Num momento onde o tema da imigração está tão mediático e assistimos a discussões de propostas  de revisão da Lei da Nacionalidade e reformular o sistema de controlo de fronteiras através da criação  da Unidade Nacional de Polícia de Estrangeiros e Fronteiras (UNPEF), Portugal vê-se, finalmente,  confrontado com um debate inadiável: qual deve ser a relação entre imigração, nacionalidade e coesão  política?

As alterações ainda estão em discussão e o processo legislativo permanece incerto. No entanto, o que  já é claro é o crescente desconforto político e social com o modelo facilitista que imperou na última  década, nomeadamente após as alterações à Lei da Nacionalidade em 2020, promovidas pelo Partido  Socialista com o apoio da extrema-esquerda. Estas mudanças romperam com um consenso  moderado de décadas, substituindo um modelo de integração exigente por uma lógica de acesso  automático à nacionalidade, desprovida de critérios substanciais de pertença e lealdade  constitucional.

O debate atual é, por isso, mais do que técnico: é político, moral e institucional. E é urgente que o centro  político o assuma sem complexos.

Ao longo dos últimos anos, a nacionalidade portuguesa foi transformada — não por declaração  política, mas por via legislativa — num instrumento de regularização administrativa, mais do que num  vínculo fundacional à comunidade política portuguesa. A possibilidade de atribuição automática da  nacionalidade a filhos de imigrantes com apenas um ano de residência legal não só reduz a exigência  do vínculo, como dissocia a nacionalidade da ideia de pertença real, de integração cultural, de lealdade  institucional e de compromisso com a ordem constitucional portuguesa.

Este caminho esvaziou a noção de cidadania, tratada cada vez mais como um dado burocrático e não  como um pacto voluntário entre o indivíduo e a nação, nos termos do que a tradição republicana  sempre defendeu. Ser português, neste modelo, passou a depender de circunstâncias formais — nascimento, residência mínima, ausência de irregularidades administrativas — em vez de uma  combinação de direitos e deveres, de tempo e envolvimento, de identificação e responsabilidade.

É neste ponto que a discussão em curso — independentemente do seu desfecho legislativo — representa um ponto de inflexão no pensamento político dominante: emerge a ideia de que a  nacionalidade não deve ser uma dádiva automática, mas uma conquista informada, sustentada em  critérios objetivos como:

• tempo de residência relevante;

• conhecimento da língua e da cultura portuguesa;

• integração económica e contributiva;

• respeito pela legalidade e ausência de registos criminais;

• adesão aos princípios da Constituição.

Esta exigência não é exclusão. É respeito pela própria democracia em Portugal. Porque sem critérios  claros de pertença, a cidadania perde valor, e o Estado perde legitimidade para exigir deveres em nome  de um bem comum que já não é partilhado.

Não se pode ignorar que este reposicionamento do discurso sobre imigração surge também em  resposta à pressão política da nova direita radical, em particular do Chega, que há vários anos  denuncia os abusos e fragilidades do modelo vigente. O facto de parte da opinião pública identificar  essa agenda com o discurso securitário revela, precisamente, a falência da moderação democrática  em ocupar este espaço com responsabilidade.

De certa forma, esta viragem — ainda tímida — representa uma vitória política do Chega. Mas isso não  deve ser visto como derrota da democracia: é um sinal de que o sistema está a reagir à sua própria  desconexão com a realidade social.

A resposta não pode ser nem o silêncio culpado, nem a cópia dos excessos. A resposta é reconquistar  a autoridade com legitimidade democrática. É assumir que segurança, controlo migratório, exigência  cultural e soberania nacional não são temas da extrema-direita, mas questões estruturantes de  qualquer ordem política democrática que deseje perdurar.

O centro político — sobretudo o centro-direita liberal-conservador — deve liderar este novo equilíbrio:  defender um país aberto, mas não desarmado; solidário, mas não ingénuo; acolhedor, mas não  submisso.

A aprovação da criação da Unidade Nacional de Polícia de Estrangeiros e Fronteiras (UNPEF) é para  mim não só, uma resposta institucional concreta ao erro cometido com a dissolução precipitada do  SEF, promovida pelo anterior Governo com base em argumentos ideológicos e simbólicos, sem  qualquer plano funcional alternativo, assim como é uma vitória para a segurança e controlo das  fronteiras portuguesas,

O fim do SEF deixou um vazio grave no controlo migratório e na gestão fronteiriça, substituindo uma  estrutura especializada por uma dispersão de competências entre entidades civis e policiais. O  resultado foi previsível: desorganização, aumento do sentimento de insegurança e perda de autoridade  operacional do Estado.

A nova unidade, se devidamente implementada, será mais do que um corpo técnico: será um sinal  político claro de que o Estado voltou a assumir as suas funções soberanas com seriedade. A  profissionalização, a centralização de competências e a fiscalização ativa dos fluxos migratórios são  hoje condições básicas para garantir não só segurança, mas também dignidade institucional.

A ideia de que exigir controlo e ordem é sinónimo de autoritarismo revela apenas a infantilização do  debate político a que fomos sujeitos nos últimos anos. Um Estado que não controla quem entra, quem  permanece e quem se torna cidadão não é moderno, é fraco. E um Estado fraco não protege ninguém  — nem os nacionais, nem os imigrantes honestos que desejam contribuir para o país.

Portugal precisa de uma nova doutrina política para a imigração e para a nacionalidade. Uma doutrina  que seja simultaneamente humana e exigente, aberta e institucional, solidária e racional. O modelo  atual está esgotado — e a sua continuação apenas alimentará o ressentimento, a polarização e a  desconfiança.

Não se trata de fechar portas. Trata-se de deixar claro que, para entrar, há regras; e para pertencer, há  responsabilidades.

A nacionalidade portuguesa deve voltar a ser o que sempre deveria ter sido: uma escolha consciente,  um contrato de pertença, um laço duradouro entre o indivíduo e a comunidade política a que deseja  servir.

E isso exige mais do que leis: exige coragem intelectual, liderança democrática e visão estratégica.  Porque proteger a nacionalidade não é retroceder — é preparar o futuro de uma nação coesa, soberana  e livre.

Concluo dizendo que, defender critérios mais exigentes para a atribuição da nacionalidade e reforçar  os instrumentos de controlo migratório não é ceder ao radicalismo — é reafirmar a soberania de um  povo sobre o seu próprio destino. Num mundo cada vez mais instável, marcado por pressões  demográficas, choques identitários e falências estatais, Portugal tem o dever de se proteger com  inteligência, responsabilidade e dignidade. Ser português não é apenas um dado biográfico ou um  acaso geográfico — é um compromisso com uma herança histórica, uma cultura política e um projeto  coletivo. A moderação patriótica que aqui se defende é aquela que reconhece que só com um Estado  forte, leis justas e cidadãos comprometidos se constrói uma Nação coesa, livre e preparada para os  desafios do futuro.