Quando ler este texto o leitor já deve saber quem venceu as presidenciais nos EUA. A informação que detém neste momento pode ser importante porque na Europa consideramos que a América de Trump será diferente da de Biden. No fundo, cremos que com Biden regressamos ao passado, àquele tempo em que os EUA faziam guerras que os europeus criticavam, mas cuja falta sentiram quando Trump virou as costas aos interesses europeus. Não gostei o primeiro mandato de Trump, nem creio que vá gostar do segundo, caso este exista (o leitor mo dirá, que já sabe). Mas sei o seguinte: mesmo com Biden a América não voltará a ser a América que Reagan deixou a Clinton.

No seu último discurso na Casa Branca, Ronald Reagan elogiou os imigrantes ilustrando-os como a força da América. O mais interessante nas suas palavras é que Reagan não distinguiu entre imigrantes bons e maus, entre qualificados e não qualificados. Todos eram bem-vindos porque todos tornariam a América melhor, já que mais rica, e mais rica porque mais diversificada. Essa América de Reagan foi o auge da América que saiu do pós Segunda Guerra Mundial. Foi a América que conhecemos e que pode estar à beira do fim. Não o fim de um país, mas de uma fase, uma das várias que os EUA já tiveram, o início de outra, isolacionista (como já foi no passado), tecnológica e não tão liberal quanto somos na Europa.

Quem o diz não sou seu, mas Bruno Maçães no seu terceiro livro, History Has Begun. Não conheço Bruno Maçães, mas surpreende-me a pouca relevância que por cá se dá um português com uma experiência profissional ímpar e cuja obra é objecto de recenseamentos em várias publicações internacionais, desde o Wall Street Journal, ao The Times, passando pelo Financial Times, pelo menos entre aqueles que apanhei. A tese de Maçães é que os EUA não se encontram em declínio, mas no início do que pode ser o seu apogeu. A tese é interessante se tivermos em conta a irrelevância tecnológica europeia, a que se associa a sua decadência económica e social que torna os europeus mais num peso que numa mais-valia. É ainda relevante quando nos vemos defronte a uma China que encara os outros estados, não como aliados mas meros parceiros internacionais, Washington poderá ser tentado a pôr um ponto final na sua política de expansionismo liberal. Esta agenda, iniciada depois da segunda Guerra Mundial, tem custos internos e externos elevados. Internamente, uma dívida federal elevada e a perda de empregos na indústria. Externamente, a repulsa de certos países e regiões perante o poderio norte-americano. Este é o entendimento de muitos norte-americanos, cidadãos e dirigentes políticos e militares incluídos.

O isolacionismo norte-americano foi combatido com o argumento que, perante o fim do império britânico, surgiu um vazio de poder que teria de ser preenchido. Se  Washington não o fizesse, alguém o faria; se não viesse mais ninguém o caos ocuparia o lugar. Foi neste pressuposto que os EUA agiram a partir de 1941, repetiram a proeza, mais tarde, para evitarem a hegemonia soviética e, novamente, a partir de 1989 para evitarem a anarquia internacional. Se assim foi, por que motivo este argumento pode não vingar em 2020 e nos anos subsequentes? Por duas razões muito simples que se encontram explanadas num interessante artigo de Michael Beckley, publicado na última Foreign Affairs. Para Beckley, o século XXI será o de uma América iliberal. Depois do século XIX, que foi essencialmente europeu, do XX marcado por uma América liberal, o XXI pertencerá a uns EUA detentores de uma supremacia tecnológica que permitirá a Washington afastar-se do resto do mundo. Neste ponto, julgo que os argumentos de Maçães e Beckley são semelhantes. Beckley refere que a China enfrenta dois problemas: o envelhecimento da sua população e um atraso tecnológico relativamente aos EUA que pode ser fatal para as suas aspirações de domínio. O envelhecimento da população chinesa acarreta duas consequências determinantes. Em primeiro lugar, perda da capacidade militar: nenhuma potência, por muito emergente que seja, inicia guerras com uma população envelhecida (um argumento que Kissinger também subscreve em ‘On China’). Em segundo lugar, uma população envelhecida acarreta custos sociais elevados, ao ponto de, segundo Beckley, o pagamento das pensões e cuidados médicos na China triplicarem por volta de 2050. Não estamos assim tão longe do meio do século. São só trinta anos (para termos uma referência é apenas a distância a que nos encontramos de 1990).

Já o predomínio tecnológico norte-americano pode transformar a indústria, ao ponto de esta voltar a ser canalizada para os EUA. Beckley refere-se às cadeias de produção e de distribuição que podem passar a ser organizadas e feitas de acordo com inteligência artificial. Menciona ainda como exemplos os call centers que se estão mover novamente para dentro dos EUA.

Uma América com uma população menos envelhecida que a Chinesa (e Russa, já agora) e reindustrializada não precisará do resto do mundo como nas últimas décadas necessitou. Voltará a ser egoísta (no sentido que podemos atribuir à condução da política externa de um Estado) como o era até Woodrow Wilson.

Esta América, seja de Biden ou de Trump, bem pode ter vindo para ficar. Se assim for, Trump não foi disruptivo. A linguagem e modos que utilizou poderão ter dado essa ideia, mas Trump bem pode ser o início da dita América iliberal. Se assim for, a crise de identidade norte-americana a que assistimos praticamente todos os dias será uma crise de crescimento. Bastante diferente da europeia, que é de acomodação e desistência.

É por estas razões que, mais que olharmos para as eleições norte-americanas como se de um concurso engraçado se tratasse, seria bom que cada um de nós, cidadãos de  estados europeus, ponderássemos o que pretendemos no futuro próximo. Tão só porque a sobrevivência da nossa qualidade de vida e das democracias europeias está em jogo.