Será que a maioria das pessoas gosta da vida que tem ou daquilo que é? Não será que, quando não ousa fazer essa pergunta, não o faz para não ter de se confrontar com respostas com que se magoe, como se cada uma delas não representasse uma porta que se abre para que se vá do conhecimento de si ao gostar de si?
Parece-me que é por fugirmos de reconhecer aquilo de que não gostamos que são poucas as vezes em que paramos e meditamos sobre nós (que será a forma mais próxima de nos vermos “ao espelho” que temos à mão). E que é também por medo que perguntamos pouco se gostamos daquilo que somos. Mesmo que só isso faça logo diferença para sermos melhores.
Às vezes, tenho a impressão que o “se eu não gostar de mim quem é que gosta?”, que se escuta a torto e a direito, traz uma aragem um bocadinho perversa. Porque convida a um gostar impostor, de fora para dentro, mais epidérmico que profundo, como se a transformação humana se fizesse iludindo aquilo de que não se gosta. Como se gostarmos de nós fosse uma maquilhagem, e não tanto uma interpelação directa ao que somos a caminho de várias pequenas transformações. “Se eu não gostar de mim quem é que gosta?” é um atalho que exclui os outros como ponte entre o conhecimento de si e o gostar de si. Como se, sozinhos, pudéssemos mudar quase tudo sem mexer em quase nada. Mas como é que se pode chegar ao gostar de si sem se passar pelo reconhecimento daquilo de que não se gosta?…
E, no entanto, gostarmos de nós faz diferença na forma como gostamos dos outros. Gostamos melhor deles quando (melhor) gostamos de nós. Gostamos mais de nós quando eles (mais) gostam daquilo que somos. E talvez seja essa espiral entre o gostarmos de nós e o gostarem de nós que leve a que gostemos do que somos. Ao amor-próprio! A um sentimento, simultaneamente, de integridade e orgulho. E de humildade. Que, depois de nos confrontarmos com o bonito e o feio que há de nós, faz com que nos tornemos mais livres. De que precisamos para nos darmos melhor, pensarmos melhor, gostarmos melhor ou trabalharmos melhor.
Não será que uma parte (muito significativa) da nossa agitação de todos os dias não se dará, sobretudo, porque perdemos pouquíssimo tempo a perguntar se gostamos de nós? Vendo bem, a partir daí, o que é a ansiedade senão uma forma de falarmos de coisas nossas — de que não gostamos e de que fugimos — que parecem pequenos vultos colados a nós? E a depressão, não será uma desolação que resulta da sensação que as pessoas que gostam de nós nunca chegam àquilo de que não gostamos, de que, todavia, não deixamos, também nós, de fugir?
Compreendo o desafio “conhece-te a ti mesmo” como qualquer coisa que nos puxa para dentro e nos leva a perscrutar o passado e a lê-lo com olhos ver. Mas, ao contrário do que parece, não será o “conhece-te a ti mesmo” uma forma de não se fugir às interpelações que o presente nos traz e, em função delas — e entre aquilo de que não gostamos e tudo o que gostamos — descobrirmos que, por melhor que nos conheçamos, estamos sempre aquém daquilo que sabíamos de nós, e que só com mais vida somos levados a conhecer melhor?
O narcisismo do mundo em que vivemos é o de um mundo em que somos “educados” para não perguntarmos se nos sentimos bonitos ou feios. E que, por isso, se torna um mundo sem espelhos. Onde a ilusão daquilo que somos resulta do desconhecimento daquilo que não se olha. Olhar-mo-nos poucas vezes empurra-nos não tanto para a sensação de que nos conhecemos de fio a pavio mas para o desconforto de existir uma espécie de muitas coisas feias em nós que nos assola, e que fugimos de conhecer. Como se não nos pudéssemos dizer: “Se é que te lembras de mim, sendo que sou e não sou, diz que chega ser assim, mesmo que falte de mim muito a tudo o que te dou.”