Dia onze de março o chumbo da moção de confiança apresentada pelo executivo de Luís Montenegro precipitou o país, novamente, para eleições quando o Primeiro-Ministro governava há pouco menos de um ano, e com uma maioria relativa muito frágil no parlamento. A AD, coligação formada pelo PSD, CDS e PPM, apresentara-se na campanha de 2024 com uma promessa de mudança ao país. Os ventos de mudança não sopravam fortes, pelas barreiras impostas num parlamento composto por uma oposição maioritária; pelas crises estruturantes em áreas tão fundamentais como a saúde, educação ou habitação, que só serão resolvidas com reformas de fundo, que necessitam não só de tempo, como de consensos alargados (cada vez mais difíceis de atingir), que permitam a sua viabilidade. Para além disso, o governo enfrentou uma oposição cerrada feita pelos media, que foi muito para além do mero, mas fundamental, escrutínio público. Ainda assim, sentia-se uma pequena brisa de mudança, uma mudança de ares, que ocorria nem que fosse pela saída do PS do poder governativo, o próprio já muito fatigado da governação, após oito longos anos, sem novas ideias, sem caras novas e, mais fatidicamente, sem projetos para o país. Achava António Costa que manter as contas públicas em ordem seria o grande desígnio nacional, pois enganara-se, embora deva ser um ponto central de qualquer executivo, nunca será suficiente para mover um país onde ainda há tanto por fazer.

A liderança de Luís Montenegro trouxe ao país a leveza de caras novas, trouxe a vontade de deixar para trás a estagnação económica e social do país, a vontade de executar o exercício da governação de forma mais séria e contundente, mas, sobretudo, livrou o país de uma liderança cansada. O país já não tinha há muito tempo um governo que demonstrasse querer governar (por mais paradoxal que esta frase possa parecer). No entanto, a má gestão política que o Primeiro-Ministro fez da crise gerada pela série de notícias avançadas acerca da empresa da sua família, voltou a deixar mal o país, ao resultar em novas eleições. Se é certo que a credibilidade de Luís Montenegro foi abalada, por todo o alarido gerado, muito do qual sem qualquer fundamentação legal, o mesmo não se poderá dizer do governo e do seu exercício até então.

Com certeza não escandalizarei o leitor ao afirmar que a crise, responsabilidade única do Primeiro-Ministro, não mancha em nada aquilo que foi a atuação do governo, por muitas lacunas que esta tenha tido. Partimos então para umas eleições onde nos é pedido que escolhamos (realisticamente) entre a AD e o PS. Simplificando, um voto na AD é legitimar e aprovar o trabalho desenvolvido até agora pelo governo, um voto no PS é querer voltar à memoria recente de governação socialista. Luís Montenegro terá de se apresentar com humildade perante os portugueses e não como o virtuoso por quem se quer fazer passar, terá forçosamente de se reconciliar com os portugueses e renovar a sua imagem. Por outro lado, Pedro Nuno Santos, líder de um PS ainda em ressaca da saída de António Costa e de oito longos anos de governação, que apregoa ser o paladino da estabilidade, quando nem sequer dentro do seu partido consegue gerar essa mesma estabilidade, não dispõe nem de uma estratégia tão simples nem de um apoio tão coeso.

Com a AD a apresentar um projeto de continuidade, o PS num vazio de si mesmo, e todos os outros partidos a temer a fuga de eleitores para o voto útil, espera-nos uma campanha baseada em ataques pessoais, na qual os líderes partidários vão priorizar injuriar os adversários em detrimento de discutir as questões que realmente importam ao país, onde surgirão propostas populistas e, sobretudo, pouco sérias que não passarão de falsas promessas. Estas eleições já são castigo que chegue para o país, a ver vamos no que vai dar o seu resultado…