O trecho da Reitora da Universidade Católica reza assim: «Ao longo da história, o “cumprir” das nações tem sido orientado por uma ambição de poder que pressupõe não raro o “descumprir” de outras. Sob forma mais ou menos radical, recorde-se a busca do espaço vital da Alemanha nazi ou a União forçada das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Mais perto de nós, a invasão recente da Ucrânia pela Rússia de Putin ou a persistência da operação israelita na Faixa de Gaza são exemplos de uma ideia de país como unidade espacial, demográfica, cultural e política una, fixa, dominante e imutável.»
O gasto das palavras levou a um beco sem saída. Sobre Israel, deliberadamente, a confusão das palavras não tinha outro fito senão fazer com que de vítima o Estado dos Judeus passasse a algoz. Não se poupou. Colonialismo, racismo, apartheid, limpeza étnica, genocídio, holocausto, nazi-sionismo; todos os lances foram cobertos. Sempre mais e mais. Até que as palavras se esgotaram: entraram num espaço fechado, bateram contra um muro, estacaram. Como prosseguir?
A cerimónia é conhecida, só variam os oficiantes. Começam sempre com o ás de trunfo, e a reitora da Universidade Católica não é excepção: a Alemanha nazi – cujo problema, diz-nos, era o espaço vital. Talvez queira, mas a duplicidade não se esconde. A ordem da enumeração é a ordem do mal, não a cronológica; caso contrário teria de vir à cabeça o regime edificado por Lenine. Não se discute quem leva a palma do horror: o nacional-socialismo. Só que o mal que lhe confere essa posição inicial não é o espaço vital – não há quem não o saiba – é o genocídio do povo judeu, de seis milhões de mortos; além de todos os outros. A teoria do espaço vital – uma vez mais: consabidamente – nem sequer é por si especifica do nacional-socialismo. Em seguida, vem a política imperialista da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a URSS – «quatro letras, quatro mentiras», dizia o filósofo greco-francês Cornelius Castoriadis – , que, estranhamente, também não matou ninguém.
Assim sendo, talvez seja útil notar à propos que os regimes gémeos do mal se baseiam em grandezas extra-nacionais: a raça e a classe. Depois indica-se a invasão da Ucrânia pela Rússia, dos exemplos aduzidos o único que é intrinsecamente nacional. Por último, «a persistência da operação israelita na Faixa de Gaza». O contrabando intelectual e moral salta à vista. Enquanto os três exemplos anteriores têm como base um expansionismo oriundo do interior, a «operação israelita na Faixa de Gaza» constitui uma resposta a um ataque militar a partir do exterior. Previdente, a reitora da Universidade Católica antepôs a essa operação a sua «persistência», deslocando – assim o crê e pretende – a «ideia de país como unidade espacial, demográfica, cultural e política una, fixa, dominante e imutável», sem qualquer fundamento neste caso, para o aspecto temporal da operação israelita, que, tão pudicamente, não consegue qualificar como militar.
Dá com uma mão o que tira com a outra. Por um lado, evita toda e qualquer avaliação do conflito como tal, isto é, como resposta a um ataque militar, não tendo de se pronunciar quanto à sua legitimidade, e, por outro, impõe sub-repticiamente a «persistência» como o factor de ilegitimidade. Ou seja, a reitora da Universidade Católica, pássaro bisnau, não se refere à questão militar para não se ver obrigada a aceitar a legitimidade da resposta israelita; sublinha a «persistência» pelo motivo inverso: para denunciar a ilegitimidade da resposta militar de Israel. É o nec plus ultra da dissimulação. A hemiplegia que em tantos casos afecta os centros de inibição verbal, produzindo, muito intencionalmente, a irrefreável gradação linguística na ordem do mal, troca aqui de posição. O disfemismo, exaurido, passa a eufemismo – para dizer o mesmo. Num diálogo de Platão, apresenta-se a genealogia do amor: é filho de poros, o expediente, e penia, a pobreza. A pobreza, a falta é tal, que o amor arranja sempre uma maneira, um expediente para alcançar o objecto amado. E o ódio, o objecto odiado.