Que saudades tenho de entrar numa praça. Numa daquelas tardes de “cartelazo”, de sol abrasador que obriga a chapéu de palha. De intermináveis cervejas que só momentaneamente extinguem um calor que logo teima em voltar com mais força e causar maior sede. De convívio com amigos e conhecidos e desconhecidos, dos abraços, dos beijinhos, apertos de mão, palmadas nas costas, sorrisos e acenos. Do entrar em fila indiana conversando distraidamente com os vizinhos de trás e da frente, enquanto nos ultrapassam a miudagem e os mais irrequietos em não perder nem um segundo que seja das cortesias, e alcançar depois de muitos encontrões a praça bem composta e ver um mar de azul, rosa e branco, que são as cores predominantes nas camisas de todos os aficionados.

A banda já ataca a música festiva e nas bancadas há uma agitação próxima do baile colectivo. Entre os que estão sentados, os que estão de pé, os que circulam à procura dos lugares, os que se levantam para deixar passar outros, os que se sentam em lugares alheios e têm depois de retornar aos assentos originários (que também já foram usurpados por terceiros), os que levantam os braços para passarem com cigarros, charutos, cervejas, gin tonic, água fresca, empadas, batatas, pipocas e outros petiscos, ou simplesmente para dizerem adeus a alguém do outro lado da praça, e ainda os que deambulam com baldes a vender queijadas e refrescos, parece haver uma coreografia bem ensaiada ao som dos “pasodobles”. Tudo é festa, balbúrdia, gargalhadas e aplausos. Todos cumprimentam o toureiro favorito, já conhecido de longa data, e este da praça retribui com um sorriso genérico para todos e para ninguém, pois essa sensação de familiaridade não é recíproca para o artista. Nas trincheiras só há dois estados: letargia ou êxtase. Do primeiro gozam os que não estão em acção (outros toureiros e forcados, apoderados, funcionários, fotógrafos, amigos e simpatizantes) e do segundo sofrem todos os que estão directa ou indirectamente em praça. Não haverá nome mais apropriado para esse refúgio do que trincheira, pois é mesmo para a luta que os valerosos artistas vão quando dela saem para a praça. Os forcados, mais do que ninguém, enchem-se de temor quando chega a hora, quando o cabo lhes fixa o olhar e lhes diz: “vais tu àquele!”. Aí já não pensam nem sentem, só vivem.

Ouvem o toque para a pega e benzem-se três vezes. Rezam a Deus e a Nosso Senhor e à Virgem Maria. E a todos os santos e santas do Céu, e à sua mãezinha e à namorada e à madrinha do grupo. E os seus lábios cantam em silêncio os versos, emprestados aos toureiros, da mais castiça das poetisas – Maria Manuel Cid: “Toureiro que entras na arena/tua figura pequena/vai ao encontro da morte/e teu coração padece/rezando a Deus uma prece/que dê sorte à tua sorte.”. E saltam para a praça. Silêncio sepulcral, até os pássaros se calam, o tempo pára. Só dois não congelam: o toiro e o forcado de cara. Nisto tudo, e além de ter de pegar o toiro, não pode mostrar medo e tem de se portar como artista. Deve ter um ar fino e citar com graça. Não fazer gestos bruscos. O que se perdoa a um toureiro não se perdoa a um forcado. Aquele tem todas as distracções do mundo, a música, as palmas em cada ferro, os urros e os vivas, as conversas entre espectadores. Este só se tem a si e ao toiro e ao silêncio e aos versos da poetisa: “Dessa prece sentida/vai depender tua vida/da divina protecção./Ao começar a faena/a praça fica pequena/e grande o teu coração.”. De mãos nas ancas avança solene com passos bem medidos e entrega-se ao toiro. E tudo dura menos de um instante. Sem saber como, já agarrou o toiro, o grupo já caiu em cima dele e a multidão já berra e aplaude sincopada com a banda. O tempo volta a rodar e o chilrear das aves recomeça, mas é inaudível com tanta barafunda. Parece que o mundo é medido por cada pega e o tempo fica suspenso quando o forcado enfrenta o toiro. O fim da corrida não é menos confuso que o princípio, com todos a acotovelarem-se para chegarem primeiro à saída. A despedida de praça dos artistas taurinos já só é vista por um punhado de arrivistas e por um ou outro com problemas de locomoção.

Isto não é um espectáculo, é uma maneira de encarar a vida. É a materialização do esforço de muita gente durante muitos anos, que trabalham e praticam e criam no campo para depois poderem apresentar em praça os seus talentos e trunfos. É a nossa ligação à ruralidade, ao Portugal verdadeiro, a uma ordenação natural das coisas muito anterior à própria identidade nacional.

Querer acabar com as corridas de toiros é querer acabar com os portugueses e com a nossa cultura. Porque cultura não é só o que uma minoria que vê os animais iguais ou acima de pessoas e algumas pessoas abaixo de animais define como tal. O que sucederia ao toiro bravo, animal tão nobre e tão afeito às lides humanas? Ficaria condenado à extinção ou à categoria de espécie em vias de, pois para nada serviria o aperfeiçoamento genético que sofreu ao longo de tantos anos como animal de combate se ficasse enjaulado num jardim zoológico à espera de que a pequenada lhe atirasse amendoins aos cornos. O mesmo se poderia dizer das vacas, ou das ovelhas ou dos cavalos. Seriam todos convertidos em atracções de museu?

Ao líder partidário que recentemente sonhou com artistas dentro do Campo Pequeno e tauromáquicos lá fora algemados, não se privando de exclamar de seguida “Que maravilha!” – e que também já nos tinha deixado outras pérolas como a de considerar a tauromaquia como a manifestação maior da cobardia humana – lembro-lhe que a democracia que o elegeu e que lhe permite dizer estas barbaridades no espaço público é a mesma que lhe exige ter respeito pelos três milhões de portugueses que são aficionados e pelos milhares que trabalham no sector da tauromaquia e garantem que as corridas de toiros em Portugal se fazem sob a mais escrupulosa legalidade. Lembro-lhe que o ordenamento jurídico que o permite sentar-se na Assembleia da República e lhe reconhece todos os direitos, liberdades e garantias de um cidadão português e de um representante da nação é o mesmo que garante o livre acesso à cultura e define os espectáculos tauromáquicos como tal (prova disso é a recente apreciação inconstitucional da decisão da Câmara Municipal da Póvoa de Varzim de proibir as touradas no município). Lembro-lhe que a liberdade que o deixa ter opiniões discordantes da maioria e fanatismos como o de apresentar projectos de lei que penalizam os maus tratos animais com pena superior à do homicídio voluntário é a mesma para os que pensam de maneira diferente da sua minoria. Não sou só eu que o digo, é também Isabel Moreira (sim, Isabel Moreira), sobre as suas recentes declarações: “quem tem apreço pela democracia ouve ou lê isto e fica horrorizado. O PAN é um partido populista e perigoso”. Não é nada que nos surpreenda agora, pois as declarações ofensivas de tantos portugueses e do mundo rural sucedem-se com tal rapidez que se torna impossível a sua enumeração exaustiva. A liberdade não é propriedade exclusiva das minorias, mas os seus discursos fanáticos, de ódio, totalitários, antidemocráticos, ditatoriais e com uma visão turva da realidade e do que é o mundo rural parecem torná-lo não dono, mas autor da liberdade. Com poder de escolha sobre o que se pode ou não gostar, sobre o que considerar actividade profissional ou não, sobre o que é ou não cultura, sobre o que as pessoas podem ou não ver na televisão. As lições de liberdade não devem ser dadas a ninguém, mas de si é certo não poderem ser recebidas. Pois um partido que promove uma sondagem sobre a tauromaquia (ocorrida na semana passada), vê os resultados apontarem numa derrota para si, faz ainda uma desesperada tentativa de publicar por cima da sua sondagem a resposta que deseja ver votada, com total desprezo pelo sufrágio democrático e imparcial (fica a dica para as próximas eleições colocarem por cima dos boletins de voto em letras bem visíveis: “VOTA PAN”), e ainda assim acaba por ser vencido pela tauromaquia em terreno inóspito, não se fazendo esperar os vencidos por arranjarem um sem número de desculpas para o mau resultado, é um partido sem qualquer senso democrático.

Algo do que foi dito acima também poderia servir à Ministra da Cultura, que tem um ódio de tal maneira visceral pelas corridas de toiros que isso a impede de praticamente proferir a palavra tauromaquia. É um ódio que já roça a loucura ou mesmo a superstição, pois que outra razão explicaria o ter recusado um barrete de forcado na recente visita a Évora se não o medo de ficar conspurcada por esse verdete (imortalizado por Ary dos Santos no “Fado da Lezíria”), ou talvez o risco de excomunhão da sua tão querida “civilização” ou, pior de tudo, o receio de a “afición” se transmitir por osmose? Atitude mais sensata teve em Elvas, minha cidade, a “ruga nobre na fronteira” como diria António Sardinha, ao ter aceitado o livro “Campo Pequeno – 125 no Coração de Lisboa” com o apelo pertinente do Grupo de Forcados Amadores Académicos de Elvas: “coragem e imparcialidade […] para que defenda a identidade e as tradições de todo um Povo”.

É também isto que peço à Senhora Ministra imparcialidade no regresso de todos os espectáculos. Porque à sua frente tem todo este Povo que vê incrédulo a abertura do Campo Pequeno com grande lotação para um espectáculo de comédia, mas continua sem tauromaquia. E com as portas dos curros fechadas. E sem banda de música. Ou vendedores de queijadas. Enfim, sem a realização do mais magistral espectáculo artístico nacional: a corrida de toiros à portuguesa. Não é obrigada a vir, mas o mundo taurino acolhê-la-ia genuinamente de braços abertos se estivesse presente no regresso dos espectáculos tauromáquicos. Aí sim, seria Ministra de todos os portugueses. Não viria por uma questão de gosto – já se sabe –, mas deveria vir por uma questão de civilização.

O autor não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico.