Segundo o Dicionário da Academia das Ciências de Lisboa, ‘leigo’ é alguém “que não pertence à hierarquia eclesiástica”, ou seja, “que não é clérigo”, ou então a “pessoa que não é perita num assunto” (vol II, pág. 2243). Pode-se dizer que Henrique Raposo faz o pleno, pois não só não pertence à hierarquia eclesiástica, nem é clérigo, como também não é perito no assunto sobre o qual, não obstante, se pronunciou no Expresso, na sua recente crónica intitulada “Não se ajoelhem na missa, ajoelhem-se para lavar os pés dos outros”. 

Manuel Fúria e José Maria Bleck, que também são leigos no primeiro sentido, mas não no segundo, já responderam, em excelentes textos publicados na Visão e no Observador, respectivamente, ao duplamente leigo Raposo. Não obstante esses seus muito pertinentes comentários, parece-me oportuno, como alguém que pertence à hierarquia eclesiástica, é clérigo e, passo a imodéstia, perito no assunto, prestar mais alguns esclarecimentos sobre a questão litúrgica em apreço.

Henrique Raposo começa por afirmar que, actualmente, “os jovens estão à direita dos pais e avós”, para depois dizer que entende a distinção entre esquerda e direita ao nível da que estabelece entre o Benfica e o Sporting. Infelizmente, ambas as analogias pecam por despropositadas quando aplicadas a questões litúrgicas porque, nestas matérias, não cabem partidarismos políticos, nem clubismos desportivos, mas apenas a verdade, segundo o autorizado parecer do magistério da Igreja. É por isso que, sobre estas matérias, não se pode expressar quem quer, mas quem está para o efeito habilitado pela sua formação teológica, ou está constituído em autoridade eclesial, dois predicados que, manifestamente, faltam ao referido cronista.

Com idêntica superficialidade, Henrique Raposo refere-se ao que designa como “paganismo trumpista”, numa evidente concessão ao pensamento politicamente correcto. O actual Presidente dos EUA não é, como é por demais evidente, católico, mas talvez seja, contudo, mais cristão do que o seu ‘católico’ antecessor que, por defender publicamente o aborto, foi proibido, pelo seu bispo, de comungar. Se não fosse inconveniente invocar o demónio, seria caso para dizer que, entre o ‘catolicismo’ de Joe Biden e o ‘paganismo’ de Donald Trump, venha o diabo e escolha …

Estou de acordo com Henrique Raposo quando escreve: “Neste movimento geracional dos jovens, há uma procura do sentido religioso e espiritual que faz todo o sentido; nascidos no vórtice da tecnologia e da net, estes jovens estão a tentar preencher um vazio religioso e espiritual que a sociedade da tecnologia e da rapidez não preenche. E é triste ver tanta gente a ver nisto “retrocesso” ou “fascismo”. A ladainha habitual da esquerda que agora já nem cola, está gasta, cansa, satura.”  A minha experiência pastoral, nomeadamente como capelão de um colégio e de uma escola profissional, confirma esta tendência: muitos jovens procuram, na religião, um sentido mais profundo para a sua existência.

O cronista teme que este renascimento espiritual entre os mais novos descambe para os excessos de uma falsa piedade: “Vejo demasiadas manifestações de uma religiosidade pomposa que não tem nada que ver com a intimidade evangélica com a Palavra, com a fé, com Deus. Jesus alertou contra as formas de fé que se preocupam apenas com a etiqueta exterior, com o ser visto pelos outros, o parecer em vez do ser”. 

É algo atrevido, senão mesmo temerário, o julgamento que o cronista faz da religiosidade dos jovens. É verdade que Jesus reprovou a piedade farisaica, propondo uma prática religiosa que assente na verdade e na simplicidade: a oração discreta (Mt 6, 5-8); o sacrifício feito ocultamente (Mt 6, 16-18); e a esmola dada em segredo (Mt 6, 2-4). Mas, que a piedade cristã tenha esses predicados não quer dizer que não possa ser, externamente, magnífica, quando assim o exige a glória de Deus. Quando os fariseus quiseram impedir a entrada triunfal em Jerusalém, que Raposo consideraria “pomposa”, Jesus, em vez de dar razão ao seu protesto, disse-lhes que, se eles se calassem, até as pedras o louvariam! (Lc 19, 28-40).

É também muito superficial o seu juízo sobre a opção pela Missa dita tridentina, ou em latim: “Oiço falar das missas tridentinas em latim, por exemplo. Dizem que procuram a pureza original. Como assim? Se querem a pureza original aprendam grego (língua do Evangelho) ou aramaico (língua de Jesus). O latim já é a terceira camada, não será muito diferente da quarta, os idiomas nacionais. O mistério de Deus não se torna mais belo só porque estamos a ouvir uma língua que só é misteriosa porque não a entendemos. A ignorância não é misteriosa.” 

Os leigos, em matérias litúrgicas, costumam dizer que o Concílio Vaticano II proibiu as Missas celebradas de costas para os fiéis e substituiu o latim pelas línguas vernáculas. Nada mais falso: a Constituição conciliar sobre a sagrada liturgia, Sacrosanctum Concilium (SC), não manda, aconselha, ou sugere que se celebre a Eucaristia de frente para os fiéis, pois é uma questão que nem sequer é abordada neste documento conciliar! Portanto, não são os defensores da celebração orientada tradicionalmente que são contra o Concílio, mas talvez os que querem passar por conciliar uma opção litúrgica que não tem, no Vaticano II, o seu fundamento.

Henrique Raposo supõe que o apego ao latim é um capricho disparatado, até porque Jesus não falava essa língua, em que também não foi escrito o Novo Testamento. É certo, mas consta que, sobre a Cruz de Cristo, foi afixada a inscrição Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus, em latim, grego e hebraico (Jo 19, 19-20). O latim era a língua franca de todo o império e, por isso, o idioma comum aos primeiros cristãos. Foi precisamente em Roma, onde Pedro e Paulo foram martirizados, que se estabeleceu o vigário de Cristo e que é, desde há dois mil anos, a capital da Cristandade.

O latim é a língua oficial da Igreja: todas as constituições do Concílio Vaticano II, como a versão original e autêntica dos documentos do magistério pontifício, como os Códigos de Direito Canónico, ocidental e oriental, e as encíclicas papais são redigidos em língua latina. Foi em latim que se compuseram inúmeros hinos cristãos, como o Stabat Mater e o Te Deum. Traduzir, por absurda hipótese, o Requiem de Mozart para as línguas vernáculas não seria apenas um rematado disparate, mas um crime contra o património musical da humanidade. Isto, que Henrique Raposo parece não perceber, sabem-no, por experiência própria, muitos jovens, que encontram, na liturgia em latim e no cântico gregoriano, a sublimidade e beleza que um primitivo batuque ou uma festivaleira guitarrada não conseguem expressar.

Em relação ao latim, o último Concílio ecuménico não só não proibiu o seu uso litúrgico como até – espantem-se, ó leigos ignaros! – o aconselhou vivamente. Com efeito, no § 1 do n.º 36 da SC, diz-se expressamente: “conserve-se o uso do latim nos ritos latinos”; no § 2 permite-se o uso das línguas vernáculas, mas como excepção à regra do uso do latim. O mesmo se diz no n.º 54 da mesma constituição conciliar: “Nas Missas celebradas com o povo pode dar-se um lugar conveniente à língua vulgar, sobretudo nas leituras e ‘oração comum’ [também chamada oração dos fiéis ou universal][…]. Tomem-se providências, porém, para que os fiéis possam recitar ou cantar em conjunto, mesmo em latim, as partes do ordinário de Missa que lhes competem.” Note-se que o uso das línguas modernas não é exigido, mas apenas tolerado, ou permitido, nas Missas com povo, enquanto se encarece que os “fiéis possam recitar ou cantar em conjunto, mesmo em latim, as partes do ordinário de Missa que lhes competem.” A propósito da revisão do saltério, diz-se que se deve “respeitar a língua latina cristã, o seu uso litúrgico mesmo no canto, e toda a tradição da Igreja latina” (SC, n.º 92). Em sentido idêntico, determina-se que, “conforme a tradição secular do rito latino, a liturgia a usar no Ofício divino é o latim” (SC, n.º 101, §1). Outro tanto se afirma em relação ao canto: “A Igreja reconhece como canto próprio da liturgia romana o canto gregoriano [que é em latim]; terá este, por isso, na acção litúrgica, em igualdade de circunstâncias, o primeiro lugar” (SC, n.º 116).

Assim sendo, impõe-se uma inquietante questão: se, afinal, os defensores do latim e da Missa celebrada de forma tradicional são os cristãos fiéis à letra e ao espírito do Vaticano II, a que letra e a que espírito obedecem os crentes que, por serem contra o latim e a forma tradicional de celebração da Missa, contradizem o concílio?!