Desde o assassinato de Charlie Kirk, multiplicaram-se os artigos que denunciavam a violência e a intolerância da extrema-esquerda woke. Entre todos, foi, a meu ver, Xavier Eman — escritor e intelectual francês — quem melhor resumiu o comportamento de uma parte dos militantes de esquerda perante esta tragédia: “É verdadeiramente fascinante observar aqueles que qualificam a pena de morte aplicada a pedófilos, violadores e assassinos de crianças como uma barbárie desumana, mas que, paradoxalmente, se regozijam com o homicídio de um pai de família apenas por este não partilhar das suas opiniões. O autoproclamado “Campo do Bem” (a esquerda) revela, afinal, um rosto bastante repugnante.”

À primeira vista, poderíamos pensar que estamos perante duas facções irreconciliáveis: de um lado, a direita, tolerante e defensora do debate democrático; do outro, uma certa esquerda intolerante e violenta, incapaz de aceitar verdades que não sejam as suas e de se envolver num diálogo sério. É certo que, observando os dois últimos anos — a tentativa de assassinato de Donald Trump, o homicídio de Charlie Kirk, as manifestações anti-ICE violentas nos Estados Unidos promovidas por antifas, as manifestações em França, levadas a cabo pela extrema-esquerda, ou ainda os protestos no Reino Unido, protagonizados por islamistas e, novamente, por antifas, onde se ouviram gritos de “morte aos judeus” e “morte aos brancos” — seríamos levados a crer que toda a violência política emana da esquerda. Sim, a esquerda tem mostrado um rosto cada vez mais sombrio. Mas creio que é necessário evitar cair no mesmo erro dos militantes esquerdistas mais radicais: separar o mundo entre os “bons” e os “maus”. Não será a realidade mais complexa? E não serão as causas destas violências políticas mais profundas do que o simples “wokismo”?

Existe, sem dúvida, uma tradição de intolerância à esquerda que remonta à Revolução Francesa. Sem pretender cair em exageros ou caricaturas, foram os militantes de esquerda — mais do que os de direita — que instauraram uma atmosfera de intolerância no Ocidente. E, nessa tarefa, encontraram aliados inesperados na figura dos islamistas. Quem desencadeou, nos Estados Unidos e na Europa, o clima da cancel culture? Quem impediu professores de leccionar ou de proferirem palestras, ou escritores de apresentarem os seus livros? Quem queimou livros? Quem agrediu estudantes por defenderem uma ideologia considerada demasiado “patriótica”? Quem ameaçou de morte professores um pouco por todo o Ocidente, como sucedeu com vários docentes fisicamente ameaçados por antifas em França? Quem recorre sistematicamente à violência durante manifestações?

Não fora o deputado revolucionário Antoine Barnave quem justificara o assassinato do director da Bastilha, Bernard-René Jourdan de Launay — assim como as violências cometidas contra diversas pessoas entre os dias 14 e 23 de Julho 1789 — com a frase “Mais ce sang, est-il si pur?”. Barnave inaugurava uma lógica que viria a ser institucionalizada pelos movimentos de extrema-esquerda ao longo dos dois séculos seguintes, prolongando-se até aos nossos dias: a ruptura com a justiça institucional, a multidão erigindo-se em juiz e carrasco. Uma visão política que divide o mundo entre os oprimidos (os puros) e os opressores (os impuros), na qual os primeiros se arrogam o direito de exterminar os segundos em nome da “libertação dos oprimidos”, e, por fim, a legitimação da violência contra aqueles que procuram impedir o advento do paraíso na Terra (o socialismo).

Quantos massacres foram perpetrados aquando da Revolução Francesa — os de Julho de 1789, os de Setembro de 1792 e o genocídio na Vendeia — ou durante a Revolução Russa? E as execuções sumárias levadas a cabo pelos espartaquistas alemães em 1918-1919 (que provocaram uma resposta violenta dos chamados Freikorps)? Do mesmo modo, os assassinatos cometidos pelas Brigadas Vermelhas em Itália durante os “anos de chumbo” nas décadas de 1970-1980  (incluindo o de Aldo Moro) marcaram profundamente esse período. Que dizer das violências perpetradas pela Facção do Exército Vermelho na Alemanha, nas décadas de 1970 e 1980, ou dos assassinatos e ataques terroristas cometidos pelo grupo de extrema-esquerda Action Directe em França — que reivindicou mais de 80 atentados e homicídios entre 1979 e 1987? Sem esquecer os milhões de mortos do Grande Salto em Frente e da sangrenta Revolução Cultural na China, ou ainda o genocídio perpetrado pelos Khmer Vermelhos contra o seu próprio povo, a lista de atrocidades cometidas pela extrema-esquerda — não sem a conivência tácita de uma certa intelligentsia esquerdista do Ocidente, que vivia confortavelmente na opulência proporcionada pelas sociedades capitalistas que tanto odiava — é extensa e continua a crescer.

Mais próximo de Portugal, foi o assassinato de José Calvo Sotelo, em Junho de 1936, perpetrado por membros da extrema-esquerda, que precipitou a guerra civil. O “crime” de Calvo Sotelo? Ter denunciado, num discurso nas Cortes, as violências cometidas pela esquerda nos primeiros quatro meses do governo da Frente Popular: 160 igrejas destruídas, 251 incendiadas, 253 atentados contra locais públicos e privados, 269 homicídios políticos — sobretudo de membros da Igreja e da direita — e quase 1 300 feridos. No final do discurso, a deputada da Frente Popular Dolores Ibárruri, a “Pasionária”, apontou-lhe o dedo e lançou a ameaça: “É o teu último discurso”. Ameaça levada a cabo por membros da Guarda de Assalto da Frente Popular 3 semanas mais tarde. Já então era notório que a esquerda demonstrava uma certa aversão à verdade — sobretudo quando esta não lhe era conveniente.

As estatísticas revelavam, desde a década de 1980, uma quebra acentuada da violência política, bem como dos crimes de ódio racial e religioso no Ocidente. Durante esse período, registaram-se ainda assim alguns assassinatos com motivação política, como o de Pim Fortuyn, em 2002 — morto por um militante ecologista de extrema-esquerda (Fortuyn era crítico da imigração muçulmana) —, ou o do cineasta Theo van Gogh, em 2004, assassinado por um extremista islâmico após ter criticado o Islão. Ainda assim, é verdade que se verificou uma certa acalmia durante cerca de trinta anos. Foi apenas a partir de 2014-2015 que as autoridades norte-americanas e europeias começaram a registar um novo aumento da violência política, racial e religiosa. As ameaças contra membros do Congresso dos Estados Unidos cresceram 1 000% entre 2016 e 2021; o número de crimes de ódio duplicou no mesmo período; e os episódios de violência associados a movimentos de supremacia racial passaram de 421, em 2017, para mais de 5 000, em 2021. Só entre Janeiro e Junho de 2025 foram contabilizados mais de 150 crimes de natureza política nos Estados Unidos (fonte). Quanto à Europa, todos nos recordamos dos atentados do Bataclan, de Charlie Hebdo e de Nice, em França, em 2015 e 2016 — sem esquecer o Padre Hamel, barbaramente assassinado por islamistas.

Quem tem maior responsabilidade nas violências dos últimos anos? Será apenas a esquerda, como afirmou recentemente Donald Trump? Segundo o reputado Cato Institute — de orientação conservadora —, das 3 597 vítimas de atentados políticos entre 1975 e 2025 nos EUA, cerca de 87% foram assassinadas por terroristas muçulmanos (a esmagadora maioria durante os atentados de 11 de Setembro de 2001); 11% (391 vítimas) por terroristas de extrema-direita, sobretudo no atentado de Oklahoma City, em 1995; e apenas cerca de 2% (65 vítimas) por terroristas de extrema-esquerda (fonte). Se a extrema-direita tem sido responsável por mais assassinatos do que a extrema-esquerda nos EUA, desde 2014-2015, a violência de inspiração esquerdista tem vindo a crescer a um ritmo significativamente mais rápido do que a da extrema-direita.

E na Europa? Tal como nos Estados Unidos, a principal ameaça é, de longe, a islamista. Em segundo lugar surge a ameaça de extrema-esquerda, hoje mais relevante do que a da extrema-direita, que permanece residual no continente europeu. Em 2020, foram detidos 254 jihadistas por planearem atentados e assassinatos, tendo-se concretizado 13 ataques levados a cabo por muçulmanos radicalizados. Do lado da extrema-esquerda, 52 pessoas foram detidas e registaram-se 25 ataques violentos perpetrados por grupos comunistas ou anarquistas. Quanto à extrema-direita, 34 indivíduos foram detidos e verificaram-se apenas 4 ataques ligados a grupos ultranacionalistas. Em 2022, o número de islamistas detidos por planearem ou cometerem atentados e assassinatos subiu para 266. Nesse mesmo ano, registaram-se 6 ataques cometidos por islamistas, 18 por militantes de extrema-esquerda e apenas 4 por elementos da extrema-direita, segundo dados da Europol (fonte). Quanto à violência de natureza religiosa na Europa, esta intensificou-se desde 2015. A Alemanha registou um aumento de 20% nos actos anti-cristãos motivados por razões religiosas ou políticas entre 2023 e 2024 — sendo, de longe, o cristianismo a religião mais perseguida no país (fonte), enquanto em França os actos anti-cristãos aumentaram 13% nos cinco primeiros meses de 2025, em comparação com o mesmo período de 2024. Muitos destes ataques foram perpetrados por motivos religiosos ou políticos, nomeadamente por islamistas ou por membros da extrema-esquerda (fonte).

Vários investigadores e criminólogos têm demonstrado que a intolerância, tanto nos Estados Unidos como na Europa, cresce sobretudo entre os mais jovens — a chamada Geração Z, nascida após 1997. Em 2020, cerca de 20% dos estudantes norte-americanos consideravam justificado recorrer à violência política — nomeadamente ao assassinato político — para silenciar um adversário. Em 2025, essa percentagem aumentou para 30% (fonte). O filósofo francês Pierre Valentin cita um inquérito norte-americano segundo o qual 77% dos apoiantes do Partido Republicano rejeitam qualquer forma de violência política, enquanto entre os apoiantes do Partido Democrata essa percentagem desce para apenas 38% (fonte), revelando que a intolerância política é mais acentuada à esquerda, enquanto 55% dos “progressistas” americanos afirmam que seria “justificado” se alguém decidisse assassinar Donald Trump (fonte). No que respeita aos jovens muçulmanos, a tendência para a radicalização torna-se verdadeiramente inquietante. Quase 60% dos jovens muçulmanos franceses com menos de 25 anos — segundo um estudo do IFOP — consideram que a charia, a lei islâmica, é superior à lei francesa. Além disso, 66% destes jovens opõem-se à possibilidade de os professores exibirem caricaturas religiosas nas escolas (fonte).

Concluindo: será a extrema-esquerda woke a principal responsável por este momento de incerteza e intolerância política? Em grande medida, sim — mas não apenas. Vivemos uma época em que a violência política, racial e religiosa cresce em todo o Ocidente, atingindo níveis que recordam tempos passados. Temos o diagnóstico — mas qual é a origem do mal? Como foi possível chegarmos a este ponto, em que os mais jovens deixaram de debater ideias e optam, cada vez mais, pela violência? De que forma pôde o Ocidente permitir que centenas de muçulmanos — muitos deles estrangeiros — cometessem tamanhas atrocidades? Os atentados de Madrid, em 2004, de Londres, em 2005, o massacre do Bataclan, em 2015, o ataque de Nice, em 2016 — para não falar dos constantes esfaqueamentos — e, ainda assim, quase nenhuma reacção firme por parte dos líderes políticos. Onde esteve o controlo das fronteiras?

Como compreender que estudantes de esquerda possam ameaçar professores, encerrar universidades, agredir colegas, incendiar automóveis ou destruir montras durante manifestações “em prol” da Palestina, sem que as autoridades reajam com maior firmeza? Nos Estados Unidos, por exemplo, como aceitar que as autoridades tenham permitido que grupos como os antifas tomassem o controlo de bairros inteiros — como sucedeu em Portland? E que grupos de extrema-esquerda pró-transexuais agridam mulheres no Dia da Mulher apenas por estas afirmarem que “mulher é quem nasce com uma vagina”? É também difícil entender como as autoridades alemãs puderam fechar os olhos à violência contínua perpetrada pelos antifas na Alemanha, que culminou com o espancamento de vários membros — ou supostos membros — da direita, e com a divulgação, por elementos da extrema-esquerda, de uma lista com os nomes de 53 membros da direita alemã (fonte). Finalmente, como aceitar que militantes islamistas e esquerdistas subam às varandas de edifícios públicos, arranquem as bandeiras nacionais e as substituam por bandeiras estrangeiras — sem que, mais uma vez, as elites reajam com sanções exemplares e penas de prisão efectiva para os arruaceiros?

A resposta parece ser apenas uma: as nossas elites são fracas.
Consegue alguém imaginar militantes de extrema-esquerda a arrancar a bandeira do Império Alemão de edifícios públicos nos tempos de Bismarck? Claro que não. Mas a Alemanha de então contava com o apoio de uma nobreza prussiana sólida, intelectualmente brilhante e sustentada em valores marciais e espartanos: honra, coragem, disciplina. O mesmo já não se pode dizer das elites tecnocráticas que hoje dominam a grande maioria do Ocidente cristão. Estas têm medo de agir. Medo dos meios de comunicação. Medo dos articulistas mais à esquerda. Medo das sondagens. Medo pela carreira política. Medo da confrontação — que pode manchar o percurso. Medo de perder privilégios. E sempre que as elites se tornam fracas, grupos extremistas, inimigos da ordem vigente, recorrem inevitavelmente à violência para se impor.

A fraqueza das elites sempre foi sinal de que nos aproximávamos do fim de uma época. Estamos a viver o crepúsculo daquilo a que chamamos “Modernidade” — herdeira do Iluminismo e da Revolução Industrial —, edificada sobre a primazia da razão, da ciência, do Estado-nação e da ideia de um indivíduo autónomo, mas inserido numa comunidade de destino. E, com ela, assiste-se também à queda da “alta burguesia” enquanto classe dominante. As instituições políticas e religiosas enfraquecem-se cada vez mais, enquanto a fé num progresso ilimitado se desvanece. Em contrapartida, regressam comunidades de tipo tribal, alimentadas pelas redes sociais, pelas afinidades identitárias — intensificadas pela imigração extra-europeia em massa — e pelo retorno do simbólico e da emoção. A actual crise de valores, o individualismo extremo, a atomização – e a consequente tribalização, como reacção a essa atomização — bem como a abdicação da responsabilidade política das elites, ameaçam conduzir as nossas sociedades ao colapso.

As violências políticas e religiosas de que tratei ao longo deste texto inserem-se, a meu ver, no processo de colapso das sociedades ocidentais, magistralmente descrito pelo intelectual Michel Maffesoli. Como me dizia este último em Paris, em Abril de 2019, citando Gramsci: “o velho mundo está a morrer, o novo tarda a aparecer, e neste claro-escuro surgem os monstros”.Quase todos temos consciência de que os acontecimentos não prometem nada de bom, mas preferimos fechar os olhos e esperar que um homem providencial nos venha salvar. Resta saber se a cultura das nossas elites — marcada pelo conformismo, pelo materialismo e pela submissão aos “bárbaros”, como forma de preservar os seus privilégios — não terá, afinal, extinguido a possibilidade de surgirem “homens fortes” providenciais. Ainda assim, importa que, como dizia Julius Evola, continuemos a “marchar sobre as ruínas”, sem ilusões:

É inútil iludir-se com as quimeras de qualquer optimismo: encontramo-nos hoje no fim de um ciclo. Há já séculos, primeiro de forma imperceptível e depois como o movimento de uma avalanche, múltiplos processos destruíram, no Ocidente, toda a ordem normal e legítima dos homens, distorceram as concepções mais elevadas da vida, da acção, do conhecimento e do combate. E o movimento dessa queda, a sua velocidade, o seu vertiginoso impulso, foi chamado de “progresso”. Foram entoados hinos ao “progresso” e criou-se a ilusão de que esta civilização — civilização da matéria e da máquina — era a civilização por excelência, aquela à qual toda a história do mundo estava pré-ordenada, até que as consequências últimas de todo este processo se tornaram tais que provocaram, em alguns, um despertar. (Julius Evola, “Orientamenti”, 1950).