Um dos ganhos importantes da crise que já nos enjoa, a da Covid-19,
que tudo assolou e substituiu,
que serve de desculpa para que tudo pare,
que é uma oportunidade de negócio para uns quantos e de ruína para muitos mais,
que servirá para perpetuar a incompetência de quem nos tem governado,
que já serviu para suprimir a oposição e garantir uma reeleição,
que é mote de programas cómicos que nem assim escondem a grande tragédia humana que é a de sermos quase só reativos,
que já matou e não apenas com o vírus,
que nos fez engolir muita arrogância,
que nos voltou a lembrar como os microrganismos fazem geopolítica,
que nos humilhou com a ignorância que confrontámos,
que serviu para a exultação de governantes estúpidos,
e nos engrandeceu com a capacidade de aprender, improvisar e resistir,
dizia eu, um dos ganhos foi ter-nos ensinado a ler melhor.

Reconheço que as reuniões regulares no INFARMED com especialistas, presumo que de infeciologia e saúde pública, possam ser uma boa ideia. No entanto, ouvindo as declarações à saída do encontro, fico com a impressão de que uma parte significante da audiência não percebeu nada do que foi dito ou a explicação foi coxa e, nesse caso, urge que melhorem os diapositivos ou mudem de peritos. Pensando melhor, acho que podemos confiar nos palestrantes e o mais conveniente será acabar com declarações à boca de cena. Sempre se poupava o esforço ortostático dos que ficam em fundo, a fazer de estátuas.

Finalmente, é obra, alguém disse aos nossos políticos que, grande surpresa, os mais desfavorecidos têm mais problemas de saúde. Quem sabe, talvez também por isso sejam, isso mesmo, desfavorecidos.

Depois de muito pensarem, olharem para uns gráficos e meditarem nuns números, de acordo com a extensíssima literatura já publicada sobre desigualdades em saúde, os peritos e os políticos concluíram que em Portugal, como em todo o restante globo terrestre, nos bairros pobres há mais doenças. Continuando a matutação, não podendo confinar os pobres e não sendo possível dizer qualquer coisa que possa sugerir racismo, a solução aventada, certamente a mais sensata, foi…não abrir os centros comerciais de Lisboa. Está certo, se eles são pobres e não vão lá para fazer compras, é porque vão ao shopping para, além de larapiar, infetar os incautos. Isto é que é saúde pública de grande alcance. Não se resolvendo as causas, evitam-se os efeitos. Não se previne na raiz, reage-se.

O mais triste é que há uns anos o nosso bem-amado PR, na sua imparável vontade de ser sempre o mais popular, visitou um desses bairros, logo agora um dos focos de virusidade crescente. Para quê? Pois bem, além de demonstrar que não há energúmeno que não mereça compaixão e respeito, no que fez bem, e que a PSP só pode bater em quem deve bater, mesmo que isso não inclua responder na mesma medida a quem os agride, o nosso PR lá deu uns beijitos – ainda não havia Covid-19 – e tirou umas fotos. Agora, todos contristados, coitados dos pobrezinhos que deviam estar isolados, mostram-se escandalizados com o foco de SARS-CoV-2 num bairro pobre. Alguém se chegou à frente para resolver o problema que ali está? Alguém se atreveu a questionar, a fundo, o partido que gere a autarquia que tolera aquele bairro?

Também é preciso ler bem para superar a incompetência comunicacional da OMS. Um dia, uma simpática espanhola diz, a um órgão de comunicação social espanhol, que acha improvável que haja grande segunda vaga. Disse o quê? O que é grande? O que é vaga? Face a tão grande enormidade – o pleonasmo justifica-se -, logo plasmada em todo o tipo de cabeçalhos, lá veio um outro técnico – especializado em relações sino-virais – transformar o “não haverá segunda vaga” dos escaparates para “é possível que haja segundo pico dentro da vaga atual”.Terminologias à parte, todos estão de acordo que a pandemia de Covid-19 ainda vai durar.

Incorporemos umas realidades que vou repetir. O SARS-CoV-2 não será erradicado como o SARS-CoV não foi e o MERS-CoV também não. Andam por aí, como andará o Dengue e o vírus da Febre do Nilo Ocidental se passeia em Nova Iorque. O Ébola volta quando e sempre que pode. O vírus da gripe vai saltando regularmente de espécie para espécie e, regularmente, transforma-se num vírus mais mortal. Logo, não havendo vacina e não sabendo quem nem quando devemos vacinar, resta-nos esperar. Vai haver mais surtos, picos e vales, pelo que é provável que ainda no decurso da pandemia atual haja períodos de expansão e acalmia. A hipótese, mera hipótese, que ganha consistência é que possa haver alguma sazonalidade – ainda longe de se demonstrar – face ao padrão de expansão no hemisfério sul agora que o outono está lá. Não é necessariamente uma má notícia, embora nada nos garanta que entretanto o vírus não possa ir mutando nas suas viagens de hospedeiro para hospedeiro.

Outro caso de leitura simplificada de uma afirmação menos feliz foi a de que a vacina para o SARS-CoV-2, a tal que envolve milhões de horas de estudo, já não seria útil ou necessária. O que foi dito é que se o número de casos infetantes diminuir e houver menos vírus em circulação, será mais difícil fazer ensaios clínicos em cenário natural pandémico, com grandes números e obtenção rápida de diferenças estatisticamente significativas. Isso não impede que se possam fazer outros tipos de ensaios clínicos ou que a vacina não seja necessária. Continua a ser muito necessária, como foram outras que existem e que não têm de ser usadas por todos em todo o mundo.

Mais interessante ainda é o contentamento com se comprazem face à ideia de que a capacidade do SNS não foi esgotada com a Covid-19. Talvez fosse mais interessante e útil atentarem em tudo o que deixou de ser feito pelo SNS e nas consequências que daí advirão. Só se lê metade da notícia, não é? A capacidade não foi usada porque os doentes foram literalmente escorraçados de alguns hospitais e houve outros a quem o pânico induzido levou a que ficassem a medrar doenças nos lares de idosos ou nas suas casas.

O confinamento foi um êxito e teria sido o caos sem a contenção social imposta? Não duvido, embora os modelos sejam limitados e não consigam medir todas as consequências sociais e sanitárias a longo prazo.  Há um artigo, amplamente citado, sobre as virtudes económicas do confinamento que usou dados da epidemia de 1918 e comparou clausuras limitadas com outras clausuras menos limitadas. Digamos que é pouco para se poder advogar em defesa da clausura de todo um país ou do mundo e ainda mais quando os impactos sanitários da gripe de 1918 não podem ser comparadas com as da Covid-19. A doença pelo novo coronavírus de 2019 é mais mortal do que a gripe, em qualquer cenário, e há meios tecnológicos de suporte em cuidados intensivos que tornam impossíveis as comparações, até com as mais recentes pandemias de há 10 anos atrás.

Todavia, o que politicamente é mais importante não é discutir se o confinamento foi útil – certamente que foi – mas perceber que o SNS não estava, nem está, preparado para uma pandemia deste tipo, como não estavam e continuam a não estar a generalidade dos sistemas de saúde mais avançados. E há também outros países onde o “bairro da Jamaica” é o melhor que se arranja para a maioria da população. Acham que o SARS-CoV-2 vai desaparecer por si? Ou desejam que ele mate todos os potenciais reservatórios?

Também é preciso saber ler as notícias sobre medicamentos. Há uns meses, a hidroxicloroquina era a maior. Agora já não presta. A toxicidade que este medicamento sempre teve é conhecida há mais de 60 anos. Parece que só descobriram agora que o remédio pode fazer mal, depois de terem andado a tratar milhares de doentes sem terem a certeza se era aconselhado. Era barato, não havia melhor e estava tudo em pânico. Na verdade, a hidroxicloroquina não parece estar associada a grandes benefícios, mas há “líderes” com muita fé. Depois vieram mais uns ensaios. E cada um lê cada qual como quer. É sempre assim. O uso de lopinavir-ritonavir, num ensaio clínico que envolveu 199 doentes, resultou em redução de mortalidade aos 28 dias (-5,8%), menor duração de estadia em unidade de cuidados intensivos (-5 dias), menor duração de internamento (-1 dia) e maior percentagem de melhoria clínica aos 14 dias de tratamento (+15%). No entanto, em face dos significados estatísticos e da análise de parâmetros virológicos, os autores concluíram que o medicamento em teste não trouxe benefícios importantes em comparação com os cuidados “padrão”. E agora há o remdesivir. No estudo com 1063 doentes, depois de ter havido um outro com menos doentes que não foi positivo, o remdesivir permitiu uma recuperação 4 dias mais rápida e uma probabilidade de morrer aos 15 dias 4,8% menor do que com placebo (7,1 vs 11,9%). Os autores acham que já é bom, outros acharão modesto. A conclusão é de que ainda não há tratamento eficaz e mais vale prevenir.

E termino com uma nota epidemiológico-termodinâmica. É diferente ter 10 milhões de pessoas em 92.000 Km2 – a área aproximada de Portugal – ou em 780 km2 – a área aproximada de Nova Iorque. A probabilidade de pessoas colidirem umas com as outras é maior quando a concentração é maior. Logo, cuidados nas comparações. Não podemos embandeirar em arco quando não estamos tão bem como nos querem fazer crer. As epidemias evoluem no tempo e com grande instabilidade. Há umas semanas era o “milagre Português”. Agora já temos uma média semanal de casos novos pior do que a maioria dos países mais desenvolvidos. Sejamos modestos e façamos o que tem de ser feito, com bom senso.

Alguém sabe da bébé Matilde? Deixou de ser notícia. Queira Deus que esteja bem.