E se existissem portas para nos levar de volta ao passado? É esta a premissa de “Uma grande, corajosa e bela viagem”, o novo filme do realizador sul coreano Kogonada, com Colin Farrell e Margot Robbie nos papéis principais. A fantasia de poder voltar ao passado é fértil no território da imaginação humana, talvez porque desejamos sempre poder recuperar os momentos, as pessoas, os amores que já nos fugiram no tempo presente. David (Colin Farrell) e Sarah (Margot Robbie) foram agraciados com o privilégio desta viagem ao passado, mas que podem eles fazer com o passado? Rapidamente esta pergunta vira-se para o espectador — o que podemos nós, meras criaturas mortais, fazer com o nosso passado inalterável e inalcançável? O que podemos nós fazer contra um lugar como o passado? Um lugar que ou deixa saudades ou arrependimentos?

Na imagem, David (Colin Farrell) e Sarah (Margot Robbie) confrontam-se com uma porta para o passado. 

Talvez não desde o primeiro momento, mas à medida que as personagens se deparam com estas perguntas sem resposta, o filme arrebata-nos e, do lugar confortável da nossa cadeira, vamos sendo instigados a procurar as nossas próprias respostas dentro do enredo da nossa vida e do nosso passado.

Talvez para nós, que não vivemos dentro de um filme, o passado não se possa visitar, mas muitas vezes esquecemo-nos de revisitar o que dele resta dentro das nossas memórias. Sarah e David agarram essa oportunidade — falam com os pais que perderam, com os seus “eus” de infância, com os primeiros amores. Mas a verdade é que talvez a conversa mais importante que Sarah e David têm na sua viagem ao passado seja consigo mesmos.

Um filme que nos deixa com a sensação de termos estado a sonhar e que nos alerta para a necessidade cada vez mais premente de estarmos em contacto com aquilo que guardamos dentro dos meandros da nossa intimidade. Num mundo em constante atualização, onde há fome de pressa, estamos a engolir emoções e pensamentos a uma velocidade que não nos permite digeri-los. “Uma grande, corajosa e bela viagem” é um filme que entra dentro da nossa memória sem pedir licença, e que por lá se demora durante dias e dias. Um filme que nos enche a alma e o olhar com as suas cores vibrantes e paisagens de fantasia. O realizador Kogonada usa a cor como um meio de comunicação tão forte como a palavra. David veste quase sempre de azul, Sarah de vermelho, e talvez nada disto seja por acaso. Sarah anseia sempre pelo futuro, tudo nela se enche até transbordar, até a culpa que a invade sempre que foge do momento presente. David não procura o futuro porque ele próprio é uma continuação do passado, o seu corpo é como que uma extensão da tristeza de ter chegado à idade adulta com um pensamento banal e constante que já nos passou pela cabeça a quase todos — “afinal, não sou especial”.

139 minutos de reflexão sobre a forma como os adultos esquecem o seu passado e se perdem dele, mas ao mesmo tempo sobre a forma como se condenam ao seu imobilismo. Nós, adultos, temos tendência para acreditar que estamos condenados a ser um resultado do nosso passado, mas a criança que deixámos para trás ainda acredita na mudança que o futuro pode trazer. “Uma grande, corajosa e bela viagem” estreou dia 18 de setembro, mas não precisam de voltar ao passado, ele ainda está por aí nos cinemas.