Os “empates técnicos” das sondagens à boca da urna servem muito bem os comentários na noite das eleições, sobretudo nas autárquicas. Veja-se o que aconteceu ontem em todos os canais de notícias no caso das eleições em Lisboa. O “empate técnico” permitiu alimentar a dúvida em relação ao vencedor até muito tarde. No entanto, não impediu que muitos analistas retirassem outras conclusões, sem esperar pelo fim do “empate técnico.”
Em primeiro lugar, muitos disseram que a vitória do Moedas, “a confirmar-se”, seria “muito poucochinho.” Deviam ter esperado porque foi uma grande vitória. Moedas acrescentou quase trinta mil votos ao seu resultado de há quatro anos. Ao contrário, a coligação liderada por Alexandra Leitão perdeu cerca de onze mil votos em relação aos resultados dos quatro partidos nas últimas eleições. A lista de Moedas conseguiu eleger mais um vereador. Não conseguiu maioria absoluta, mas não foi uma vitória pequena. Querem saber o que foi uma eleição por “muito poucochinho”? A primeira eleição de António Costa, eleito com menos de 30% dos votos e com seis vereadores (menos dois do que Moedas teve ontem).
Mas a duplicidade de critérios é igualmente extraordinária. O resultado de Moedas ontem foi muito semelhante ao de Medina em 2017: ambos tiveram cerca de 40% dos votos e oito vereadores. Não me lembro de alguém ter dito que a vitória de Medina era “muito poucochinho.” Além disso, Carlos Moedas acabou com uma hegemonia socialista em Lisboa de década e meia. Com duas vitórias eleitorais seguidas, feito que nunca outro candidato do PSD havia alcançado até hoje. Um feito alcançado pela primeira vez em meio século é histórico. Não há outra maneira de descrever as duas vitórias de Moedas.
A segunda mentira da noite foi que o PCP era o culpado pela derrota de Alexandra Leitão. Como disseram muitos, “a esquerda unida teria vencido.” O que ninguém disse foi o que aconteceria com a direita unida? Parece que em Portugal só a esquerda é que tem o direito de se unir, a direita não goza do mesmo direito; deve estar sempre dividida. Ora, o que aconteceu foi que a direita tornou-se maioritária em Lisboa: 10 vereadores contra 7 da esquerda.
Os comentadores amigos do PS nunca conseguiram reconhecer o óbvio. Alexandra Leitão foi uma má candidata e fez uma campanha péssima. A aliança com o Bloco diminui, não aumenta. Moedas fez uma campanha melhor, foi sempre mais credível e os lisboetas querem que continue como Presidente da autarquia. É simples.
Obviamente, Carlos Moedas tem um desafio importante pela frente: a construção de maiorias. Não haverá uma coligação para o mandato inteiro, mas sim maiorias a “la carte.” Provocará desgaste, tensão e obrigará a gastar capital político que poderia ser usado de um modo mais construtivo, mas é a realidade política de Lisboa.
É muito provável que o parceiro mais comum de Moedas seja o Chega. Alexandra Leitão foi muito clara na sua determinação em fazer oposição a Moedas, o que é natural e saudável politicamente. Além disso, Alexandra Leitão não está sozinha, está com as esquerdas radicais. Essa coligação impede qualquer tipo de “bloco central” em Lisboa.
Algumas pessoas próximas de Carlos Moedas acreditam que a CDU poderá votar com a coligação vencedora (ou acreditavam até ao resultado final). Não acredito em coligações com João Ferreira, pela simples razão que a CDU ficou atrás do Chega. Com menos um vereador do que o Chega, a CDU sofreu uma derrota dolorosa em Lisboa. Esse resultado vai radicalizar a CDU e empurrá-la para a oposição a Moedas. Resta o Chega para construir maiorias em momentos diferentes.
A uma abertura da coligação liderada por Moedas, o Chega terá que responder com responsabilidade política. No contexto autárquico, as posições ideológicas são menos importantes. O pragmatismo dos resultados, das soluções para os problemas e desafios locais, é o que mais conta. Os resultados das eleições de ontem serão um grande teste ao sentido de responsabilidade e ao pragmatismo político do Chega (e não será só em Lisboa, também será no Porto, em Gaia, em Sintra e até em Cascais).
Em Lisboa, se os vereadores do Chega forem responsáveis perceberão que os lisboetas deram um mandato forte ao Carlos Moedas para governar. O eleitorado de Lisboa quer Moedas como Presidente da Câmara. Compete agora ao Chega decidir se quer ajudar Moedas a resolver os principais problemas da cidade de Lisboa.