Cada vez mais se ouve falar em ideologia de género, mas muito pouca gente sabe o que é ou acredita que se trata de uma realidade. De facto, dado o caricato da ideologia, mais parece que se trata de uma conspiração.

Aliás, é mesmo por não conhecermos esta ideologia, que ela tem tanto poder. Quanto mais nos convencemos de que as suas premissas se tratam apenas de bom senso, mais nos estamos a deixar influenciar por uma técnica muito bem orquestrada de engenharia social.

Uma ideologia é uma sistematização de pontos em comum em termos de pensamento e acções concretas e é importante sublinhar que podemos estar a promover uma determinada ideologia sem querer. É mesmo neste ponto que as ideologias se tornam perigosas. O problema não está, pois, em termos ideias diferentes, mas em sentirmo-nos obrigados a ter determinadas ideias porque nos parece que é o que toda a gente faz, por ser mais sofisticado ou por qualquer outro motivo que não seja resultado de reflexão ponderada. O séc. XX é, de resto, rico em exemplos do mau resultado que uma postura acrítica em relação a novas ordens mundiais pode ter.

Provavelmente nunca ouviu falar de Lindsay Shepherd. Trata-se de uma estudante de mestrado no Canadá que também dá (dava?) aulas a alunos de licenciatura como professora assistente. Em Novembro passou do anonimato para as manchetes de jornal por ter denunciado publicamente a humilhação de que foi vítima depois de ter mostrado aos seus alunos uma parte de um debate de YouTube sobre a utilização de non-gender pronouns entre dois académicos com visões diferentes sobre o tema.

Aqui é preciso abrir um parêntesis para explicar ao leitor que, apesar de, felizmente, ninguém dar importância em Portugal ao plano para implementar a novilíngua da ideologia de género, no Canadá este é um assunto muito sério que já tomou a forma de lei (Bill C-16). Ou seja, o governo orwelliano de Trudeau, apoiante das liberdades individuais que é, já controla a linguagem que a população deve utilizar, uma vez que alguém que não se identifique com esta ideologia e se recuse a usar os pronomes criados ad hoc para os novos géneros, pode ser acusado de crimes de ódio ou ser obrigado a frequentar formação preconceito (anti-bias training).

Fechado o parêntesis, pelos vistos, as polícias dos costumes no Canadá, não só acabam com a liberdade de expressão (como nos podemos expressar livremente se o governo decide por nós as palavras que podemos utilizar?), como também querem acabar com a possibilidade, sequer, de debater sobre esta imposição tirânica. Foi o que aconteceu com Lindsay, que após ter debatido com alunos universitários os vários pontos de vista que existem na sociedade sobre este tema foi chamada a uma reunião que foi secretamente gravada por ela e está disponível online para que o leitor possa tirar as suas conclusões sobre os métodos grotescos de censura (de deixar a PIDE corada) utilizados contra esta estudante por ter desafiado os alunos a pensarem, em vez de os doutrinar.

Na gravação ouvimos um responsável académico explicar que o problema foi ela ter assumido uma postura neutra, em vez de catequizar os alunos com uma visão facciosa, favorável a uma ideologia que não tem qualquer ligação à realidade. A professora apresenta 5 minutos de debate de YouTube onde são apresentados prós e contras de uma medida do governo do Canadá e é intimidada com acusações de “transfobia”, “violência baseada em género” e “causar dor em alunos transexuais”.

Este caso é só mais um exemplo, depois de tantos outros, como o caso do Dr. Gentil Martins aqui em Portugal, das proporções que esta ideologia está a tomar até no seio da própria Universidade, o sítio onde esperávamos encontrar as condições propícias para debater livremente as diferentes concepções ideológicas. Estaríamos a destruir o próprio conceito de Universidade ao permitirmos que estas se transformem em ferramentas de propaganda política em vez de fóruns de liberdade de expressão. Estaríamos a destruir a Universidade se, em vez de darmos competências aos nossos alunos para analisar criticamente a realidade, os tornarmos reféns de agendas políticas.

Economista

P.S. Tão ou mais grave que a perda de independência das universidades é a doutrinação silenciosa que já está a acontecer no nosso país desde o pré-escolar. Provavelmente sem que os pais saibam disso, o governo quer que ensinem a meninos de 4 e 5 anos que o menino pode ser menina e que a menina pode ser menino.