com o aumento do descontentamento social na Rússia, as autoridades são cada vez mais obrigadas a recorrer à falsificação na contagem de votos para conseguirem “o apoio incondicional do povo”, mas a resistência à batota nas urnas dá resultado e leva à repetição de escrutínios.

Recentemente realizou-se em Vladivostoque, capital da região de Primorie, uma conferência económica internacional onde participaram dirigentes da Rússia, China e Japão e onde Vladimir Putin apontou uma vez mais grandes perspectivas para essa região. Foi também para esses lados que Moscovo decidiu realizar manobras militares de enormes dimensões.

Durante a estadia em Vladivostoque, Putin reafirmou o seu apoio a Andrei Tarasenko, governador interino de Primorie que acabara de passar à segunda volta das eleições regionais.

Porém, as populações da região de Primorie, no Extremo Oriente russo, decidiram que já chega de promessas e trocaram as voltas ao Kremlin na segunda volta.

Na segunda volta, o adversário de Tarasenko era Ischenko, candidato do Partido Comunista da Federação da Rússia que conseguiu reunir à sua volta o eleitorado de protesto. E pareceu que o impossível iria acontecer. Quando estavam contactos 99,1% dos votos, Ischenko vencia por 50,37% dos votos, enquanto que Tarasenko perdia com 47,11%.

Porém, quando a Comissão Eleitoral Regional anunciou o resultado da contagem dos 100% dos boletins, o candidato do Kremlin foi declarado vencedor com 49,55% dos votos e Ischenko ficou atrás com 48,06%.

Os comunistas e a oposição ao Kremlin não aceitaram os resultados e acusaram a Comissão Eleitoral Regional de falsificação da contagem. Além disso, decidiram vir protestar para o centro de Vladivostoque. O dirigente russo Guennadi Ziuganov foi mesmo encontrar-se com Vladimir Putin para analisarem a situação.

Quando a contagem de votos se estava a realizar, funcionários do Ministério para Situações de Emergência (Segurança Civil) entraram num dos centros da Comissão Eleitoral para “realizarem trabalhos”, tendo retirado parte das pessoas que se encontravam no local e deixado sem qualquer vigilância os protocolos das votações. Esta pode ser uma das explicações para o “milagre” ocorrido a favor do candidato do Kremlin.

Ella Panfilova, presidente da Comissão Eleitoral da Rússia, deslocou-se a Vladivostoque, lamentou, com as lágrimas a correrem-lhe nos olhos, como é seu costume, as violações no escrutínio, apontando a culpa aos dois candidatos.

“Só Deus Nosso Senhor pode garantir a transparência das eleições”, afirmou Panfilova. Como Deus não foi visto como observador, a mesma Comissão Eleitoral Regional que permitiu as falsificações decidiu realizar novas eleições em Dezembro, onde poderão participar estes e outros candidatos.

O candidato do Kremlin veio inicialmente dizer que se retirava da corrida, mas depois deu marcha atrás. O comunista considera que venceu as eleições, recorreu aos tribunais e declarou que está contra a realização de novas eleições. “É um absurdo total. Os eleitores já escolheram o governador”, declarou Ischenko. Porém, aceitará participar se essa for a decisão do seu partido.

Julgando-se “donos daquilo tudo”, os senhores da Rússia descuidaram-se e criaram um mau precedente, principalmente num momento em que medidas como o aumento da idade das reformas são fortemente contestadas.

P.S. Imaginei que o Avante, órgão oficial do Partido Comunista Português, viesse em defesa dos seus camaradas russos, mas não encontrei nada.