Podia ter sido por causa das declarações de governantes como Macron e Starmer, que arvoram pose de estadistas sobre o que Israel deve ou não fazer para combater o Hamas em Gaza ao mesmo tempo que eles assistem ao deslaçamento e crispação dos seus países porque não conseguem sequer garantir o controlo duns barcos de borracha no canal da Mancha. Ou também por causa dos actores, realizadores, escritores e demais intelectuais, sempre tão pressurosos em aderir à causa da moda para, como é óbvio serem os primeiros a eximir-se das consequências dessas causas.
Estão agora por sinal a assinalar-se 50 anos sobre o momento em que esta troupe, depois de durante décadas ter apoiado o que designavam como movimentos de libertação em África, se desinteressar em absoluto por tal temática. De 1975 em diante, e uma vez instalados no poder em Angola, Moçambique e Guiné os tais libertadores que tanto apoiavam, não houve mais massacre, fome ou violações que os comovessem.
Tal deve-se não a uma qualquer insensibilidade mas sim ao facto de aquilo que os move não serem os povos que dizem querer ajudar ou os problemas que há que resolver, mas sim o combate à civilização ocidental de que, quais “neo-orleans”, são os primeiros beneficiários e, por isso, como quem muda de look para uma nova série, passaram da descolonização ao capitalismo e do capitalismo ao pacifismo e depois ao clima e assim sucessivamente até chegarem agora aos recorrentes palestinianos.
Mas apesar de ver nestes activistas os novos Philippe Egalité não foram eles que me fizeram tornar esse patético primo de Luís XVI na figura estrutural deste texto. E, por mais tentador que tal fosse, também não o foram os protagonistas desse estrambólico flop nautico-político auto-designado “flotilha humanitária” (como explicar às redacções deste país que não é por algo se apresentar como humanitário que o é de facto?) em que, num misto de megalomania e alienação, se foi enfiar a líder e deputada única do BE. (Pode estar a faltar-me algum caso mas não tenho memória de um erro de liderança política tão desastroso quanto esta decisão de Mariana Mortágua! É preciso estar completamente alienada da realidade, e já agora da história das tempestades no mar Mediterrâneo, para acreditar que o mundo em geral e Portugal em particular ficariam suspensos dos relatos que fossem chegando dessa tentativa de navegação!)
Não, na verdade não foi isso ou tão só isso que me fez estabelecer um paralelismo entre esta histeria virtuosa em torno de Gaza, em que cada um aqui do seu conforto ocidental compete na demonização de Israel, com aquele momento de Janeiro de 1793 em que o outrora duque de Orleans, auto-reconvertido em Filipe Igualdade assistia no conforto da sua carruagem descoberta à execução de Luís XVI, execução essa que ele mesmo tivera um voto decisivo.
Escassos meses depois de Luís XVI ter sido guilhotinado, Filipe Igualdade foi preso. A razão era simples e conforme à lógica revolucionária: na sequência de uma tentativa falhada de golpe, um filho de Filipe tinha passado para o exército austríaco. De imediato todos os Orleans que ainda restavam em França foram presos e de nada valia que se tivessem passado a chamar Igualdade. Em Novembro de 1793, Philippe Egalité foi julgado e condenado à morte. Reza a memória que no caminho até ao cadafalso foi apedrejado, insultado e humilhado pelo povo que não se sabe se descarregava o seu ódio perante o membro da velha aristocracia dos Orleans ou da nova daqueles que gritavam Igualdade para impor a sua diferença. Mas seja como for o seu destino deve acudir àqueles que se deixam tentar pela vã crença de que eles conseguirão conduzir e manipular as hordas de fanáticos que instilaram.
Vamos então ao caso que foi para mim a gota de água em relação a este desfile de virtude em torno de Gaza e de diabolização de Israel. Foi na verdade um texto sobre desporto. Mais propriamente sobre a Vuelta: “Porque há protestos pró-Palestina na Vuelta? Culpa é da Israel-Premier Tech e de um dos seus donos” – perguntava-se, para logo se responder de imediato, no Diário de Notícias. Sim a culpa dos ciclistas derrubados e das provas interrompidas não é dos manifestantes que se dizem a favor de Gaza e que procuraram causar o caos na Vuelta ou intimidam na sua própria casa o director desportivo da Israel Premier Tech, o espanhol Oscar Guerrero, mas sim da Israel-Premier Tech.
E porquê? Por isso mesmo: por ser uma equipa israelita e, sendo israelita, o que já de si é um pecado original, ter entre os seus patrocinadores um empresário que não só é judeu como “é amigo próximo do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu e defensor da intervenção em Gaza, como declarou recentemente.” O raciocínio subjacente a esta conclusão é insidioso: se o empresário patrocinador da equipa não fosse amigo de Netanyahu talvez não houvesse protestos. Ou talvez fosse melhor que ele mesmo não fosse judeu e também não fosse amigo de Netanyahu. Assim estaria bem ou seria que o DN ainda teria razões para escrever que a “culpa é da Israel-Premier Tech e de um dos seus donos”? Claro que teria porque ainda temos a questão dele apoiar a intervenção em Gaza e, por fim mas não por último, a equipa chamar-se Israel-Premier Tech… Ou seja, não se discute o que aconteceu na Vuelta mas sim compreende-se a agressão e é o agredido que tem de se adaptar, esconder, tornar invisível para não chamar a atenção dos activistas.
Esta culpa original já estava lá quando os ataques do 7 de Outubro estavam a acontecer: Israel não pode retaliar, não pode responder, não deve reagir… Desde que Israel moveu o primeiro carro e combate que estamos perante a crónica inevitável de um genocídio anunciado de palestinianos, em que num dia se anuncia a morte de milhares bebés – e consequentemente qualquer ser responsável se indigna – e no seguinte ninguém pergunta pelos bebés que iam morrer. Em que hospitais estão constantemente a ser bombardeados por Israel sem que ninguém pergunte como podem existir tantos hospitais naquela nesga de terra (se todos os hospitais que nos dizem ter sido bombardeados fossem de facto hospitais, Gaza seria a região do mundo com mais hospitais por metro quadrado!). Em que jornais, rádios e televisões reproduzem as informações dessa entidade fantasma que é o ministério da Saúde de Gaza sem mais explicações ou confirmações. Em que se proclama como solução mágica a existência de dois estados sem que se perca um minuto a reflectir que essa solução já existiu e falhou clamorosamente – a última vez foi precisamente a 7 de Outubro de 2023, dezoito anos depois de Israel ter saído da Faixa de Gaza, dezoito anos em que a UE e a ONU despejaram milhões de auxílio em Gaza de que o único beneficiário foi o Hamas. Em que líderes, como acontece e bem na Europa, invocam o artigo 4º da NATO porque uns drones russos sobrevoam os seus céus mas se forem mísseis provenientes do Iémen, de Gaza, ou do Líbano a atingir Israel este deve manter-se quieto e confiar no seu sistema de defesa antiaérea.
E aqui chegamos ao que é o cerne de toda esta questão: o problema não é o que Israel faz para se defender mas sim essa espécie de neo-orleanismo que leva quem nos governa a querer acreditar e fazer acreditar que consigo tudo seria diferente. Ou nas versões mais pérfidas como é o caso do primeiro-ministro de Espanha a procurar capitalizar em seu favor aqueles que combatem em Israel aquilo que de facto odeiam e que é o Ocidente mais a mais um Ocidente que não se rende.
A uns e outros recordo que a caminho do cadafalso, Filipe Igualdade foi apedrejado, insultado e humilhado pelo povo que não se sabe se assim descarregava o seu ódio perante o membro da velha aristocracia dos Orleans ou da nova daqueles que gritavam Igualdade para impor a sua diferença. Mas seja como for o seu destino deve acudir a todos que se deixam tentar pela vã crença de que eles conseguirão conduzir e manipular as hordas de fanáticos que instilaram.