1 Sem surpresa, e com o olhar mais ou menos brilhante, todos os partidos ganharam estas autárquicas (não tem importância, o país percebeu muito bem o que ocorreu e os sinais que lhe foram transmitidos pela noite eleitoral.)
2 Luís Montenegro ganhou com a segurança de quem sabia que pisava um chão mais firme do que diziam as oposições e o ar do tempo quase sempre mediaticamente adverso ao PSD.
(É uma tradição que conta meio século: o PSD nunca é favorito, vive pré-eleitoralmente envolto em dúvidas, vaticínios errados, sondagens desfavoráveis, mesmo quando se sabe que há outras e veja-se a falsa duração do “empate” de Moedas contra Alexandra Leitão, bom exemplo do que digo.)
3 O PSD teve, sim, uma enorme vitória não só em algarismos – e é isto que é muito interessante – mas sobretudo pela natureza das conquistas obtidas. Em que a primeira é obviamente a vitória de votos e autarquias obtidos; a conquista dos maiores concelhos urbanos do país; a presidência da Associação de Municípios e Freguesias mas isto, já sabemos. O que talvez se recorde menos e não fosse má ideia abolir é aquele espartilho onde ciclicamente se fixa o PSD, o chamado “ruralismo”. Usado e lembrado como uma condenação eterna: PSD, partido rural. Agora, exit rurais e ruralismo. Abram um mapa de Portugal, coloquem lá o PSD e desapertem o espartilho.
4 Se Luís Montenegro “sabia” muito bem o terreno que ia pisando e o que dele eleitoralmente poderia resultar, cabe-nos a nós agora saber o que vai ele fazer desta vitória. Só isso conta. As vitórias não são de borla: responsabilizam ainda mais o mérito pessoal e político do chefe do PSD. Mas pergunto: como pensa o Primeiro Ministro pôr o governo a fazer render a vitória de domingo? Qualquer pessoa que lhe tenha dado o seu voto, mesmo que apenas autárquico e não legislativo, não está senão à espera de um executivo que governe acima da meia coisa, contentando-se em somar mais benesses e agrado a clientelas, do que reformas que agilizem, desenvolvam e enriqueçam Portugal. Face à dimensão dos votos obtidos, dos concelhos conquistados, dos sinais emitidos pelos resultados globais do PSD, ninguém acreditará que o Primeiro Ministro não aumente a velocidade e a substância do governo. A caminho de algumas reformas indispensáveis, mesmo sabendo – como todos nós – que os seus frutos talvez já não sejam colhidos por si. Para ver se nos habituamos a contar connosco – se experimentamos contar connosco! – e não a viver das esmolas do costume, ouvindo perguntas vexatórias como um humilhante “já posso ir ao Banco?” do então chefe do governo António Costa para a Presidente da Comissão; ou há dias o Presidente da República a avisar-nos que “este era o nosso último dinheiro e que o aproveitássemos bem” (cito de memória) referindo-se aos milhões da aplicação do Plano de Recuperação e Resiliência.
5 Pergunto: que ideia, projecto, desígnio, vontade há para o país? Acenam-nos felizes com o generoso mealheiro do “turismo”, mas que pela sua especificidade pode um dia abalar e partir para outra.
E pior: abalaria e quase nada deixaria para trás. Claro que o turismo é uma indústria, sim, cria riqueza, sim, mas assenta em mão de obra pouco qualificada. Tem alcance modesto.
O que quero significar é que o país pede mais ambição e sopro que o que tem havido. O melhor mealheiro que conheço é o da criação de riqueza de onde depois tudo decorre. Ouve-se pouco falar dela, de empresas, empresários e exportações que também mereciam mais amparo e atenção: nada disto porem parece ser a grande prioridade.
Tentou-se já, é certo, “mexer” na Lei do Trabalho com o pouco sucesso que se conhece e o parlamento consentiu. Atrairia muito bom investimento estrangeiro e criaria riqueza. Tal como a Justiça cujos prazos, conclusões, processos, etc., afugentam qualquer investidor normalmente constituído. E também é certo que o ambiente contra os governos de direita e centro direita sempre foi mau -uma menorização com 50 anos. A sulfúrica polarização politica e um debate público adulterado dificultam acordos.
Mas… ou se tenta, contra ventos e marés, ir ao fundo do que há que fazer, ou o país vai avançando, levemente, devagarinho, sem pressa nem destino. Como um caracol, encostado ao oceano.
A menos que se trate de um estilo político muito próprio e da opção – ou melhor, da escolha – de ir governando sem maçar muito. E sem desinstalar demasiado os portugueses mais instalados. Será?
6 Pequena sinfonia com algumas notas:
- Não foi só a muito notada demora no anúncio da vitória de Carlos Moedas. Foi a própria vitória: Moedas esteve três semanas sob suspeita e a ser mediaticamente julgado e por vezes tratado quase como um cão, só faltou acusarem-no de ter cortado o cabo do elevador da Gloria naquele dia de tragédia e luto. Não se trata de saber se tem ou não “jeito” para a política, ou se deveria ter gerido (?) politicamente melhor o acidente. Trata-se de decência nos comportamentos.
- Dias antes das eleições evoquei na SIC o que me parecia ser um político algo diferente do “chinfrim” da campanha, referindo-me a Pedro Duarte para sublinhar algumas virtudes na política. A resiliência, a compostura, a força política silenciosa. Foi com elas que percebi que iria ganhar o Porto.
- Quem diria há meia dúzia de anos que Ricardo Leão viria a assumir um “papel” desta envergadura? Não é por ter ganho Loures de novo – não podia senão ganhar. É porque passou a referência exemplar no PS. Em todo o PS. Será muito interessante ver como se comportará o partido daqui em diante face à tremenda questão da emigração. Mas uma coisa o PS pode e deve agradecer ao autarca: a porta que sem alarde mas com muito tino ele já (lhes) abriu nesta questão.
- Do sorriso arrogante de João Torres, ao seu tom despeitado, e à atitude paternalista, estava ali, estampado no rosto e na atitude deste socialista, o ressentimento desabrido contra Alexandre Poço (vice presidente do PSD e da sua bancada parlamentar) devido à derrota autárquica da véspera. Foi como se João Torres fosse o dono absoluto da democracia, ditasse regras, arbitrasse democratas; e Alexandre Poço um pobre diabo neófito, sem direito à palavra e sem direito de cidade. Impossível não tomar nota do que vi na SIC Notícias uma noite destas.
PS: De facto já chegaram as presidenciais: Marques Mendes fez uma escolha que se poderá vir a traduzir numa óptima aposta política: o seu mandatário, ontem conhecido, chama-se Rui Moreira. Três pontos a favor: não é “daqui”, sabe e gosta de política e cria uma empatia natural com o mundo. E também já não era sem tempo: aquilo que sabíamos há meses é agora oficial: o (muito paciente) António José Seguro já tem nas mãos o selo do PS. Tardou mas arrecadou.