A notícia chegou numa data muito especial: 25 de Dezembro de 2020! Mas não foi preciso chegar ao fim do relato da ACI Prensa para concluir que, neste caso, a data não era apenas uma feliz coincidência. De facto, poucas histórias de Natal são tão reais como a de Cristina e Carlos, um casal madrileno com oito filhos e um coração maior do que o mundo.

Se todos os filhos são uma bênção de Deus, o último desta família mais parecia uma maldição: para além de graves problemas cardíacos e pulmonares, era invisual. Apesar de condenado a uma vida muito breve – viveu apenas cinco anos e meio – a mãe assegura que, ao contrário do que seria de esperar, cada dia da sua vida foi um presente.

Pedro, o benjamim, esteve internado vários meses depois de nascer, continuamente acompanhado pelos seus pais: enquanto a mãe estava com ele durante o dia, o pai fazia as noites. Finalmente, foi possível levá-lo para casa, para grande alegria dos seus irmãos. Tanto quanto as suas doenças o permitiam, Pedro fazia uma vida quase normal e participava até, com manifesta alegria, nas actividades desportivas dos irmãos. Apesar da traqueotomia, do oxigénio e da ventilação, praticava natação, ia à praia com o resto da família e foi à Eurodisney. Não obstante as suas múltiplas deficiências, Pedro foi muito feliz, continuamente acarinhado pelos seus pais e irmãos, que o adoravam.

Mas o lugar de Pedro não ficou vazio por muito tempo. Quando estava internado nos cuidados intensivos do hospital, os pais repararam que havia crianças hospitalizadas que não tinham com elas nenhum familiar. Ante esta situação, decidiram que, quando fossem estar com o filho, um ficaria com ele e o outro iria fazer companhia às outras crianças doentes que estivessem sós.

Foi assim que conheceram a Casa Belém, onde a Comunidade autónoma de Madrid acolhe crianças doentes que foram rejeitadas pelos pais. Depois de um curso sobre cuidados pediátricos, Carlos e Cristina ficaram habilitados para receberem crianças doentes que tivessem sido abandonadas pelas suas famílias.

Foi assim que Javier foi parar a sua casa: nasceu muito prematuro, apenas com 27 semanas de gestação, sofreu um derrame cerebral e tinha problemas cardíacos. Mas, desde o primeiro dia da sua estadia com a família de Cristina e Carlos, Javier começou a melhorar: é agora uma criança feliz, que acaba de fazer cinco anos.

Não satisfeitos com os seus oito filhos, Javier substituiu Pedro, o casal decidiu acolher mais uma criança, ainda mais doente e necessitada do que Javier. Claúdia tinha microcefalia e estava muito mal: tão doente que se temia, a qualquer momento, a sua morte. Cientes da situação, Carlos e Cristina acolheram-na, prestando-lhe todos os cuidados que a sua difícil situação requeria.

No dia seguinte ao da sua ida para casa, agravou-se o estado da Cláudia e foi preciso chamar o médico. Não obstante os tratamentos, não resistiu e morreu feliz, na manhã seguinte, ao terceiro dia da sua chegada à sua nova família.

Quem não sabe quanto vale o sorriso de uma criança em sofrimento, pode pensar que não valeu a pena dar à Cláudia esses três últimos dias de felicidade. Mas, como dizia o poeta, tudo vale a pena se a alma não é pequena. Não é sem emoção que Carlos conta um episódio significativo: na última noite da Cláudia, enquanto a acompanhava, ela agarrou-lhe um dedo e, quando fez tenção de a deixar por um momento, para ir buscar um remédio, sentiu que a sua mãozinha apertava com mais força, como se lhe estivesse a pedir que a não deixasse e que continuasse a seu lado, como de facto ficou até ao fim, dando-lhe o consolo da sua presença e carinho.

Apesar de tão traumáticas experiências, quase sempre finalizadas na dolorosa experiência da morte e do luto, Carlos e Cristina continuam disponíveis para receber mais crianças. Em algum momento questionaram a conveniência de submeter os seus filhos a uma tão dura provação porque, para além da dor pela perda de cada uma destas crianças, queridas e amadas como se fossem seus irmãos, acrescia a menor disponibilidade dos pais. Não deveriam poupá-los a esse sofrimento e dar-lhes mais atenção? Que direito tinham, afinal, de exigir aos seus filhos uma tão dura experiência?

A estas questões, certamente pertinentes, Carlos responde com simplicidade: “Não temos medo da morte, nem da dor com que ficamos, especialmente a que sofrem os nossos filhos, porque a dor deles e nossa é consequência do nosso amor por essas crianças que acolhemos, e cada uma delas nota isso. Podem estar muito doentes e parecer que não têm consciência de nada, mas disso sim, dão-se conta”.

O casal está convencido de que a família é, se possível, o melhor sítio para uma criança: “Os cuidados de que dispunham na Casa Belém eram excelentes, extraordinários até, mas ter pais e irmãos é muito melhor. É um calor diferente, de que essas crianças se apercebem e que as faz felizes”.

Não se pense, contudo, que Cristina e Carlos são uma espécie de super-heróis, ou dois fanáticos religiosos. Como eles próprios reconhecem, são absolutamente normais e, por isso, têm também os seus defeitos e, por vezes, as suas desavenças e discussões.

São católicos – só a verdadeira fé é capaz de uma tal caridade! – mas não obrigam os seus filhos a professarem a sua religião, como se prova pelo facto de respeitarem que um deles, Carlos, não seja crente. Aliás, foi este filho o protagonista de um facto extraordinário, num momento em que Pedro, o mais novo, teve uma paragem respiratória. Sendo socorrista, Carlos ofereceu-se para fazer respiração artificial ao irmão, enquanto o resto da família rezava o terço. Terminada a oração e continuando desesperada a situação, foi o filho incrédulo que disse: “Continuem a rezar porque, quando deixam de rezar, ele piora, mas quando rezam, ele fica melhor!”. Cristina acrescenta que, quando conta este episódio, Carlos, o não crente, corrobora: “Foi mesmo assim, porque eu vi! Eu vivi isso!”.

Esta história real é de Natal, não apenas por este exemplo de caridade heroica, mas também porque em Espanha foi legalizada a eutanásia, e em Portugal o parlamento prepara-se para fazer outro tanto. O nascimento de Jesus Cristo, há dois mil anos, também ficou manchado pela matança dos inocentes. Talvez nunca, como agora, a cultura da morte, nas suas mais terríveis expressões, se opôs à vida, sobretudo dos mais frágeis, como os não nascidos e os doentes terminais.

Como reconhece Carlos, “a cultura actual diz-nos que temos de triunfar e que o êxito é ter o melhor trabalho possível e o melhor salário. Não tenho dúvidas de que o dinheiro pode proporcionar comodidades, mas é o ser útil aos outros que nos faz sentir bem”. E acrescenta o melhor epílogo possível para esta história de verdadeiro Natal: “Quando vejo que os meus filhos são carinhosos e vivem a caridade com as outras pessoas e crianças; quando vejo que são capazes de se darem e de prescindirem dos seus pais, para que nos dediquemos a outros miúdos, sabendo que vamos sofrer quando nos deixarem; isso faz-me mais feliz do que qualquer promoção, ou dinheiro”.

Cristina e Carlos têm aquela insólita felicidade que o mundo não pode dar, mas que os santos, como Teresa de Calcutá, experimentaram. E, por estranho que pareça, não são nenhuns coitadinhos, nem desgraçados. Carlos é perentório a este respeito: “Estou convencido de que sou uma das pessoas mais felizes do mundo.” Eu também.

Feliz Ano Novo!