O ano de 2020 será recordado como “ano para esquecer”.

No ano em que o mundo parou, também as expectativas foram capturadas por uma angústia que nunca tínhamos conhecido, uma incerteza constante alimentada pelas notícias do dia seguinte que eram sempre piores que as do dia anterior. Só a chegada da vacina permite sentir alguns ventos de esperança.

O ano surge com esta aragem de nova esperança, mas os efeitos da pandemia deixaram um rasto de destruição económica que exige uma resposta muito para além dos instrumentos tradicionais. Os últimos números de novas infecções são assustadores e, em obediência ao bom senso, o país será obrigado a entrar num novo confinamento.

É um imperativo de saúde pública, mas exige uma rede de apoios públicos vigorosa, rápida e eficiente.

O Orçamento para 2021 não passará sem um orçamento rectificativo e, nesse rectificativo, teremos de assumir o que, infelizmente, não foi reconhecido no orçamento aprovado: a condição de “orçamento de guerra”.

Um orçamento que injecte liquidez na economia, o combustível necessário para que a máquina de produzir valor não pare. Da esquerda à direita, passando pelos fundamentalistas do défice, todos concordarão com o imperativo de uma forte intervenção pública. Todavia, a forma já não será consensual. O modelo assente na intervenção por via do consumo já provou à exaustão a sua ineficiência.

Incentivar o consumo por via do aumento dos salários, sem aumento da produção, é um presente envenenado. Aliás, o aumento real do salário só poderá ser feito por aumento da produtividade, como pode ser facilmente demonstrado por um simples exemplo: se duas pessoas tiverem 2 euros cada e só existirem duas laranjas disponíveis, cada uma estará disposta a pagar 2 euros por uma laranja. Se duplicarmos o rendimento dessas duas pessoas para 4 euros, mas mantivermos as mesmas duas laranjas, cada uma estará disposta a pagar 4 euros por cada laranja – o rendimento duplicou, mas cada um continua a comer apenas uma laranja. Ou seja, a única coisa que gerámos foi inflacção.

O exemplo é básico, mas retrata com fidelidade a realidade. É neste erro que temos persistido, com danos graves para a economia. Maior inflacção representa perda de competitividade externa, menor competitividade resulta em menor receita e menos receita implica menos investimento e menos emprego.

É desta espiral destrutiva que somos desafiados a sair com a aplicação da tão desejada “bazuca financeira”.

Transformar esta enorme crise numa oportunidade só depende da vontade e coragem política. Coragem para rasgar a tentação fácil de distribuir dinheiro à espera que ele se multiplique e, pelo caminho, renda umas centenas de milhares de votos. Coragem para fazer chegar estes fundos às empresas que criam valor, que geram riqueza e pagam justos salários.

O novo modelo terá de ser focado na produção, seja agrícola, industrial ou serviços, o importante é injectar “combustível” nas máquinas que geram valor. Injectar significa entrar no capital, aumentar a solvabilidade e reduzir custos financeiros.

Significa trilhar caminho para um novo paradigma de financiamento à economia, onde as poupanças são canalizadas para o investimento, constituindo uma verdadeira alternativa ao tradicional financiamento bancário. Significa uma mobilização dos capitais para um conceito de partilha de risco, ao invés do tradicional modelo de simples prémio pelo risco.

É, também, uma oportunidade para afirmar uma economia social de mercado, valorizando nos critérios de ponderação as relações laborais que desenvolvem políticas de remuneração justas, onde a remuneração é premiada quando há aumentos de produtividade, onde a empresa é sentida e reconhecida como agente de criação de riqueza, mas também de repartição equitativa.

Esta pandemia já nos fez perder muito, as vidas que levou são irreparáveis, mas do ponto de vista económico e financeiro temos a obrigação de transformar o que já foi um custo numa nova oportunidade.

Depende de nós e, no que depender de nós, não temos o direito de falhar.