A primeira volta das eleições presidenciais ficou marcada por um número invulgarmente elevado de candidatos, na sua maioria com patrocínio partidário. O resultado foi um voto fragmentado, com margens curtas e dependente de uma parte relevante do eleitorado que se mostra pouco previsível, que decide cada vez mais tarde, sem grande fidelidade ideológica e partidária. As escolhas fizeram-se (e fazem-se) cada vez mais por exclusão do que por verdadeira adesão, num ambiente em que a perceção de que um dado projeto político é viável para a vitória conta tanto ou mais do que o conteúdo das propostas.
No centro e à direita, essa dispersão teve custos claros. A presença simultânea de Marques Mendes, João Cotrim de Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo desencadeou um conflito interno que acabou por beneficiar os dois candidatos que passaram à segunda volta. E se os dois últimos eram “outsiders”, a verdade é que a opção do PSD/CDS por Marques Mendes foi o fator decisivo para o desfecho da primeira volta. Explico.
Mendes nunca conseguiu afirmar um perfil presidencial sólido. Apresentou-se senatorial, quase um “dono-disto-tudo”, manifestando surpresa com o escrutínio que lhe foi feito por vários candidatos e por alguns meios de comunicação social. André Ventura e António José Seguro questionaram-no de forma direta, embora pouco incisiva. Já João Cotrim de Figueiredo e Henrique Gouveia e Melo expuseram o problema central: a dificuldade de conciliar o percurso de vida de Mendes com a exigência ética e simbólica da função presidencial.
Em vez de esclarecer, Mendes evitou o tema. Nunca explicou de forma clara o que fez, para quem trabalhou e em que termos. Preferiu devolver os ataques por via indireta, recorrendo a alguns media e aos seus principais apoiantes para lançar suspeitas e pôr em causa a reputação dos adversários. Essa estratégia agravou a perceção de falta de elevação institucional e acabou por confirmar reservas já existentes. O resultado foi um colapso eleitoral que acabou por favorecer António José Seguro, que absorveu votos que, num primeiro momento, poderiam ter seguido para Henrique Gouveia e Melo ou para João Cotrim de Figueiredo.
Seguro partiu para a primeira volta de uma posição confortável. À esquerda, não enfrentava adversários relevantes. Ao centro e à direita, beneficiava de uma imagem construída ao longo de anos como o socialista aceitável, alguém que nunca provocou rejeição significativa fora do seu campo político. A incógnita era saber se conseguiria mobilizar o eleitorado de esquerda e, ao mesmo tempo, captar voto útil em outros quadrantes. Conseguiu ambos os objetivos, neutralizando as candidaturas à sua esquerda e recolhendo uma fatia relevante do eleitorado do PSD. Foi também o principal beneficiário de um voto volátil, decidido nos últimos dias, fortemente influenciado por sondagens de qualidade discutível.
João Cotrim de Figueiredo conduziu uma campanha consistente e politicamente eficaz. Cresceu à medida que a candidatura de Mendes se desagregava, e afirmou-se como uma referência a ter em conta no futuro próximo. As suas hipóteses de chegar à segunda volta foram destruídas nos últimos dias por uma ofensiva agressiva e dirigida, que vai impedir várias pontes no futuro imediato na direita portuguesa, mas o resultado alcançado confirma a sua capacidade de mobilização junto de um eleitorado cansado das soluções tradicionais.
Gouveia e Melo, o “meu” candidato, fez um grande esforço para fugir de umas presidenciais altamente partidarizadas. Viu, porém, o seu espaço de afirmação desgastado por ter decidido não fazer uma candidatura mais unipessoal, algo que impediu, na semana decisiva, de poder beneficiar do apoio da larga maioria de indecisos que, nos últimos dias, procuram entregar o seu voto segundo critérios de utilidade e em função da perceção que se cria sobre quem poderão ser os vencedores. Sai de cabeça erguida com o apoio de quase 700 mil portugueses e com uma campanha à sua imagem e semelhança, alegre, pontual, altamente profissional, pouco latina para ser bem-sucedida num país pouco exigente com os políticos.
A segunda volta colocará frente-a-frente André Ventura e António José Seguro. Ventura tentará afirmar-se como líder da direita num confronto direto com o socialismo. Seguro procurará posicionar-se como o garante do regime e da estabilidade democrática. Ambas as leituras são redutoras. A esquerda mais dogmática perdeu expressão política real e Seguro surge com votos socialistas, mas mantendo uma distância clara de um partido e de uma esquerda que nunca o aceitaram plenamente. Do outro lado, Ventura dificilmente pode ser visto como um agregador credível da direita. O discurso sobre imigração e minorias resvala com frequência para a desumanização, a fobia securitária amplifica problemas, e o programa económico contém propostas que o colocam, em vários domínios, à esquerda de posições que o próprio Seguro alguma vez defendeu.
Tenho insistido, ao longo dos últimos anos, que os conflitos políticos centrais já não cabem nas grelhas ideológicas herdadas do século XX. Vivemos num contexto marcado pela revolução digital, por choques geracionais, por desigualdades profundas entre os sectores público e privado, por uma classe média fiscalmente esmagada e sem acesso à habitação, e por um “fator” trabalho que rende cada vez menos autonomia e sentido. Tudo isto num mundo onde os grandes “players” digitais se tornaram os novos “narcos”, consumindo tempo, atenção e equilíbrio social, produzindo cidadãos “junkies”, desorientados e politicamente erráticos. Pelo que ter uma segunda volta que mimetiza um debate “esquerda-direita” ao estilo do tempo em que imperavam os filmes de Jean-Paul Belmondo, é de uma pobreza que não abre nenhuma perspetiva de futuro.
Tudo aponta para uma vitória de António José Seguro. André Ventura deverá, ainda assim, obter um resultado expressivo e continuar a crescer explorando a erosão do regime. A principal lição destas presidenciais é clara. Os partidos já não controlam os seus eleitorados. Quem apresentar projetos políticos consistentes e ajustados à realidade contemporânea terá vantagem. PSD e PS ainda podem ter futuro, se forem capazes de se regenerar. O problema é que os seus bloqueios internos e a autofagia permanente tornam essa regeneração cada vez mais improvável. Enquanto assim for, o surgimento de novos projetos políticos resultará em choque com um status quo em perda acelerada de poder, empurrando o debate político para um elevado grau de conflitualidade.
Importa dizer com clareza que Ventura tudo tem feito para cavalgar na degradação da vida pública, sem porém, apresentar genuínas soluções ou uma equipa capaz de devolver a esperança a Portugal. Agora, André Ventura não pode servir de seguro de vida para um status quo que teima em continuar a degradar o país. E se António José Seguro é um político perfeitamente frequentável para todos os que se situam no espaço político do centro-direita ao centro-esquerda, importa dizer que muitos dos apoios recentes que têm surgido ao candidato, são meras sinalizações de virtude, e não propriamente fruto de preocupação genuína em mudar o rumo das coisas. Continuar a apoiar esta espécie de anátema em que o PSD, o PS e até o CDS e a IL, caíram, de que a existência de Ventura justifica sem mais qualquer um dos seus contrários, perverte todos os dias a nossa vida pública. A degenerescência vai continuar se não emergir uma nova energia, já que no atual sistema político, não vejo em ninguém força física e moral para combater Ventura e tudo o que de errado ele representa. E isso, sim, é fatal, pelo que depois do dia 8 de Fevereiro de 2026, muito terá de se fazer para trazer de novo para a vida pública, novos – e melhores – protagonistas.