O apagão que vivemos, na segunda-feira, foi uma situação extremamente complexa e excecional que nos afetou a todos, de diferentes maneiras, como é característico deste género de fenómenos, desiguais no impacto que causam na vida das pessoas, sendo esse impacto na grande maioria das vezes fruto do mero acaso. Quem se encontrava em território continental sentiu na pele as consequências da globalização e da interdependência, geradas pela era da modernidade, uma vez que a falha que deu origem ao corte de energia, deu-se em Espanha e não em Portugal. Quanto ao tempo de restabelecimento da rede de energia, o caríssimo leitor queira desculpar-me mas não tentarei qualquer juízo que extravase a minha modesta compreensão (tal seria um tiro no escuro, literalmente).

Procuro apenas transmitir aquilo que vi e que captei de um dia que de tão atípico, pareceu tão familiar. Talvez por alguma nostalgia dos tempos do Covid, sem dúvida, mas sobretudo porque fomos pessoas a ser pessoas, a viver e conviver uns com os outros, sem nenhum intermediário eletrónico, algo que eu, nos meus vinte anos de vida não tinha memória. Não pretendo de todo ignorar, ou passar por cima, de todos os constrangimentos e situações aflitivas que existiram, e foram muitos, como os casos de doentes dependentes de máquinas e de terceiros, das pessoas presas em elevadores, das pessoas que vivem ou se encontravam sozinhas e não conseguiam, de maneira nenhuma, contactar com os seus familiares e amigos, e tantos outros cenários angustiantes. Pretendo sim, acentuar a luz que se viu num dia sem energia elétrica. Essa luz vinha das pessoas, vinha de puros desconhecidos que em igualdade de circunstância, demonstravam solidariedade uns pelos outros, vinha dos vizinhos que se apoiaram e conviveram (muitos pela primeira vez), vinham dos olhares que se voltaram a cruzar nas ruas, vinham de tantas e tantas pessoas que saíram à rua para aproveitar, de diferentes maneiras, o dia de verão, vinha dos pais a inventarem passatempos e brincadeiras para os filhos, e das crianças e jovens a brincar nas ruas, vinha de, como foi o meu caso, netos a apoiar e a fazer companhia aos avós e de tantas outras demonstrações de humanidade. Como aliás, o foi também a corrida aos supermercados e aos rádios, baterias e pilhas, tudo isso foi inteiramente humano. Se por um lado nos vimos preocupados por não saber nada de quem nos é mais importante, e nos sentimos de certa forma, até impotentes, por outro lado vimo-nos despreocupados por não termos distrações possíveis. Se conversávamos, simplesmente conversávamos, se líamos, simplesmente líamos, se passeávamos, simplesmente passeávamos. Não tínhamos maneira de nos refugiarmos nos nossos ecrãs, e no nosso mundo, fomos forçados a viver no mundo real e comum a todos e a cada um de nós. Numa altura em que se fala tanto e tanta gente sofre de “apagões” na sua vida pessoal, na forma de depressões, esgotamentos e outras perturbações psicológicas, parece-me que o dia que vivemos vem dar solução a grande parte destes males do mundo moderno.

A solução passa por, como fomos forçados a fazer na segunda-feira, reconhecermos que não temos, não podemos, nem precisamos de ter controlo de tudo o que se passa à nossa volta, reconhecer as nossas fragilidades e aprender a viver com elas, sem medo de nos expormos ao desconhecido e ao desconfortável e, por último, reconhecer a importância de parar, a importância do silêncio e de termos tempo, verdadeiramente, para estar e para desenvolver o nosso ser. Isto pode parecer meramente simplista e, claro que por muito fácil que seja de dizer, é sempre mais difícil fazer mas, em síntese, faz-nos falta viver ligados uns aos outros.