O país que nos deu Dom Quixote descobriu finalmente o seu moinho de vento definitivo, Pedro Sánchez, um cavaleiro que luta não contra gigantes imaginários, mas contra a própria realidade, numa cruzada épica para manter o poder a qualquer custo. Shakespeare ficaria com inveja desta tragicomédia, ou seria um drama? A esta altura, nem o próprio Sánchez sabe em que género se encontra.

Claro que não é a primeira vez que a Espanha se vê numa encruzilhada política. A História hispânica tem mais voltas que uma tourada, com episódios em que a nação se dividiu entre extremos como se fosse um menu de tapas mal temperadas. Desde as guerras carlistas (quando pelo menos se sabia por que se lutava) até à Guerra Civil, passando pelas convulsões da Transição, o país especializou-se em transformar política em espetáculo. Mas desta vez, o circo tem um diretor que vendeu a bilheteira aos próprios críticos do espetáculo.

O fervoroso sentimento pátrio espanhol, esse orgulho secular que levou os conquistadores a descobrir meio mundo (e que os fez acreditar que o outro meio também lhes pertencia), encontra-se hoje numa posição mais paradoxal que um toureiro vegetariano. O governo de Pedro Sánchez sustenta-se no apoio de partidos independentistas catalães e bascos, alguns dos quais trocaram as bombas pelos votos, numa reconversão profissional digna de um curriculum vitae do LinkedIn.

Imagine-se a cena, o guardião da unidade nacional a jantar todas as noites com aqueles que sonham em parti-la aos bocados. É como contratar uma raposa para guardar o galinheiro, mas dar-lhe ainda as chaves do cofre. Esta bomba-relógio política tem um cronómetro tão preciso que até os relojoeiros suíços ficariam impressionados. De um lado, temos o ADN espanhol, forjado em séculos de “una, grande y libre”, do outro, forças que querem transformar Espanha num puzzle onde cada peça se monta sozinha noutro sítio.

Pedro Sánchez encontrou em António Costa não apenas um vizinho ibérico, mas um verdadeiro Yoda da sobrevivência política. O problema é que este padawan decidiu usar a Força para o lado negro da política. Tal como o ex-primeiro-ministro português, Sánchez demonstra uma capacidade quase sobrenatural de se manter no poder que faria Harry Houdini parecer um principiante. O PSOE, sob a sua liderança, transformou-se numa máquina de sobrevivência política tão eficiente que a própria Nokia ficaria com inveja da sua resistência.

Esta metamorfose darwiniana não passou despercebida nem mesmo aos dinossauros socialistas. Felipe González, o patriarca do PSOE, emergiu do seu retiro para criticar o atual líder com a autoridade de quem construiu o partido  e agora vê a casa ser demolida pelo próprio inquilino. Quando os pais começam a renegar os filhos, é sinal de que a árvore genealógica está doente na raiz. González alertou para os perigos de uma deriva que considera contrária aos valores tradicionais do partido, numa crítica tão subtil quanto um elefante numa loja de procelana.

Como se não bastasse dirigir um governo que é meio circo, meio casa de espelhos, Sánchez decidiu adicionar um toque familiar ao espetáculo. A mulher, Begoña Gómez, e o irmão, David Sánchez, encontram-se no centro de investigações que fazem os escândalos da época de Aznar parecerem travessuras de jardim-de-infância. É uma saga familiar que nem os Bórgia conseguiram superar, pelo menos esses eram francamente malvados, não se escondiam atrás de um discurso progressista.

Aristóteles, na sua “Ética a Nicómaco”, defendia que a virtude do governante deve ser irrepreensível, pois o exemplo vem de cima. Sánchez interpretou esta máxima com a criatividade de um aluno que cola num exame “se o exemplo vem de cima, então a corrupção também pode ser hereditária”. É uma leitura inovadora da filosofia clássica.

Enquanto a esquerda faz malabarismos no arame político, a direita espanhola vive o seu próprio drama shakespeariano. O Partido Popular e o Vox obtêm maiorias significativas, mas Alberto Núñez Feijóo comporta-se como um noivo na porta da igreja, quer casar com o poder, mas tem medo de Santiago Abascal como padrinho. É uma hesitação que faria Hamlet parecer decisivo.

Isabel Díaz Ayuso, a presidente da Comunidade de Madrid, encarna uma direita mais pragmática e menos complexada. Enquanto Feijóo se debate entre ser ou não ser (primeiro-ministro), Ayuso simplesmente é. A questão dramática que paira sobre Espanha é se o país seguirá a tendência global de crescimento das direitas ou se permanecerá como um museu vivo do “velho socialismo”, uma espécie de Jurassic Park ideológico onde os dinossauros ainda rugem, mas só assustam os turistas.

Se há característica que define o ADN espanhol é o orgulho nacional, um orgulho construído ao longo de séculos, desde os tempos em que o sol nunca se punha no Império espanhol até à moderna democracia (onde o sol se põe regularmente). Sánchez, contudo, parece empenhado em transformar este sentimento secular numa mercadoria política, vendendo-se aos independentismos como se fosse um vendedor de enciclopédias porta-a-porta.

É um espetáculo digno de um circo romano, o gladiador que luta contra os leões, mas alimenta-os em privado. Quando se mexe com a identidade coletiva de um povo, especialmente um povo com a memória histórica dos espanhóis, as consequências podem ser mais explosivas que a pólvora de uma tourada. A História está cheia de líderes que subestimaram o poder do sentimento nacional e acabaram como nota de rodapé nos livros de História, geralmente trágica.

Como diria Nietzsche, “o que não me mata, torna-me mais forte”, mas esqueceu-se de mencionar que primeiro quase nos mata mesmo. Espanha tem demonstrado, ao longo dos séculos, uma capacidade notável de superar as suas crises internas, como uma fénix que ressuscita das próprias cinzas (e que depois se queixa do cheiro a queimado). Mas desta vez, a situação é única, um governo que governa contra si próprio, como um suicida que se mata aos poucos para não morrer de uma vez.

Se acabó la fiesta? Não, apenas mudou de anfitrião e o novo anfitrião decidiu que os convidados devem pagar a conta, servir as bebidas e ainda agradecer o privilégio de estar presentes. Como dizia Séneca, “não é o vento que decide o destino, mas a orientação das velas”. O problema é que em Espanha as velas estão orientadas para todos os lados ao mesmo tempo, como um catavento político numa tempestade de interesses.

A festa continua, mas agora é uma festa de despedida. E quando os próprios anfitriões começam a arrumar as malas antes dos convidados irem embora, é sinal de que algo está podre no reino da Espanha. Que Shakespeare nos perdoe a paráfrase, mas Hamlet teve sorte, pelo menos só tinha de lidar com um fantasma.