The Crown

Um épico acerca da evolução de um monarca perante as agruras do tempo. Como não manda nada, o monarca aproveita o ócio para tirar fotografias com os súbditos e, sobretudo, despir-se em público. O rei não vai nu, mas quase: qualquer motivo serve para trocar de calções ou remover a camisa. Com o advento da Covid, Sua Majestade sujeita-se a 40 testes diários, o que lhe concede folga para lavar a roupa e pretexto para a tirar. À chegada da vacina da gripe, dá um exemplo profilático ao povo e desata a tomá-las sem parança, naturalmente em pelota. Como toma demasiadas, não sobram vacinas para a ralé. Felizmente, a ralé venera o seu soberano e não leva a mal. Subtil e densa, “The Crown” mostra que debaixo das vestes reais existe um ser humano complexo e frágil. “The Crown” raramente mostra as vestes reais.

Lost

Após o descarrilamento de um comboio esterilizado da CP, dezenas de pessoas dão por si num lugarejo aterrador e remoto a que, por definição, atribuem o nome de “Portugal”. “Portugal” é um sítio misterioso, com florestas em cinzas, arquitectura medonha e inúmeras rotundas. E um vírus nunca visto, que só ataca de madrugada e após os almoços dos fins-de-semana. “Lost” acompanha o confronto das personagens com o ambiente hostil, uma relação que passa do medo inicial para a resignação. Aos poucos, estabelecem um sistema organizativo complicado, em que metade dos habitantes exerce o poder e a metade restante vai à pesca para os sustentar. Aos sábados, fazem-se patuscadas. Quando os responsáveis da Assembleia de Sábios se esquecem de conservar o peixe e Mendes, o Sábio Diminuto, não consegue sentir o pivete, percebe-se que afinal há ali Covid. Instala-se o pânico, o estado de emergência e dezassete comissões para observar ambos. Os “ganchos” deixam o espectador em suspenso: será que a doença dizimará toda a gente? Alguém conseguirá pressionar a enigmática “mola” e achatar a ambígua “curva”? Cancelar as patuscadas impedirá a propagação? Porque é que Jerónimo, o Sábio Vermelho, parece ser imune ao contágio? No final, as personagens reúnem-se no Infarmed a inventar medidas, sugestão velada de que estarão mortas. Ou pelo menos parvas.

Cops

Em estilo de reportagem, “Cops” segue brigadas policiais em missões de reconhecido risco: capturar lojistas a trabalhar para lá das regras do confinamento, transeuntes sem declaração da entidade empregadora, proprietários da restauração que permitem grupos de sete comensais, etc. A princípio, a série parece estúpida. Com o hábito, notamos que é ainda mais estúpida.

The Sopranos

A série centra-se na família de Tony “César” Soprano, que trabalha no negócio da recolha de lixo para esconder o negócio da distribuição de lixo, ou seja, dos incontáveis parentes por empregos sortidos. Tony “César”, o patriarca, frequenta uma psicanalista para aliviar a consciência: pesa-lhe ainda não ter conseguido empregar um concunhado do genro, rapaz que se baba e daria um excelente director-geral. Tudo se complica no momento em que uma família rival, chefiada por Don Rio, vai ao Benfica contratar Andrea Venturini, um fora-da-lei que adora a lei. A função de Venturini é chatear Tony “César” durante um jantar do período de confinamento, que limita o número de convivas ao agregado nuclear. Como estarão apenas oitenta e quatro pessoas à mesa, o plano de Venturini implica aparecer, com umas garrafas de vinho, disfarçado de primo em terceiro grau – e depois atirar ciganos para cima de Tony “César”. Infelizmente, Venturini chega à caixa do supermercado às 20h03, hora a que o vírus, que passa o dia a fugir do álcool, já se entrega a uns copos. Incapaz de comprar o Murganheira, Venturini muda de plano e vagueia pelas ruas em busca de pedófilos para castrar. Sem pinga, a família de Tony “César” ocupa o jantar a olhar para o balão (vazio). De repente, o ecrã fica todo preto. O espectador poderá pensar que é Venturini. Mas não é: é um amigo dele.

Keeping Up With The Kardashians

O “reality show” em voga. Umas senhoras (com o ocasional cavalheiro à mistura, a título de pechisbeque) sem nada para dizer falam incessantemente. A radical ausência de méritos das protagonistas não as impede de decretar comportamentos e “estilos de vida”. Dia após dia, sentadas atrás de uma mesa, debitam insanidades contraditórias sobre a Covid como se tivessem acesso a um patamar de conhecimento superior e não a um emprego que o PS lhes arranjou. Usem máscara, não usem máscara. Visitem lares, não visitem lares. Fiquem em casa, saiam de casa. Abram as escolas, fechem as escolas. Etc. Ao lado, sujeitos traduzem o paleio a benefício (?) dos surdos-mudos. A tradução para débeis mentais é desnecessária. Por falar em débeis mentais, há um público para isto, e Graça Kardashian, a figura mais destacada, é uma “influencer” de proa: muita gente cultiva orquídeas ou deixa falir restaurantes por sugestão dela. Devido ao sucesso obtido, Graça e Marta Kardashian são capa regular das publicações da moda, como a Notícias Magazine, a Tv Guia e o Público.

Walking Dead

Uma visão distópica, na qual os cidadãos perdem os direitos, a autonomia e a vontade e são condenados a vaguear pela Terra ou, à noite e nos fins-de-semana, pelas respectivas salas de estar. A angústia suscitada pela série está na absoluta arbitrariedade do Novo Normal, que determina regras sem fundamento ou coerência. Os protagonistas, que são os escassos resistentes, vivem em fuga permanente de mortos-vivos mascarados, sedentos de os besuntar com álcool-gel ou denunciá-los à polícia. O objectivo dos nossos heróis é chegar a qualquer concelho onde haja festança do PCP, o único lugar livre de imposições e fanáticos do “distanciamento social”. O início de “Walking Dead” decorre num hospital em ruínas, retrato do que sucedeu ao melhor SNS do mundo depois de o PS o salvar.

Telejornal/Jornal das 8/Jornal da Noite/CM Jornal/etc.

Produções nacionais, conjuntas, infantis e, até ver, as únicas já disponíveis desta lista. Os nossos noticiários televisivos são a versão ficcionada do dia-a-dia do governo socialista e dos seus aliados leninistas. Nesta adaptação muitíssimo livre, não há interesses ocultos, redes de corrupção, saques generalizados, abusos de poder ou supressão de liberdades: há uma frente de esquerda que genuinamente se empenha em melhorar a vida dos portugueses. Trata-se, pois, de uma narrativa onírica, tipo “Feiticeiro de Oz” sem anões e com gordos. Os actores interpretam-se a si mesmos, embora a tendência do dr. Costa para rir no meio das frases derrube a “quarta parede” e desmonte o carácter paródico daquilo. Em plena quinta temporada, a Covid ajudou a reinventar uma fórmula que ameaçava esgotamento. Nos últimos meses, os noticiários têm criado, com notável inventividade, a história de um governo em acção contra o vírus. Os mais pequenitos são levados a acreditar que aquela gente sabe o que está a fazer, além de destruir a economia e subtrair dinheiro à “Europa”. Apesar de o seu carácter absurdamente fantasioso não se destinar a adultos, os noticiários proporcionam belos serões em família, de preferência confinada.