Em Maio de 2019 o Papa Francisco deu uma longa entrevista à jornalista mexicana Valentina Alazraki. O cineasta Evgeny Afineevsky pegou depois em excertos dessa entrevista para o seu documentário “Francesco”, estreado há dias e que chamou a atenção mundial para as declarações do Santo Padre sobre as uniões homossexuais. A agência espanhola do grupo de comunicação ACI deu-se ao trabalho de comparar as declarações contidas na primeira e na segunda gravações, tendo concluído que para o documentário “Francesco” estas foram massivamente editadas. No documentário o Papa é filmado a dizer (e aqui transcrevo literalmente em castelhano, para não existirem dúvidas):

Las personas homosexuales tienen derecho a estar en la familia. Son hijos de Dios, tienen derecho a una familia. No se puede echar de la familia a nadie, ni hacer la vida imposible por eso. Lo que tenemos que hacer es una ley de convivencia civil. Tienen derecho a estar cubiertos legalmente. Yo defendí eso

Enquanto que na entrevista original as declarações integrais são as seguintes (tendo Afineevsky apenas utilizado as frases a negrito):

Me hicieron una pregunta en un vuelo, después me dio rabia, me dio rabia por cómo la transmitió un medio, sobre la integración familiar de las personas con orientación homosexual. Yo dije: las personas homosexuales tienen derecho a estar en la familia, las personas que tienen una orientación homosexual tienen derecho a estar en la familia y los padres tienen derecho a reconocer ese hijo como homosexual, a esa hija como homosexual, no se puede echar de la familia a nadie ni hacerle la vida imposible por eso.

Otra cosa es, dije, cuando se ven algunos signos en los chicos que están creciendo y ahí mandarlos -tenía que haber dicho profesional – me salió psiquiatra, quise decir un profesional porque a veces hay signos en la adolescencia o preadolescencia que no se saben si son de una tendencia homosexual o es que la glándula timo no se atrofio a tiempo, vaya a saber, mil cosas. Entonces, un profesional. Título de ese diario: “el Papa manda a los homosexuales al psiquiatra”. No es verdad. 

Me hicieron esa misma pregunta otra vez y yo la repetí: son hijos de Dios, tienen derecho a una familia y tal, otra cosa es, y expliqué me equivoqué en aquella palabra pero quise decir esto cuando notan algo raro, oh es raro. No, no es raro. Algo que es fuera de lo común. O sea, no tomar una palabrita para anular el contexto. Ahí lo que lo que dije es tiene derecho a una familia y eso no quiere decir aprobar los actos homosexuales”.

(A resposta integral do Papa Francisco pode ser vista aqui)

A parte final da declaração, com as palavras “Lo que tenemos que hacer es una ley de convivencia civil. Tienen derecho a estar cubiertos legalmente. Yo defendí eso” nunca havia sido divulgada na entrevista integral de Valentina Alazraki e constitui uma novidade no documentário “Francesco”.

É bom lembrar que o amor de Deus é sempre um amor incondicional, misericordioso e pessoal pelos filhos e não varia consoante as características de cada um. A Igreja Católica desde cedo ensinou isto mesmo, ao ponto de considerar que homens livres e escravos, colonos e colonizados, senhores e servos tinham todos a mesma filiação divina e, consequentemente, os mesmos direitos a serem baptizados e a considerarem-se irmãos (ideia esta que para nós parece da mais elementar evidência, mas que na ordem social dos primeiros séculos era uma consideração escandalosa).

A mensagem do Santo Padre foi de acolhimento dos homossexuais com respeito, compaixão e delicadeza no seio das suas famílias, pois ninguém pode ser expulso da própria família. Em circunstância alguma é referido que os homossexuais tenham direito a constituir uma família, algo que desde logo lhes está vedado como ensina a doutrina da Igreja e abaixo se explica.

O significado do que é uma “lei de convivência civil” não é claro, sendo que esta parte final das declarações nem integrava a entrevista original, pelo que é um mistério saber como surgem agora neste documentário. Tendo em conta que, como se viu, Afineevsky cortou e colou a seu bel-prazer a maioria das intervenções do Santo Padre, é bem provável que aqui também tenham ocorrido as mesmas técnicas de amputação e distorção.

Em todo o caso, sabemos – e disso podemos estar certos – que a doutrina da Igreja não foi, nem poderá ser alterada neste âmbito. A Igreja ensina que o matrimónio não é uma união qualquer entre pessoas quaisquer, é um instituição em que se realiza a comunhão de homem e mulher através do exercício da faculdade sexual e aos quais é conferida uma participação especial na obra criadora de Deus. Assim, pertencem à própria natureza da instituição do matrimónio a complementaridade dos sexos (homem e mulher) e a fecundidade. Se numa união homossexual se verifica precisamente o contrário – falta de bipolaridade sexual e obstrução do acto sexual ao dom da vida – não se pode em circunstância alguma equipará-la com o plano de Deus sobre o matrimónio e a família.

Naturalmente, não se pode concluir que todos os homossexuais sejam pessoalmente responsáveis por essa condição e como tal a Igreja Católica rejeita liminarmente qualquer atitude de injusta discriminação para com eles. É muito frequente pensar-se que a Igreja condena os homossexuais por sentirem atracção dominante por pessoas do mesmo sexo, o que não é verdade. Mas acolher as pessoas homossexuais não significa aceitar-lhes os actos de homossexualidade, considerados pecados graves. O convite que a Igreja lhes lança é o mesmo que faz a todas as pessoas não casadas: a castidade. Como ensina o Catecismo da Igreja Católica publicado durante o pontificado de São João Paulo II: “As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio de uma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã.” (2359).

A Igreja Católica não pode mudar a sua posição sobre a homossexualidade porque sabe que ela está vinculada à autoridade da Sagrada Escritura e da Tradição. No entanto, não são poucas as pressões que sofre de inúmeras frentes para ceder nestes princípios da sexualidade, como já fizeram as comunhões Anglicana e Luterana. Mas a Igreja, que está no mundo sem ser do mundo, deve manter-se firme à verdade, ainda que as limitações à liberdade religiosa sejam cada vez maiores e qualquer dia já não se lhe permita expressar publicamente a moral cristã sem que os fiéis católicos vão presos. Espero confiante por esse dia.

O autor não segue a grafia do novo Acordo Ortográfico.