Recordo-me de um episódio que me marcou profundamente, há cerca de dez anos, durante um encontro de jovens religiosos em Fátima. Entre os muitos testemunhos que então escutei, houve um que me deixou desconcertado.
Umas jovens religiosas timorenses partilharam as dificuldades da sua vida comunitária: falavam da privação quase total de diálogo com a família, da necessidade de vestir a roupa que ninguém queria, da obrigação de poupar até na higiene mais básica, e da experiência de cozinhar sempre com o bico do fogão regulado no mínimo, como exigência de poupança.
Confesso que fiquei chocado. Parecia-me excessivo, difícil de compreender, que a vida religiosa — chamada a ser espaço de fraternidade e de testemunho evangélico — pudesse transformar-se em lugar de privação e de pequenas provações quotidianas. Contudo, fiquei calado. Não sabia como reagir. Hoje, mesmo se quisesse, não saberia identificar concretamente aquelas irmãs, mas ficou em mim a memória e, sobretudo, a inquietação. Talvez esse choque se explique pelo facto de eu nunca ter passado por uma experiência semelhante.
Com o tempo, crescendo no ministério e amadurecendo na experiência de padre, fui percebendo que a vida da Igreja, apesar da sua beleza espiritual e do testemunho que tantas vezes oferece ao mundo, também esconde fragilidades. Há nelas um misto de humanidade ferida e de mecanismos de defesa que surgem quando o amor não é suficientemente recebido nem oferecido. É nessa ausência de afeto saudável que brotam distorções: a inveja que dificulta relações, o abuso de poder que pesa, o silêncio que evita o pedido de perdão, a ingratidão que desanima, o utilitarismo que reduz a pessoa ao que faz. São realidades que conhecemos e sentimos, mesmo que delas raramente se fale em voz alta.
Entre todas, a inveja talvez seja a mais traiçoeira. Nela não há apenas um ciúme passageiro, mas uma ferida profunda que transforma irmãos em rivais. É um mal-estar que nasce quando não conseguimos aceitar que o outro brilhe. A alegria de um padre acarinhado pelo seu povo, o reconhecimento de um religioso pelo seu trabalho, o simples aplauso diante de um gesto bonito — tudo isto, em vez de gerar satisfação, pode despertar ressentimento e desejo de apagar a luz alheia. A inveja corrói por dentro, instala a suspeita, dá origem a murmurações e maledicências. E quando não é travada, acaba por ferir a comunhão, criando uma rede de intrigas que impede a confiança (Freud, 1927).
Outra ferida silenciosa é o abuso de poder. Não falo apenas de grandes escândalos, mas de gestos quotidianos que desgastam lentamente. Recordo-me de um jovem religioso que foi ameaçado por um superior hierárquico de não poder prosseguir os seus estudos só porque o tinha desagradado. Não estava em causa qualquer critério pedagógico ou pastoral, apenas a vontade de impor-se. O poder, que deveria ser serviço, tornava-se peso. Situações destas repetem-se em diferentes formas: quem não se sente seguro em si mesmo procura dominar o outro, abafando talentos, travando iniciativas, limitando criatividade. O que deveria ser cuidado transforma-se em controlo. O que deveria ser autoridade converte-se em autoritarismo (Adler, 1927).
Também a ingratidão dói. Na Igreja fala-se muito de comunhão e de partilha, mas na prática quantos vivem anos inteiros sem nunca ouvirem um simples “obrigado”? Há padres que dão a vida por comunidades inteiras e regressam ao silêncio da sua solidão sem uma palavra de reconhecimento. Há religiosos que se dedicam a trabalhos humildes, invisíveis, e nunca são lembrados. A ausência de gratidão pesa como uma condenação. Faz sentir que nada do que se faz tem valor. Transforma a missão numa engrenagem fria, onde a pessoa é apenas mais uma peça, facilmente substituída. E, no entanto, bastaria tão pouco — uma palavra, um gesto, um olhar — para reacender a chama da motivação (Seligman, 2002).
Mas talvez uma das dores mais duras seja a incapacidade de pedir perdão. Quantas vezes vemos erros claros, decisões injustas, atitudes que ferem, e pouca consciência desses atos? Alguns líderes parecem ter medo da vulnerabilidade, como se admitir uma falha fosse perder a autoridade. Assim se perpetua o silêncio. Por vezes surgem gestos indiretos — um convite, uma atenção inesperada, um comentário velado —, mas raramente um pedido de perdão frontal. No entanto, pedir desculpa é talvez o ato mais libertador que existe. É ele que devolve a dignidade a quem foi ferido, que repara a confiança abalada e que reabre a possibilidade de caminhar juntos. Quando não se pede desculpa, acumula-se ressentimento, cresce a distância, instala-se a desconfiança. A reconciliação e a misericórdia pregadas pela Igreja, nem sempre são praticadas por nós que nela habitamos (Lazare, 2004).
Outra ferida, subtil mas real, é o utilitarismo. É doloroso perceber como, tantas vezes, o valor de uma pessoa na vida eclesial se mede apenas pela utilidade. Enquanto se é produtivo e enquanto se serve, há lugar e atenção. Quando se perde a saúde, a força ou a capacidade, instala-se o esquecimento. Há colegas que enfrentaram doenças graves e não receberam sequer uma visita; outros atravessaram momentos de depressão e nunca ouviram uma palavra de proximidade e conforto. Recordo um padre que cuidou da sua mãe até ao fim, com uma dedicação silenciosa, comovente e extremosa, e que, apesar de tudo o que deu, não recebeu uma chamada, uma palavra de conforto, um simples gesto do seu bispo. É como se o cuidado invisível, vivido no silêncio da casa e na intimidade da família, não tivesse valor. É como se só contasse o que aparece, o que serve a máquina, o que mantém a engrenagem a funcionar. Contudo, aí estava o Evangelho em estado puro: no cuidado, no sacrifício, na entrega sem palco. Quantos padres, não suportando esta frieza e esta ausência de reconhecimento, acabaram por deixar o ministério? Quantos se sentiram dececionados por uma instituição que parecia não os acolher? São histórias discretas, quase sempre escondidas, mas reais e com rostos concretos (Frankl, 1946).
A Igreja será mais verdadeira na medida em que conseguir unir palavra e gesto, espiritualidade e humanidade, Evangelho e vida concreta. Mas é precisamente aqui que está a ferida: a Igreja, que deveria ser casa de comunhão, lugar de gratuidade, espaço de amor, de afeto, de perdão, onde cada pessoa é acolhida não pelo que faz, mas pelo que é, revela-se, por vezes, o oposto. O que deveria ser espaço de fraternidade transforma-se em palco de comparações. O que deveria ser lugar de serviço torna-se um exercício de poder. O que deveria ser ambiente de gratidão resvala em indiferença. E o que deveria ser comunidade de perdão e reconciliação fecha-se num silêncio frio, duro e austero.
É exigente escrever estas coisas, mas torna-se ainda mais exigente escutá-las e compreendê-las por dentro. Sobretudo quando, com o tempo e a experiência, se vai ouvindo muito e aprendendo a interpretar o que se passa à nossa volta. Eu próprio admito que não vivi diretamente muitas destas situações; pelo contrário, reconheço que aqui sou feliz e descubro diariamente a alegria de ser sacerdote. Mas, em consciência, não poderia deixar de partilhar aquilo que escuto e que me interpela. Porque quem está dentro ouve diariamente a pregação sobre o amor, a comunhão e a misericórdia, mas depois sente que tal não se pratica internamente. Pregamos aos outros que é preciso perdoar, agradecer, cuidar, amar, mas entre nós esquecemo-nos de viver o mesmo. É uma ferida dolorosa: aquilo que se proclama não coincide totalmente com aquilo que se coloca em ação.
Eu sei que muitos poderão reagir a estas palavras com incómodo. Alguns pensarão que é injusto ou exagerado. Contudo, escrevo porque amo e não porque pretendo acusar. Quem ama não pode fechar os olhos às feridas. Quem ama deseja ver a transformação acontecer. A Igreja só será fiel ao Evangelho quando for capaz de cuidar verdadeiramente dos seus, não como funcionários úteis, mas como irmãos únicos, amados e insubstituíveis.
E eu mesmo, ao escrever estas linhas, sinto a dor de quem reconhece que também, por vezes, se deixou calar. Passados estes anos, descubro-me não só tocado por algumas fragilidades da vida eclesial, mas também participante delas, pela omissão, pelo silêncio e pela conivência. Reconhecê-lo não é fácil, mas talvez seja este o primeiro passo para que a esperança se torne possível. Porque só quando temos a coragem de admitir que a Igreja ainda não é plenamente aquilo que é chamada a ser, podemos começar a caminhar para que venha a sê-lo. Essa é a nossa responsabilidade, de dentro para fora, com fé, com verdade e com amor.
A Igreja não é uma sociedade de puros. Ela é o lugar onde o mundo é assumido, ferido pelo pecado mas chamado à redenção, permanecendo sempre em estado de conversão (Lubac, 1938).
Referências
Freud, S. (1927). The ego and the id. Standard Edition.
Adler, A. (1927). Understanding human nature. New York: Greenberg.
Seligman, M. E. P. (2002). Authentic happiness. New York: Free Press.
Lazare, A. (2004). On apology. Oxford: Oxford University Press.
Lubac, H. de (1938). Catholicisme: les aspects sociaux du dogme. Paris: Éditions du Cerf.
Frankl, V. E. (1946). Man’s search for meaning. Boston: Beacon Press.