O problema não é a Maria. É o sistema que lhe disse que tirar 19 era suficiente, mesmo que o exame a derrubasse para 14. E que esse 14 não interessa.

Inflação de notas é doping educativo

Quando mais de 40% dos alunos do privado apresentam 19 ou 20 como nota interna, mas afundam nos exames nacionais, não temos apenas uma distorção estatística. Temos uma fraude silenciosa.

Em 2022, os colégios privados em Portugal atribuíram mais de 40% de notas internas entre 19 e 20. Em 2024, o 20 manteve-se como a nota mais frequente. Mas nos exames nacionais, os mesmos alunos caem em média cinco valores.

Cinco valores. Em média

No ensino público, o desvio ronda os 3,5 valores (SIC/IGEC). Menos grave, mas ainda assim relevante. A conclusão é clara: inflacionar compensa. Para quem quer entrar em Medicina, compensa muito.

Mas quem perde? Os que jogam limpo

Imaginem dois alunos. Um do público com 16 honestos que consegue 16 no exame. Outro, do privado, com 19 inflacionados, mas que desce para 14 no exame. O segundo passa à frente do primeiro na candidatura. É o triunfo da aparência sobre o mérito.

O Estado sabe. E deixa andar

O problema não é o privado existir. O problema é o privado poder aldrabar sem consequências, enquanto o público (e os privados que cumprem) se esfola para manter a integridade.

Portugal tem, em teoria, um dos concursos mais meritocráticos da Europa. Mas falha na prática: a nota interna é atribuída sem controlo externo, ao sabor dos interesses de cada escola.

E quando a sobrevivência de um colégio depende de mostrar “bons resultados”, o incentivo à batota é tão forte como evidente.

Chamem-lhe o campeonato nacional da hipocrisia

As escolas que inflacionam vencem. Os alunos entram em cursos de topo. Os que respeitam regras ficam para trás. É o retrato do Portugal do faz-de-conta.

A solução é conhecida. Basta olhar para a Europa liberal

Na Finlândia, os exames finais contam quase tudo. Na Irlanda, as notas inflacionadas durante a pandemia obrigaram a intervenção do governo. E nos Países Baixos, há um desvio máximo permitido entre nota interna e exame: se for ultrapassado, há auditoria obrigatória. Resultado? Ninguém inflaciona, porque ninguém ganha com isso.

Aqui, inflaciona-se porque compensa.

E é aqui que os liberais deviam bater o pé. Porque não há liberdade real sem mobilidade social. E não há mobilidade quando o sistema diz: ou pagas por notas altas ou ficas para trás.

O liberalismo não é ser contra o público. É exigir que todos joguem com as mesmas regras.

Três medidas chegam para mudar o jogo:

Dar mais peso aos exames — pelo menos 50%. As universidades podem somar entrevistas, portefólios, testes próprios. Mas a nota interna deve valer pouco e contar só se estiver em linha com os exames.

Publicar dashboards anuais por escola com o diferencial entre nota interna e nota de exame. Se 90% dos alunos tiram 20 mas nos exames tiram 13, o país tem de saber.

Auditorias por amostragem às provas internas em escolas com desvios sistemáticos. Quem manipula, responde.

Não se trata de punir o privado. Trata-se de proteger a ideia de que a nota deve medir o conhecimento, não o poder de compra.

Mérito não se vende. Ganha-se

A inflação de notas é um espelho desconfortável do Estado português: ausente, permissivo, conivente. Mas também é uma oportunidade.

Se quisermos mesmo um sistema justo, começamos aqui. Com verdade nas classificações. E com a coragem de dizer que o 20 só vale 20 quando o exame confirmar.

O colapso da justiça no ensino começa quando desistimos de medir o que importa. É altura de trocar o teatro da excelência pelo rigor. E devolver a palavra “nota” ao seu verdadeiro sentido: resultado do mérito, não do cheque.