Cresci em Elvas, nessa “ruga nobre na fronteira” como diria António Sardinha, em ambiente verdadeiramente rural e tão diferente do conceito de habitat exótico que muitos citadinos pré-fabricavam quando se aventuravam nessas excursões pontuais à província. Esses expedicionários, crentes de que encarnavam o espírito aventureiro de um Pêro da Covilhã em demanda pelo seu Preste João, viam com o mesmo olhar de espanto os costumes autóctones do povo alentejano como se se tratasse dos prodígios dos reinos de Amara e Xoa. Pelo seu carácter pitoresco, bem poderiam figurar na “Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias”, não tivesse o descobridor omitido esse relato ao padre Francisco Álvares.

Depois de tais odisseias, os heróis da “Conquista, Navegação e Commercio da Ethiopia” regressavam à cidade-natal maravilhados com tais mundos e munidos de material suficiente para encherem várias teses de doutoramento em sociologia e antropologia. Esses intelectuais foram estudando, pensando e escrevendo muito até finalmente se organizarem e institucionalizaram em diversos movimentos políticos, um dos quais – e o caso de maior sucesso – o PAN.

Existem vários paradoxos na ideologia do PAN, sendo o primeiro deles o facto de se tratar de um partido essencialmente urbano a defender causas que, muitas das vezes, não lhe estão próximas. É muito louvável que os interesses do mundo rural sejam defendidos por todas as pessoas, sejam de um meio ou de outro, mas infelizmente assiste-se ao fenómeno de os partidários do PAN se considerarem os únicos legitimados para verem os problemas dos animais – quando nem sempre vivem as realidades que pretendem apoiar –, amordaçando todos os outros que tentem contrariar as suas ideias. Daí a expressão de Marcial no título, porque essa ilusão de ruralidade, esse falso conceito de campo, idílico, imaginado apenas nos padrões urbanos e nas efabulações do Preste João e transposto para a cidade sob aparência de verdadeira natureza, é precisamente aquilo que o PAN faz. Rus in urbe: a ilusão do campo na cidade.

E, por isso, ao falar de temas que lhe são tão caros, o PAN faz lembrar aquele episódio em que o ministro Colbert se queixava que a taxa de mortalidade dos escravos das galés era demasiado elevada e o Intendente das Galés lhe afirmava a pés juntos que estes recebiam uma boa alimentação e que o elevado número de mortes se devia a causas como o desgosto e o aborrecimento, estando estes dois cortesãos ricos e despreocupados a discutirem o assunto num qualquer salão dourado da Versalhes de Luís XIV. Assim parece ser, às vezes, o discurso do PAN, que verbaliza, por exemplo, contra a tauromaquia dentro de uma redoma, mas vendo os toiros lá muito ao longe.

Na sua visão enviesada do mundo, o PAN entende que a ordem social natural das coisas está profundamente errada. A civilização não pode continuar a ser antropocêntrica porque o Homem não está no centro do mundo, antes é um elo de valor idêntico ao dos “animais não-humanos” (sic) que com ele coabitam na Terra. Esta ideia de humanização dos animais (ou será animalização dos homens?) fá-los considerar que todos estão no mesmo patamar de igualdade, como aliás consta da Declaração de Princípios do PAN:

Os interesses humanos e animais devem ser igualmente tidos em consideração e procurar-se a solução eticamente mais justa quando pareçam estar em conflito, tendo em conta as suas especificidades. No que respeita às históricas tomadas de consciência moral e ética da humanidade, a recusa do esclavagismo, do racismo e do sexismo deve completar-se com a da discriminação baseada na espécie, pois os preconceitos esclavagistas, racistas, sexistas e especistas têm uma mesma natureza injustificável: presumir-se superior e com direito a maltratar, oprimir e explorar outros seres só por se ter mais poder, um diferente tipo de inteligência ou pertencer a uma raça, sexo ou espécie diferentes.” (negrito meu)

Ou seja, às justíssimas lutas contra a discriminação sexual e racial – e conseguindo ainda o PAN trazer para o rol argumentativo (pasme-se!) o flagelo do esclavagismo – deve também juntar-se a da discriminação animal, como se se tratasse do natural passo seguinte nos direitos fundamentais da Humanidade. Como se sentiriam as vítimas humanas da verdadeira discriminação se a sua causa fosse equiparada em valor à de uma galinha?

É deveras assustador, que mais à frente na cartilha animalista se reconheça que os animais têm direito à vida, quando o mesmo princípio legal não é defendido de igual forma tratando-se de seres humanos ainda não-nascidos. Mas se à luta do escravo das galés do tempo de Colbert querem equiparar a luta de um frango de aviário, não deveriam também acreditar que um nascituro tem o mesmo direito à vida que o PAN atribui aos animais?

Só completamente alheio ao mundo rural é que alguém pode conjecturar estas ideias, pois observa de fora uma realidade que lhe é incompreensível. Naturalmente,que a relação de um citadino com o seu cão, com quem convive diariamente num apartamento, é completamente diferente da relação de um trabalhador rural com o seu companheiro de guarda. Pois no primeiro caso tenta-se, sem sucesso, recriar a relação natural que existe no segundo: a de um animal que não é de mera companhia – no sentido em que não serve apenas para estar ou coabitar com o dono – mas que assume uma função concreta (pastor, guardador, caçador…) que lhe dá sentido à existência animal. Aliás, o próprio conceito de “animal de companhia” tira dignidade a um animal que foi criado para expressar instintos que para sempre lhe estão vedados fora do seu meio natural.

É vendo a natureza sem interferências externas, que se percebe o quão desfasada está esta lógica da realidade. De que serve um discurso sobre dignidade animal e malefícios da caça a um predador natural que à primeira oportunidade matará a sua presa? Ou julga o PAN que um canídeo não se conterá em perseguir e caçar um animal seu inferior por respeito ao princípio do direito à vida animal?

Posto isto, chegamos à ideia peregrina de o PAN querer restringir o acesso de menores a espectáculos tauromáquicos. É vergonhoso que o Governo socialista aceite como moeda de troca para a aprovação do Orçamento do Estado este brutal ataque às liberdades de ensino e de fruição cultural. Aos pais cabe-lhes o papel inalienável de educarem os filhos segundo as suas convicções. E essa autonomia de ensino não pode ser limitada pelo Estado, ainda que bem tente doutrinar as crianças desde muito cedo com programas escolares elaborados em função de agendas ideológicas. A sexualização precoce das crianças, muitas desde os três anos, não parece inquietar minimamente nem o PAN, nem o Governo. E a possibilidade de um jovem de dezasseis anos poder mudar de sexo com uma simplicidade admirável tão-pouco os preocupa. Mas um menor da mesma idade assistir a uma corrida de toiros atrofia de tal maneira o seu crescimento saudável que todas e quaisquer medidas que visem limitar-lhe o acesso a esses espectáculos, ainda que se sobrepondo ao papel dos pais – que parece de somenos importância –, são vistas como fundamentais pelos primeiros e passíveis de concessão pelos segundos, se a aprovação orçamental estiver sobre a mesa.

Esta é a rampa deslizante que permitirá a pouco e pouco limitar, desautorizar e proibir os pais em muitos outros âmbitos da educação dos filhos nos quais eles deveriam ser os únicos com legitimidade activa. Mas para o PAN, tudo o que contradiga os princípios sociais que criaram em laboratório e que devem ser aplicados na sociedade a todo o custo não lhe interessa minimamente. Ainda que esses princípios sejam tão verdade quanto a terra fantástica do Presbyter Johannes, onde os sonhos saíam certos, brotava a Fonte da Mocidade, corriam rios de pedras preciosas e de leite e de mel, abundavam o ouro e as especiarias e havia uma pedra mágica que dava vista aos cegos e tornava os homens invisíveis.