Tenho lido muita sobre o Dia do Pai, mas neste dia penso em todos os que, como eu, cresceram sem pai. E crescer sem um pai é navegar em mar alto numa casca de noz; é sentir falta de uma mão firme que nos guie na vida, de um olhar cúmplice nas nossas conquistas, de um abraço que nos acalme a alma. O vazio torna-se o companheiro fiel e o silêncio grita nos momentos de alegria e nas noites de solidão.
A falta de um pai invade o emocional e deixa marcas profundas. A ausência de uma figura masculina, de um espelho onde se reflitam as qualidades que se deseja cultivar, é uma ferida que sangra em silêncio. É a saudade de conversas sobre o futuro, de conselhos sobre os desafios da vida, de um simples “estou orgulhoso de ti!”. As dúvidas permanecem, os “e se” não desaparecem, a saudade não passa e a ideia de nunca mais chamar por ele é dificil de aceitar. Mas o amor, esse fica.
Porém a ausência de um pai não define quem vamos ser, apenas nos molda, fortalece e ensina a encontrar outras formas de prosseguir. Avós, tios, irmãos, amigos e professores podem preencher, em parte, esse vazio, oferecendo amor, cuidado e orientação. E, de entre a ausência, ergue-se a figura da mãe como que um farol, cheia de força e resiliência, o porto seguro, o abraço que cura, a voz que acalma… a bússola que guia e traça o caminho, a força que impulsiona. Ela é quem preenche os espaços vazios com amor incondicional, quem transforma a saudade em memória, quem nos ensina a encontrar a beleza na ausência.
É importante lembrar que a ausência de um pai não significa falta de amor. O amor não se limita a laços sanguíneos, ele pode florescer em qualquer coração e de diferentes formas. Precisamos abrir as portas da alma para receber esse amor e construir a rede de apoio que nos vai fortalecer e inspirar. A vida sem um pai pode ser desafiante, mas também é uma oportunidade de autodescoberta e crescimento. É aprender a ser forte, independente e resiliente. É construir uma vida plena e feliz, mas sempre honrando a memória dele.
Para todos os que crescem sem um pai, é importante transformar a saudade em memória, a ausência em presença e sobretudo lembrar que:
Cada história é única, mas não estão sozinhos, porque muitos outros partilham a mesma experiência.
As emoções e sentimentos devem ser expressos, não reprimam a tristeza, a raiva, a saudade, a alegria – elas fazem parte do processo!
Ter referência masculinas que apoiem e sejam inspiradoras, como sejam tios, avós, amigos ou professores, e com quem possamos aprender.
A Família é definida por cada um de nós, porque mais do que qualquer outra coisa, ela é amor e cuidado, independentemente de laços sanguíneos.
Honrem sempre a memória do vosso pai, celebrando os momentos felizes e aprendendo com o caminho percorrido. Contem histórias, vejam fotografias e vídeos, visitem lugares que eram especiais para ele.
Celebrem cada conquista, cada passo, cada sorriso. Sejam fortes, capazes e merecedores de toda a felicidade que o mundo vos traz.
E, reconheçam a força da vossa mãe. Ela é a vossa rocha, o vosso porto seguro, o vosso exemplo de amor incondicional.
Ai Portugal… neste Dia do Pai, quando a ausência se intensifica, lembremos: a falta de um pai não define o nosso destino. Somos os autores da nossa história, capazes de construir um futuro e de nos realizarmos.
Este texto é um tributo a ti, mãe, guerreira, e a todas as mães que, como tu, transformaram a ausência em amor. Dedico-o também à minha filha, que, como eu, transformou a dor em força, pela mulher forte e inspiradora que se revela, e a todas as filhas que, como ela, florescem na adversidade.