Nos últimos meses temos assistido a um constante desprezo pelo poder local e  pelas eleições autárquicas que aí se avizinham. Certo é que estas eleições representam  uma idiossincrasia específica de cada localidade, mas a falta de promoção de debate por  parte de alguns órgãos de comunicação social é cabal, permitindo-se que se dediquem  horas intermináveis a discutir putativas figuras candidatas à presidência (é que nem são  medidas nem programas nem ideias, são pessoas, que muitas delas nem anunciaram  candidatura) ao invés de se debater sobre uma eleição bem mais importante (sim, bem sei  que o que estou a dizer está longe de ser consensual) e que de acordo com o calendário,  será mais cedo que a eleição presidencial.

Sendo realista, eu que sou de Paços de Ferreira, não estou à espera que veja o meu  concelho retratado em horário nobre nas televisões nacionais (ironicamente ou não,  apenas aconteceria se alguém fosse indiciado por corrupção), contudo, sou partidário de  uma grande sensibilização nacional para a importância das eleições autárquicas e do  poder local, o poder mais próximo do cidadão.

Infelizmente existem duas lupas que usamos para analisar as autarquias, pese embora, duas lupas muito redutoras: uma lupa prática administrativa (que dá a imagem  das autarquias como simples tapa buracos e manutenção de jardins) e uma lupa política  (que passa uma imagem de mera rampa política de certas figuras para os palcos nacionais,  esquecendo completamente que ser autarca acarreta duas coisas muito mais  fundamentais: servir a população resolvendo os problemas do quotidiano e desenvolver  as terras, por exemplo, construindo mais e melhor). Esta realidade é paradigmática em  concelhos maiores e eu dividiria esse grupo de grandes concelhos em dois: 1, o grupo que  engloba Porto e Lisboa e 2, o grupo que engloba Vila Nova de Gaia, Sintra, Aveiro, Braga  e Cascais. Estes, são os concelhos mais politizados mas é necessário que se preste atenção  a cada freguesia, a cada lugar e a cada pessoa pois são concelhos com uma dualidade na  realidade muito vincada onde tanto existe grandes camadas urbanas com bastante  gentrificação como existe grande ruralidade e desertificação. Passando para a prática na  sensibilização, um cidadão que seja de uma dessas zonas do país, e com grandes  problemas por resolver, como se sentirá sempre que se usa a campanha autárquica única e exclusivamente para falar do perfil do candidato X ou Y e das suas capacidades oratórias tendo em vista um putativo futuro político de âmbito nacional? Cada realidade é uma realidade e usar-se uma autarquia apenas e só como «tubo de ensaio» de políticos para se  aferir o melhor perfil para outras paragens, não abona muito a favor da realidade de  determinado lugar e tem como consequência não abonar muito em favor da democracia.

As autarquias são o primeiro poder junto das pessoas, são as responsáveis pela  implementação de obras e projetos que impactam no crescimento económico local, como incentivos a empresas (as principais potenciadoras do crescimento económico e do  emprego de qualidade) e até programas de habitação (normalmente a custos controlados,  substituindo-se muitas vezes ao malogrado Estado Central que não atua, vítima do seu  cativeiro de falta de eficiência), sobretudo numa conjuntura como a atual, que é tudo  menos favorável à compra de casa e às acessibilidades na procura de quartos a custos  moderados. As autarquias são co-responsáveis (mas com o papel principal) pela aplicação  de fundos comunitários essenciais para projetos de infraestruturas, cultura, turismo e  inovação. Os programas como o Portugal 2030 e o PRR são os principais agentes no  financiamento de projetos municipais que promovem a coesão territorial e que combatem  o flagelo da desertificação. As autarquias podem alocar esses mesmos numa panóplia de  áreas mas eu mencionaria com mais vigor a reabilitação urbana, o suporte à agricultura,  o fomento da economia local, a transição energética, sustentabilidade ambiental e,  também evidenciando, o suporte a novos pequenos e médios empresários, como pedra angular na sua potenciação e, noutros casos, na sua internacionalização. Numa altura em  que a nossa execução dos fundos é manifestamente medíocre, precisamos de autarquias  fortes e capazes de alavancar todos estes resultados positivos dos fundos. Para termos  autarquias fortes precisamos de bons autarcas e para termos bons autarcas precisamos de  debate e de discussão pública sobre o poder local.

Posto isto, espero ter sensibilizado, ainda que em síntese, para a importância das  autarquias e da discussão mediática das eleições que aí se avizinham, sobretudo num país  que sofre de uma doença crónica chamada centralismo. Tendo eu feito um périplo pelas  «positividades» e mais valias do poder autárquico, posso também mencionar uma questão mais negativa mas que nos impacta e nos deve fazer refletir enquanto sociedade, como é  caso da falta de escrutínio ao diáfano dos municípios e freguesias. Quanto menos se  abordam estes assuntos em detrimento de outros tantos fúteis para encher noticiários e  discussão pobre de redes sociais, mais portas giratórias se abrem para quem menos ética  tem, muitas vezes passando impunes vários casos que desonram a democracia portuguesa.

Necessitamos de um municipalismo mais musculado e de uma discussão séria das  presidenciais a seu tempo, não como temos vindo a fazer, abordando perfis e egos  políticos.