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A paz mundial só poderá ser salvaguardada com esforços criativos à medida dos perigos que a ameaçam”. Foi com esta frase que Robert Schuman, em Maio de 1950, abria a declaração em que propunha a criação de uma entidade supranacional para o controlo comum da produção franco-alemã de aço e carvão, numa Europa em pós-guerra ainda muito dividida e com feridas recentes.

Esta declaração levou à criação da Comunidade Europeia do Carvão e do Aço, que deu início ao processo de diferentes acordos e instituições resultando hoje no que conhecemos como União Europeia e no maior período de sempre vivido em paz na Europa. Desde esse instante inicial um conceito foi identificado como a base para a construção de um projeto europeu comum, solidariedade, reconhecendo que não seria um caminho fácil, nem alcançável de uma só vez, mas que uma Europa organizada, unida e em paz só seria possível com solidariedade, interdependência e entreajuda.

70 anos depois, a Europa enfrenta um novo desafio contra um inimigo comum que a ataca de forma transversal, colocando em tensão os sistemas de saúde dos países europeus. No seguimento do epicentro da crise do Covid-19 em Itália, a solidariedade entre diferentes países foi demonstrada, com ações como o envio de equipas médicas da Alemanha, Polónia e Roménia para Itália, a disponibilização de unidades de cuidados intensivos na Áustria, Bélgica, Alemanha e Luxemburgo para receberem doentes de outros países, o envio de equipamento hospitalar da Áustria e Dinamarca, entre muitos outros casos de entreajuda.

A União Europeia apresentou também um conjunto de respostas imediatas para esta crise, garantindo a repatriação de mais de 560 mil europeus, o  investimento de mais de 380 milhões de euros em projetos de investigação para novos tratamentos e vacinas, e com a disponibilização de linhas de crédito de 540 mil milhões de euros para a mitigação do desemprego e manutenção de postos de trabalho, empréstimos para pequenas e médias empresas através do Banco Europeu de Investimento e o acesso dos estados membros ao Mecanismo Europeu de Estabilidade. A isto soma-se o mandato recebido pela Comissão dos líderes europeus para a criação de um fundo de recuperação que será essencial para o sucesso na recuperação desta pandemia.

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O futuro da Europa continua nas mãos dos seus cidadãos e em garantir que os nossos representantes têm sempre presente o princípio de solidariedade da declaração de Schuman, para que a construção do projeto europeu continue guiada por um desenvolvimento económico partilhado, com lugar para diferentes culturas e com o respeito por todos.

Em Dezembro do ano passado, a Presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou o Pacto Verde Europeu, com a objetivo do espaço europeu se tornar neutro em termos de clima até 2050. Este plano procurará garantir a prosperidade económica a par da qualidade de vida dos seus cidadãos, com saúde e respeito pela natureza. Aquando do seu anúncio, a ambição deste pacto foi comparada com o momento da chegada do homem à lua, ou seja, será necessária a mesma perseverança para o atingir e esse processo guiará o desenvolvimento tecnológico e científico da Europa e a transformação de setores como energia, construção, indústria e mobilidade. Mais uma vez, o próximo passo da construção Europeia tira partido da criatividade, juntando pessoas, vontades, economia, tecnologia e ciência, para a resolução dos problemas que enfrentamos hoje, tanto na pandemia que vivemos atualmente como na criação de soluções para as alterações climáticas.

Os Global Shapers Lisbon lideram, com o hub de Roma, a campanha #EUnite, uma iniciativa de hubs de mais de 40 cidades europeias para promoção da celebração do dia da Europa a 9 de Maio. Para tal, iremos realizar um ciclo de conversas entre os dias 7 e 9 de Maio dedicado ao tema “Youth, Portugal and Europe”, com a participação de várias personalidades ligadas à política, como ministros, secretários de estado e deputados europeus, que representam Portugal ao mais alto nível, e de áreas diversas da sociedade (como ciência, indústria, educação, modernização administrativa).

Num momento em que não podemos estar juntos fisicamente, é mais importante que nunca, a celebração de valores europeus como os da liberdade, igualdade e abertura. Esta semana é por isso o momento para relembrarmos os benefícios e as implicações de sermos parte da União Europeia e de contar esta história de partilha e cooperação em momentos bons e maus – uma história de solidariedade.

Simão Soares é membro Alumni dos Global Shapers Lisbon. CEO da empresa SilicoLife, presidente da P-BIO, Associação Portuguesa de Bioindústrias, e Climate Reality Leader.