128. O número deste ano. Fruto de um casal, Teresa e Clemente, pais de 14, avós de 41, bisavós de umas dezenas. A família – para a qual já todas as casas são pequenas – reúne-se em espaço alugado, no banzé habitual, em vésperas de Natal. As tarefas são habitualmente repartidas: aquele tio trata do perú, aquela tia assegura o arroz árabe, outra desenrasca uma salada ou uma sobremesa. Tudo aos molhos, aos kilos, à farta – não que gostemos de desperdício, mas porque as barrigas não se enchem de ar.

E começam a chegar. Os primeiros têm mais sorte: dispensam ou atenuam a hercúlea tarefa de cumprimentar, um a um, os recém-chegados. Os últimos arriscam uma bochecha inchada ou uma tendinite na mão ao final do dia. Chegassem mais cedo.

Chegam, pousam os casacos, montam os sorrisos; uns libertam as feras (“vá, vão brincar com os primos”). E o banzé vai-se instalando, paulatina e naturalmente, com uma pequena agravante: as tias (minhas queridas tias e mãe) são daquele tipo de gente que acha que a razão é diretamente proporcional ao volume da voz. Por isso, esforçam-se por se ultrapassar, por se fazer ouvir, por ter mais razão, até que o barulho de fundo se começa a assemelhar ao de um galinheiro sob ataque de raposas esfomeadas. É bonito.

Entre os tios, as discussões assemelham-se às daqueles programas televisivos culturais e altamente enriquecedores que passam diariamente na RTP3, na SIC Notícias e na TVI24 sobre a arte futebolística. Lembro-me de ouvir uma vez um tio dizer que o Benfica (na altura, em 3º lugar no campeonato) estava a 7 pontos da liderança porque estava a 2 do Sporting e a 5 do Porto. Dá para imaginar. Quando passam para a política, chega a sentir-se falta de um Ferro Rodrigues para silenciar e repreender os mais indisciplinados.

Nos Natais mais recentes, é preciso especial cuidado a cada passo que damos, não vamos espezinhar um pé, uma mão ou uma pata. Cada passo é medido milimetricamente para não comprometer a integridade física das dezenas de gnomos (meus queridos sobrinhos) que, freneticamente, correm, saltam, gritam e nos contornam a cada segundo.

Uma das vítimas mais recentes dos nossos Natais foi o famigerado “amigo secreto”. Com o avançar dos anos, fomo-nos apercebendo que o mero convívio era mais compensador e proveitoso do que centralizar atenções durante 3 horas para desfazer embrulhos e distribuir meias, sacos de gomas, jogos para a Playstation 2, porta-cd’s e afins – o que indignava sempre, compreensivelmente, a tia que investia avultadas somas na camisola da Springfield ou no top da Zara.

No meio desta feira, reina a unidade. Em torno de uma pessoa. A rainha da família, mulher formosa, singela, elegante e delicada. A mesma que, em tempos – reza a lenda – abriu a cabeça à “sapatada” a um dos filhos depois do fedelho ter posto um gato na retrete e puxado o autoclismo. Imagine-se. Nos seus pensamentos e das suas 94 primaveras, deverá – imagino eu – contemplar aquele circo, lembrar o meu avô e pensar para si, sorrindo: “mas que raio fomos nós fazer?”.

Foi dar-nos a nós, filhos, netos e bisnetos, a maravilhosa oportunidade de vivermos, em família, uma experiência única. Uma experiência que não se limita ao dia de Natal, mas que se estende a muitos outros momentos (como as férias em São Martinho do Porto ou os fins de semana em Penacova) e a várias relações (não tivéssemos uns nos outros muitos dos nossos grandes amigos). Não somos perfeitos e também temos os nossos problemas. Mas, neste dia, tudo se torna secundário porque nos reunimos para celebrar o mais importante que temos: a vida e a família.