“Fernando Medina não assumiu nenhuma responsabilidade e um líder assume as responsabilidades das suas equipas. Portanto, o não assumir da responsabilidade política, e não estamos aqui a falar de um caso qualquer, estamos a falar de um caso em que estão vidas humanas em jogo, é muito grave”. Carlos Moedas, 2021.

Morreram 16 pessoas no acidente do Elevador da Glória. Carlos Moedas pode dar as voltas que quiser, mas nada apaga o que disse sobre Fernando Medina há quatro anos. Pode até tentar distinguir as situações — um procedimento administrativo habitual e flagrantemente ilegal e um acidente cuja origem terá escapado às rotinas de fiscalização e manutenção devidamente protocoladas. Pode dizer (e os dados apurados até ao momento apontam nesse sentido) que não foi responsável direta ou indiretamente pela tragédia. Pode dizer que nunca teve qualquer indício, queixa ou relato que fizesse antecipar aquela tragédia. Pode e deve fazê-lo porque, até prova em contrário, é a verdade.

Mas há um plano de responsabilidade política que se impõe reconhecer. Como disse Marcelo Rebelo de Sousa, com meridiana clareza, não há outra forma de pôr as coisas: “Quem está à frente de uma instituição pública responde politicamente por aquilo que aconteça de menos bem nessa instituição, mesmo que sem culpa nenhuma, mesmo que sem intervenção nenhuma”. Por muito injusto que seja, a responsabilidade política é de Moedas — não é transmissível.

Quer isto dizer que deve apresentar a demissão? Depende. Moedas de 2021 acharia que sim. Moedas de 2025 acha que não. Ora, na política, a palavra tem um peso. Se está arrependido das declarações que fez há quatro anos, reiteradas em vários momentos, Moedas deveria assumir que não agiu da melhor forma e reconhecer o erro. Fingir que não disse o que efetivamente disse só prolonga o embaraço. Corrigir o tiro permitiria que se libertasse de uma frase que voltou para o assombrar. Infelizmente, não parece ser essa a vontade do autarca.

Dito isto, e ignorando a bitola que Carlos Moedas definiu para si e para os outros há quatro anos, tem o presidente da Câmara Municipal de Lisboa de se demitir? A pergunta deve ser colocada de outra forma: num momento em que ainda é preciso dar resposta aos feridos e aos familiares das vítimas, em que é preciso encontrar rapidamente as respostas possíveis e garantir a segurança dos lisboetas e de quem visita a cidade, em que medida é que a demissão de Moedas, do vereador Anacoreta Correia ou do presidente da Carris resolveria o quer que fosse? Rolavam uma, duas, três cabeças. E então?

Moedas, responsável político máximo pelo que acontece no universo da Câmara Municipal de Lisboa, tem de dar respostas. O apuramento rigoroso do que aconteceu e do que não foi feito para o impedir chegará depois, com tempo. O facto de estar teimosamente refém do que disse há quatro anos não significa que todos estejam obrigados a segui-lo cegamente nessa incoerência. De outra forma: a ter-se concretizado, a demissão de Medina seria um erro; e também o seria no caso de Carlos Moedas.

Era importante que os que dizem querer genuinamente contribuir para o esclarecimento e impedir que tamanha tragédia venha a acontecer no futuro suspendessem a emoção e usassem mais a razão. As primeiras duas entrevistas de Moedas não apontam, infelizmente, nesse sentido. O autarca preferiu lançar uma teoria da conspiração sobre os “sicários” (infeliz expressão) de Alexandra Leitão que veio contaminar (ainda mais) o debate político. Preferiu o combate e a campanha eleitoral. Não era isso que se esperava dele.

Claro que só o fez porque Pedro Nuno Santos lhe deu o pretexto certo. Ao seu estilo habitual (mais emoção do que razão), o antigo líder socialista exigiu não uma, não duas, mas três vezes a demissão de Moedas, contrariando tudo o que Alexandra Leitão e José Luís Carneiro tinham dito até então. Na segunda vez que falou sobre o tema, até se deu ao luxo de enviar recados para dentro do PS, sugerindo que havia quem, no partido, estivesse demasiado preocupado em agradar à direita.

Pedro Nuno não soube ler a situação política e caiu na armadilha dos apoiantes de Moedas. Alexandra Leitão não precisava disto. Tem consciência de que o adversário direto aproveitará tudo para insistir na ideia de que é uma radical ao serviço da extrema-esquerda. Exigindo respostas e apontando falhas, a socialista estava a gerir o tema com o cuidado de quem sabe que qualquer sinal de aproveitamento político em cima deste acidente lhe será prejudicial. Ter um antigo líder (de quem sempre foi próxima) a radicalizar o discurso é uma contrariedade perfeitamente dispensável. Se Pedro Nuno Santos serviu de sicário a alguém não foi a Leitão, seguramente — fez um grande favor a Carlos Moedas.

Aliás, no plano político, o que este caso demonstra pela enésima vez é a incoerência de quem se senta ora no poder, ora na oposição. Em Pedrógrão Grande (2017), morreram 64 pessoas. Exigiu-se de imediato a cabeça da ministra Constança Urbano de Sousa. Eis o que disse então Pedro Nuno Santos: “Assumir a responsabilidade política é assumir a responsabilidade na forma como reage a um problema. Os governos medem-se, não pelos problemas que surgem, mas pela forma como lidam com eles. Antes de todos nos precipitarmos a pedir para rolar cabeças, [é importante que] consigamos perceber o que aconteceu. O objetivo de uma investigação não é fazer rolar cabeças”.

A coerente incoerência dá nisto. E quando as palavras são escolhidas em função das nossas circunstâncias (poder, oposição; aliado, adversário) não nos podemos queixar que apareça alguém a dizer: “Afinal, são todos iguais”.