Num tempo em que a política exige decisões, em que o confronto se impõe sobre o conforto do egoísmo individual, a única coisa que a direcção do CDS tem para dizer é que será neutra e indiferente à eleição do próximo Presidente da República.
O momento não recomenda fugas, aconselha afirmação, O CDS deveria ter colocado aos candidatos as perguntas que definem fronteiras e, em função das respostas, decidir.
O tempo que vivemos não admite tibiezas e castiga severamente a falta de coragem. Há perguntas que ninguém fez aos candidatos, mas são diferenciadoras, o CDS podia e deveria tê-las feito, nomeadamente:
- Apoia o suporte europeu à Ucrânia, ou admite oferecer a vitória a Putin?
- Admite que Portugal integre uma força das Nações Unidas contra ameaças à integridade dos Estados da Nato, respeitando o art.º 5º, mesmo que essa ameaça seja feita pela irreflectida e irresponsável administração Trump?
- Dissolve a Assembleia se o orçamento não for aprovado?
- Vetará leis que atentem contra a vida?
- Manterá apoio a uma CPLP disfuncional que nada acrescente, ou promoverá uma comunidade económica de países de língua portuguesa?
Muitas mais perguntas poderiam ser feitas, mas o CDS não fez nenhuma. Apenas disse que não apoia socialistas ou populistas. Acontece que os resultados da primeira volta já fizeram um vencedor, e esse é o que chamam candidato populista.
Apesar das sondagens apontarem para uma larga maioria de António José Seguro, o único que já venceu, mesmo antes dos votos serem contados, é André Ventura. Ganhou a liderança da Direita, reduziu o candidato apoiado pelos partidos do poder à insignificância política.
O designado populismo costuma ser utilizado para classificar os desalinhados, os que não seguiram o caminho da partidarite, os que rejeitaram a sujeição da ética ao pragmatismo dos favores que o poder oferece.
Aí, a escolha fica difícil porque ambos os candidatos são desalinhados. Sim, a segunda volta é feita entre candidatos que não pertencem ao designado arco da governação, que, traduzido, significa arco dos interesses.
Por isso, os mesmos de sempre estão apavorados. Fazem fila para anunciar apoio a um dos candidatos, subscrevem listas de “notáveis”, mas os apoios manifestados não passam de tentativas desesperadas de fazer de conta que a opinião deles conta, mas já não conta nada.
Estão fora, fazem parte de um passado que deixou más memórias
Ventura e Seguro desafiaram o aparelhismo dos velhos partidos, e hoje representam mais de 70% do eleitorado, essa é a verdade que alguns têm dificuldade em assimilar. A conversa do fascismo e do socialismo é milho para pombo tolo, nem Ventura é fascista nem Seguro socialista.
A verdade é só uma. O sistema levou um banho e os seus órfãos estão a tentar colocar a cabeça à tona da água, numa tentativa desesperada de sobreviver politicamente.
Muitos fazem-no da forma cobarde, porque não fazem depender o apoio pelas virtudes do candidato, são incapazes de ver virtudes para além do seu próprio espelho, justificam-se pelos defeitos da alternativa.
Falam em defesa da democracia, e das suas virtudes, mas subtilmente mostram desconfiança dos votos dos portugueses, porque consideram que escolheram mal na primeira volta e, por isso, dizem que na segunda volta não se escolhe, exclui-se.
Não percebem, nem vão perceber, que o voto e a democracia são verdadeiramente sábios e escolheram virar a página. A página a que pertenceram, foi virada.