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O futuro será fermentado

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O mercado da biotecnologia industrial gera atualmente mais de 30 mil milhões de euros para a economia europeia e espera-se que em 2030 valha já mais de 100 mil milhões de euros.

Vinho e cerveja são dois dos produtos mais conhecidos do nosso dia-a-dia que são obtidos por fermentação, um processo em que um microrganismo – levedura ou bactéria – converte matérias primas em produtos de interesse. Estes processos milenares são a pedra basilar da biotecnologia industrial. A sua aplicação moderna recorre a enzimas e microrganismos para a produção sustentável de uma vasta gama de produtos úteis como químicos, medicamentos, de nutrição humana e animal, têxteis, energia, materiais e polímeros.

A biotecnologia industrial permite a obtenção dos mesmos produtos obtidos pela indústria petroquímica, mas recorrendo a processos biológicos mais eficientes do ponto de vista ambiental e a matérias-primas renováveis ou atualmente não valorizadas, contribuindo para a sua sustentabilidade e independência de matérias primas de origem fóssil. A baunilha é provavelmente o sabor mais popular em todo o mundo, no entanto a grande maioria dos produtos que têm este sabor não usam baunilha natural, mas recorrem à incorporação do ingrediente que o origina, a vanilina, produzido por síntese química a partir de fontes petroquímicas ou derivada de lignina – representando a vanilina artificial mais de 99% do consumo mundial.

A pressão do consumidor por ingredientes naturais tem levado a que cada vez mais empresas alimentares de referência tenham colocado em marcha planos de redução da utilização de ingredientes produzidos por síntese química. No entanto, esta tendência, muitas vezes guiada por motivações ambientais, levanta sérios problemas de sustentabilidade que à primeira vista não são fáceis de identificar pelo consumidor.

O Financial Times noticiava na semana passada que a baunilha estava ao preço da prata, mas que o real preço a pagar pelo Madagáscar, o principal produtor mundial de baunilha natural, está a ser o aparecimento de redes de crime organizado, um abandono generalizado de outras culturas para a produção exclusiva desta planta (muitas vezes em detrimento da alimentação dos próprios agricultores) e uma febre especulativa sem precedentes.

A procura de alternativas de origem natural para produtos hoje em dia produzidos em larga escala pela indústria química coloca sérios desafios para não trocarmos um problema ambiental por outro. É necessário encontrarmos soluções que ao mesmo tempo cumpram a exigência dos consumidores do não uso de processos químicos com uma elevada pegada ambiental, mas que também garantam que essa produção é sustentável e que responde à procura em grande quantidade destes produtos.

Os mais recentes avanços na biologia molecular, automação e inteligência artificial permitem acelerar o desenho de “fábricas celulares” – microrganismos geneticamente modificados – incorporando as atividades existentes em diferentes organismos para a produção de compostos de interesse, como em plantas, em leveduras e bactérias de maneira segura e eficiente. Um dos exemplos clássicos da biotecnologia moderna é a produção de insulina, um processo que antes dependia da extração desta hormona do pâncreas de animais, e que com a identificação do gene que a produz e a sua inserção numa bactéria permitiu tornar a produção de insulina 100% compatível com o ser humano num processo sustentável, sem recurso a animais e escalável.

Estes avanços tecnológicos permitem assim o desenvolvimento de tecnologias para a produção destes compostos através de processos muito semelhantes ao da produção de cerveja. Diversas empresas e universidades têm-se dedicado ao desenvolvimento de processos fermentativos para a produção de ingredientes como a vanilina. Estas abordagens permitirão termos uma produção biológica escalável, independente de processos petroquímicos e não recorrendo a uma produção agrícola massiva e insustentável.

O mercado da biotecnologia industrial gera atualmente mais de 30 mil milhões de euros para a economia europeia e espera-se que em 2030 valha já mais de 100 mil milhões de euros. Apesar de mais sustentáveis e amigos do ambiente, muitos destes processos ainda não são economicamente competitivos, mas o desenvolvimento e expansão deste sector é uma oportunidade para reduzirmos a nossa dependência de combustíveis fósseis, respondermos às ameaças das alterações climáticas e encontrarmos novas maneiras de alimentarmos uma população mundial em crescimento.

Um futuro com uma economia competitiva e sustentável passará por um aproveitamento eficiente dos recursos que dispomos, tirando partido dos avanços científicos para uma produção de todos os produtos que contribuem para a nossa qualidade de vida respeitando a natureza. O futuro será fermentado.

Simão Soares tem 32 anos e é CEO da SilicoLife, uma empresa que combina inteligência artificial com biologia para o desenho de processos biológicos sustentáveis para a produção de químicos. Tem formação em bioinformática pela Universidade do Minho, pós-graduação em gestão pela NOVA School of Business and Economics e formação em Blue Ocean Strategy
pelo INSEAD. É membro da direção da P-BIO, Associação Portuguesa de Bioindústrias, e Climate Reality Leader.

O Observador associa-se aos Global Shapers Lisbon, comunidade do Fórum Económico Mundial para, semanalmente, discutir um tópico relevante da política nacional visto pelos olhos de um destes jovens líderes. Irão partilhar a visão para o futuro do país, com base nas respetivas áreas de especialidade, como aconteceu com este artigo. O artigo representa, portanto, a opinião pessoal do autor enquadrada nos valores da Comunidade dos Global Shapers.

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