Viver em Portugal é viver num país em que para muitos só existe um futuro em Lisboa, no Porto ou fora do próprio país. Naturalmente, por razões de desejo ou necessidade, se cada vez mais pessoas se mudam para as grandes cidades o preço da habitação nas mesmas tende a crescer ano após ano. É a lei da oferta e da procura a funcionar. Esta não é certamente a única causa da já muito debatida crise da habitação, é um problema complexo que não se explica através de um fenómeno isolado. No entanto, sendo Portugal um país com um interior cada vez mais desocupado, e com duas grandes cidades cada vez mais saturadas, poderá a solução para a crise da habitação estar onde menos procuramos?
Por razões históricas e geográficas, Portugal é um país que não inclui na sua estrutura económica e demográfica cidades de média dimensão, ao contrário de outros países europeus mais desenvolvidos. Duas grandes áreas metropolitanas albergam metade da população portuguesa, e a tendência nas últimas décadas tem sido de constante crescimento da população urbana. Fora destes grandes centros urbanos a maioria da população encontra-se distribuída por cidades de dimensão reduzida, sendo que uma minoria ainda povoa as aldeias e vilas de um interior rural e semi-desocupado. O êxodo rural, fenómeno sentido com maior intensidade no passado, ainda tem um peso muito significativo na organização da nossa sociedade. A fraca oferta no mercado de trabalho especializado no interior leva à procura de melhores oportunidades nas grandes cidades. Isto leva a uma crescente concorrência no mercado da habitação, que por sua vez se traduz num aumento dos preços de arrendamento e venda, face a uma oferta comparativamente estagnada, incapaz de acompanhar o ritmo da procura. Dado que o espaço para novas construções no centro e arredores é limitado, e que não há por parte dos portugueses adesão a uma política de construção em altura (arranha-céus), inicia-se a discussão de soluções para o problema da habitação já com restrições muito limitativas.
No momento de decisão de mudar de área de residência, embora o custo seja, provavelmente, o fator mais determinante, para muitas pessoas a qualidade de vida tem um peso enorme. E quanto mais pessoas vivem na mesma cidade mais a qualidade de vida se tende a deteriorar. A construção de um bairro a 20km do centro tem impacto no dia-a-dia de quem já vive na sua proximidade. É necessário aumentar a oferta de transportes públicos e a construção de novas estradas, caso não seja possível o alargamento das atuais. Estas dispendiosas obras públicas geram um constrangimento a todos os que dependem das mesmas infraestruturas numa base diária, prejudicando o seu bom funcionamento durante a fase de construção. Este constrangimento é apenas inferior ao de não se realizarem as obras de todo. Aumentar a oferta de casas e o número de pessoas sem proporcionar maiores/melhores infraestruturas leva à saturação dos meios de transporte públicos e ao aumento do trânsito e, consequentemente, do tempo desperdiçado por dia a caminho do local de trabalho. Também a poluição do ar, sonora, e visual, e a diminuição dos espaços verdes são dos principais efeitos secundários nocivos para a qualidade de vida diária.
Se à medida que o número de pessoas em Lisboa e no Porto aumenta, o custo de comprar ou arrendar casa é cada vez maior, e a qualidade de vida tende a deteriorar-se, porque continuam os portugueses a migrar para as duas maiores cidades? Porque nas cidades do interior a oferta de emprego, cultural, de entretenimento e vida noturna, de infraestruturas essenciais como escolas e hospitais, de clubes desportivos e outras atividades recreativas não estão ao nível do que as grandes cidades têm para oferecer. Existem várias cidades pequenas, com menos de 150 mil habitantes de norte a sul do país, que agradam a quem procura um estilo de vida mais pacato, e a quem não tem ambições muito elevadas a nível profissional. Portugal carece, no entanto, de cidades de média dimensão, na ordem das centenas de milhar de habitantes (cidade mais áreas suburbanas adjacentes), que tenham a oferecer um meio termo entre as duas opções anteriores, em que haja um mercado de trabalho mais dinâmico e maior oferta cultura, mais infraestruturas, suficientemente atrativas para motivar a fixação da população, mas em que não se tenha atingido um nível de desenvolvimento urbano em que a qualidade de vida passa para segundo plano devido à necessidade de constante expansão.
A geografia do nosso país é um fator determinante na viabilidade deste modelo. A distância entre interior e litoral é reduzida em todo o comprimento do território nacional, viver no interior não significa estar distante das grandes metrópoles e da costa, sendo possível viver na paz do interior e nunca estar a mais de 3 horas de distância de carro da vida cultural de Lisboa ou do Porto. E com medidas recentes, como a criação do passe verde, com o qual é possível viajar de comboio por todo o país de forma ilimitada, por apenas 20€ mensais, e a planeada modernização de parte da rede ferroviária, que terá resultados como a redução do tempo de viagem Lisboa-Elvas para apenas 1 hora, viver no interior é cada vez menos sinónimo de isolamento.
A carência de cidades de média dimensão não tem necessariamente de ser uma fatalidade no nosso país. E não é necessário um movimento governamental de criação de cidades de raiz, como aconteceu na China nas últimas décadas, ou semelhante ao fenómeno das boom towns no período de expansão interna americana. É possível “criar” cidades de média dimensão através da expansão de cidades de dimensão mais reduzida já existentes. Cidades do interior como Bragança, Guarda, Castelo Branco, Portalegre, Évora e Beja apresentam condições favoráveis a este tipo de expansão. Um fator crucial é o facto de cada uma destas cidades estar localizada no centro de um meio rural em que o espaço físico de possível expansão é muito alargado. Numa cidade como Évora, por exemplo, com pouco mais de 50 mil habitantes, é possível duplicar a dimensão da cidade sem prejudicar o setor agropecuário da região e preservando a fauna e flora dos ecossistemas presentes no seu concelho, pois a cidade ocupa apenas uma pequena percentagem do espaço físico do mesmo. A perda de terrenos agrícolas e florestais com a expansão da cidade não seria muito significativa. O aumento da ainda muito baixa densidade populacional no interior de regiões como o Alentejo, o Centro e o Norte não seria um problema, não haveria uma descaracterização geográfica das mesmas, sendo que o território fora das cidades não sofreria alterações significativas com o crescimento das cidades.
Na raiz deste processo de transformação teria de estar sempre a criação de emprego. Toda esta expansão só faz sentido se a oferta no mercado de trabalho aumentar exponencialmente. Seria necessário atrair grandes empresas nacionais ou multinacionais, acenando com o que o interior de melhor tem para oferecer. O preço mais reduzido dos terrenos e a dimensão dos mesmos é um chamariz para empresas que necessitam de fábricas amplas para produção em massa. Utilizando novamente o exemplo da cidade de Évora, a criação do cluster aeronáutico nos arredores da cidade, que alberga uma série de grandes fábricas e emprega centenas de pessoas, veio trazer um crescimento e uma nova dinamização à cidade que nunca seria possível sem um projeto desta dimensão. Este crescimento foi possível em paralelo com a preservação do património histórico da cidade, e do estilo de vida tranquilo a que habituou os seus residentes, devido ao bom planeamento paisagístico do projeto, e ao distanciamento e independência do cluster em relação ao centro histórico da cidade e zonas circundantes. Este seria um bom exemplo de modelo para aplicação noutras cidades do interior com potencial de crescimento.
Aliada às vantagens geográficas naturais do interior, a ação governamental, sob a forma de benefícios fiscais, produziria uma oferta irrecusável para muitas empresas multinacionais. Estes benefícios poderiam assumir diferentes modalidades consoante a visão económica e fiscal de cada governo, podendo mesmo ir até a uma total isenção fiscal para empresas que se comprometam a criar de raiz um número elevado de postos de trabalho. Seria necessário criar condições especialmente favoráveis à fixação de pessoas e empresas no interior do país, que gerem motivação suficiente para uma mudança de parte da população. Medidas adicionais de facilitação à construção seriam outro veículo para estimular este processo, sem recorrer a gastos orçamentais. Medidas como a recente alteração da lei dos solos, com vista à libertação de terrenos classificados como rústicos para a possibilidade de construção de habitação pública, a preços mais moderados, são já sinais de que a solução aqui proposta para o problema da habitação tem já algumas bases para se alicerçar, que há uma visão governamental compatível com esta possibilidade de expansão no interior do país.