O governo francês admitiu que não foi estabelecida uma relação entre o autor do ataque de Nice e “redes terroristas”. Também não foi confirmado se o ataque se deveu a uma conversão súbita do autor ao Islão, ou se antes a uma passagem ao ato de um suicídio-homicídio executado com algum planeamento. Perante aquilo que se conhece sobre Mohamed Lahouaiej Bouhlel, de 31 anos, de nacionalidade francesa e tunisina, pelo menos até há pouco tempo este não era propriamente um crente e as suas motivações terão sido provavelmente mais pessoais do que políticas ou religiosas.

Apesar de sabemos ainda muito pouco sobre esta terrível personagem, nomeadamente sobre a sua personalidade e saúde mental, existem informações de que seria um indivíduo instável emocionalmente e dado a impulsos de agressividade. No seu passado há ainda alusão a pelo menos uma consulta psiquiátrica.

Mais recentemente tivemos outro caso na Alemanha. Um jovem afegão de 17 anos, Muahammad Riayad, atacou várias pessoas com um machado e uma faca num comboio em Wurzburgo, na Alemanha. Aparentemente também se tratou de um “terrorista expresso”, com uma uma ligação ao Daesh ainda pouco sustentada, dado que o ministro do Interior da Baviera, Joachim Herrmann, salientou que não existe nenhuma indicação de que o adolescente tenha estado em contacto direto com o grupo terrorista.

As autopsias psicológicas, que já devem ter começado a serem realizadas pelas autoridades, provavelmente não irão revelar uma patologia psiquiátrica clara que ajude a explicar os tenebrosos atos homicidas. Em ambos os casos, ajudaria, porventura, a criar algum sentimento de segurança na sociedade, se houvesse uma explicação baseada na existência de um distúrbio psiquiátrico que pudesse contribuir para se compreender (mas nunca a justificar) as raízes de atos tão insanos e repugnáveis.

O crime praticado em grupo, sob a alçada de um regime ou ideologia totalitários, pode ter um efeito multiplicador, envolvendo e recrutando sob maior ou menor coação muitas mentes previamente sãs, tal como aconteceu em regimes como o nazi. No entanto, parece que estes casos são diferentes, não existindo aparentemente uma organização por detrás dos crimes cometidos pelo indivíduo. Se for comprovado que não existe uma verdadeira ligação ao Daesh ou a qualquer outra rede terrorista, estaremos perante uma situação gravíssima, correspondendo à eventualidade de um conjunto de psicopatas serem ativados, agindo pelo desejo de notoriedade e reconhecimento de um pretenso feito heroico: o massacre de seres humanos. Estes indivíduos podem acreditar que é uma virtude morrer após matar o maior número possível de pessoas, para assim alcançarem a fama mundial que atualmente os media proporcionam.

Não pode ser excluída a possibilidade de os grupos radicais terroristas, e destas convenientes adesões súbitas à causa, servirem apenas para potenciar a magnitude do ato homicida, incrementando a notoriedade que ele confere ao seu autor. Ou seja, é provável que estes indivíduos com personalidades perturbadas, motivados pelo desejo de sair do fracasso, do desenraizamento, e do vazio das suas próprias vidas, procurem não propriamente uma causa, uma ideologia política ou uma fé radical pela qual valha a pena lutar, mas desejem ardentemente concretizar um momento de glorificação narcísica expressa na frase: “Ainda vão ouvir falar de mim”. Por outro lado, é de todo conveniente para a estratégia terrorista assumir a iniciativa homicida destes psicopatas, reivindicando estes atentados, aumentando desta forma o ambiente de terror e insegurança no ocidente.

É preciso dar um sinal claro de resistência contra a liquidação do bem comum, através do medo, retirando a possibilidade de algumas mentes perversas e perturbadas alcançarem o estatuto de mártires. Será preferível que sejam justamente descredibilizados com o epíteto de “psicopatas sanguinários”, evitando-se mostrar os rostos e os nomes destas sinistras personagens, na comunicação social, de modo a desencorajar que outros tentem fazer o mesmo. De outro modo, há o perigo de se criar na sociedade um fenómeno do tipo reality show, no qual figuras anónimas perturbadas, e sem virtudes reconhecidas, sejam elevadas ao estatuto de heróis, apesar de nada terem feito para o merecer. Deve-se transmitir a ideia de que estas personalidades antissociais não são mais do que meros criminosos, devendo ser julgados e condenados como tal.

Médico Psiquiatra